Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

12
Abr 11

Sacia a minha fome com os teus lábios encharcados de fim de tarde, abre a porta do meu corpo, esta, sim essa mesmo, abre-a e entra, e depois, depois deita-te nos meus braços debaixo do canavial, os pássaros devoram-te e dos pássaros lixo atirado pela janela, e ontem eu nos teus lábios e ontem eu com fome dos teus lábios, sacia o meu corpo com os teus olhos, sabes, diz, aqueles que deixaste junto ao muro quando o rafeiro se atirou aos teus tornozelos e ão, ão ão, e maldito cão que só pensa em roer, e maldita fome a tua que só pensas nos meus lábios, ão ão ão…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:09

28
Mar 11

Hoje um péssimo dia. Palmilhei as ruas pedinchando e nada, nem uma moedinha, nem um cigarrinho, nada, nem um pratinho de sopa. Hoje péssimo dia. Há dias assim.

Dói-me o estômago, e a fome toma conta dos meus braços, sinto-me levemente nas ruas da cidade, e começo a ficar desprovido de peso, a roupa dança-me no corpo a valsa da fraqueza e os sapatos parecem pertencer a um defunto esquecido num banco de jardim.

Dói-me o estômago e hoje apenas me alimentei de um texto de Luiz Pacheco, o gajo é maluco, mas é melhor que nada, e percebo porque há pouco enquanto defecava pela calçada começaram a correr palavras do Libertino e das Cartas ao Léu, mas se a comida é pouca a defecação também não poderá ser muita…

Hoje um péssimo dia. Palmilhei as ruas pedinchando e nada, nem uma moedinha, nem um cigarrinho, nada, e dou conta que a cama em papas, os papelões encharcados pela chuva, o pobre quando anda em maré de azar até os cães lhe mijam nas botas, e o pançudo do meu cão agora cismou que quer ser deputado, e começou a aprender a escrever,

- já escrevo o meu nome,

Aos poucos e devagarinho aprender a ler,

- juro pela minha honra…

E qual honra qual carapuça,

E por fim aprender a contar, um dois três,

- três mil euros mensais,

Dói-me o estômago e hoje apenas me alimentei de um texto de Luiz Pacheco, o gajo é maluco, mas quando a fome aperta tudo serve para dar corda aos sapatos…

 

 

 

(texto de quase ficção)

FLRF

28 de Março de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:25

24
Mar 11

Olho no espelho o meu rosto amargo

E tenho medo à minha imagem reflectida,

Sou perseguido pelas sombras da noite

Quando o meu quarto entra em transe

 

E vai esconder-se dentro do guarda-fatos minúsculo.

Se eu pudesse também me escondia

E ao lado da noite construía…

Nada.

 

Que posso eu construir

Quando na minha mão habita a miséria

E no meu cérebro vivem palavras que ninguém,

Ninguém, que ninguém compreende e critica,

 

Pensam que estou louco,

Doente,

Eu doente?

A minha doença chama-me fome…

 

Não aquela fome que o estômago compreende,

A minha doença chama-se fome de sofrer.

Olho no espelho o meu rosto amargo

E tenho medo à minha imagem reflectida;

 

E serei eu o que aparece no espelho?

E se eu for uma abelha

E o que aparece no espelho uma sombra?

E se a sombra for uma abelha

 

E eu o espelho onde habita o meu rosto?

E se abelha deixar de ter asas

E no meu rosto nascerem gaivotas?

Olho no espelho o meu rosto amargo

 

E percebo que hoje é um péssimo dia

Para adormecer…

Porque hoje o meu rosto não voa

Nas asas da abelha…

 

 

Luís Fontinha

24 de Março de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:21

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