Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

27
Ago 14

Orvalhara o feldspato frio do meu peito,

Inventaste a manhã para me obrigar a acordar,

Roubaste-me os sonhos que embrulhavam a noite de carvão…

Semeaste nos meus braços o desejo,

Plantaste em mim a flor proibida,

Plantaste em mim o jardim dos beijos,

 

 

Escreveste nos meus cabelos “amo-te”…

Quando do açafrão o amarelo amanhecer penetra o meu olhar,

Sinto as minhas pálpebras de papel voarem em direcção ao mar,

Sós…

Como se elas fossem o feldspato frio que se acorrenta ao meu peito,

E sei que me olhas enquanto escrevo,

 

 

Roubaste-me todas as canetas de tinta permanente que habitavam em mim,

Escondeste os livros e as sebentas do meu cansaço,

Guardas dentro de ti a chave do meu coração…

E apenas me deixaste os cachimbos adormecidos que a madeira apodrecerá,

Sem que uma fina lágrima se agarre ao espelho das tuas coxas,

Sós…!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:24

20
Ago 14

Perdi todas as imagens que o cansaço foi poisando nos meus ombros,

Destruí as fotografia onde habitavam os meus cabelos,

Perdi-me na escuridão, fiquei por aí…

Como um sonâmbulo invisível,

Vestiram-me de palhaço,

Fui trapezista…

E de circo em circo,

Construí no meu olhar os fios de seda do amanhecer,

Quis voar… quis ser avião, pássaro…

E hoje sou um cubo de granito,

Com correntes de aço,

Com boca de palhaço…

 

 

Perdi todas as imagens que trouxe num caixote em madeira,

Sem destinatário,

Sem terra para aportar…

Acreditei ter nascido no mar,

Sou um apátrida, sou uma sanzala de algodão,

Com dentes de marfim…

Sou capim,

Cacimbo,

Embondeiro…

Sou… sou tudo aquilo que nunca quis ser,

Marinheiro,

Paquete, poeta… poeta com as calças na mão!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:01

17
Ago 14

Há nesta árvore nua e ensonada,

uma vida sem alma,

um corpo fusco com odor a embriaguez,

há nesta árvore um sorriso,

uma varanda com fotografia para o mar,

o silêncio é contagioso,

doença que invade o alicerçado enforcado...

o homem que inventa tristezas,

o homem que escreve insónias,

há nesta árvore estórias,

madrugadas sem nome,

o homem...

o homem das asas negras,

esperando o regresso da jangada de granito,

ele não resiste,

e insiste...

desenhar na tempestade o infestado grito,

há...

há nesta árvore nua e ensonada,

um poeta em chamas..., um poeta que arde na fogueira...!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 17 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:29

29
Jul 14

Desejastes-me Senhora,

quando eu tudo tinha,

hoje, que não tenho nada,

vós, minha Senhora,

odiais-me...

pareceis, hoje, uma alminha,

denegrida,

deitada na madrugada,

 

Desejastes-me Senhora,

nas mansardas de Belém...

fazíamos amor olhando o rio,

triste, e habitado por chulos, putas... e Cacilheiros,

à janela,

os cigarros semeados numa casa amarela,

fumegavam, e gritavam... e gritavam... esta Senhora é bela,

bela Porcelana,

que rica Porcelana... ela!

Desejastes-me Senhora,

quando eu tudo tinha,

hoje, que não tenho nada,

 

vós, minha Senhora,

odiais-me...

 

O poeta é um fotógrafo de palavras,

um pintor de caricias e medos,

o poeta é... o poeta é um escultor...

molda, molda o corpo da minha Senhora bela,

do granito embalsamado...

que olhando outro rio,

não triste, não habitado por chulos, putas... e Cacilheiros,

vive como um coitado,

 

vós, minha Senhora,

odiais-me...

 

E ainda guardais dentro de um livro uma envelhecida flor,

 

Não morreu o poeta, não morreu a minha Senhora bela...

mas... mas morreu o amor,

 

E morreu a casa amarela.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:25

31
Mai 14

Este poeta que vive no meu corpo,

este poeta que escreve nos meus seios, acaricia-me nos sonhos com tentáculos de insónia,

sussurra-me ao ouvido melodias intemporais, desenha em mim os silêncios da noite,

embriaga-se no meu corpo, e escreve, e sonha, e deseja-me...

 

Nunca fui desejada!

 

Olhava-me no espelho e via uma sombra gélida, com olhar de geada adormecida,

tinha nos meus braços o teu sorriso,

a tua boca,

 

Nunca fui penetrada!

 

Este poeta que vive no meu corpo,

habita num cubículo de areia,

chora,

e grita,

sorri, às vezes, não sorri... quando tem na mão a caneta da poesia,

veste-se de gaivota e poisa nos mastros mais secretos do rio da revolta,

chora,

e grita,

grita em mim as garras da paixão,

sou eu, sou eu... meu amor!

Seu eu que te ama,

sou eu... o poeta sem gravata, o poeta apaixonado, o poeta dos rochedos anónimos.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:52

23
Mar 14

Recomeço, esqueço-me que estou vivo, oiço na TV um grupo de Jazz, deslumbrante para um Sábado sem memória, escrevo sem saber porque o faço, talvez recorde os teus beijos, talvez recorde a tua ausência, talvez viva sem o saber,

Que estou vivo,

Permaneço inconstante, finjo ser uma equação diferencial sem solução, pego numa integral tripla e acaricio os teus lábios de garra madrugada, e amanhã sobejam palavras escritas por mim na tua degradante janela, o velho Augusto pega no cigarro enrolado pela tristeza, amanhã não sei se estou vivo, amanhã não sei se estarás ao meu lado, amanhã sinto que tal como o título do Livro de Miguel Esteves Cardoso “O amor é Fodido” eu... eu estou fodido... tal como o amor, oiço o programa de jazz, imagino a tua pele rosada embainhada nos lençóis de uma cidade a que apelidaram de Lisboa, esqueço a poesia, tenho raiva da poesia, porque sou uma incógnita vestida de equação trigonométrica,

Que estou vivo,

Tenho medo que morras, porra... porque morrerás tu, porque escrevo sabendo que a inveja infesta as minhas palavras, os meus olhos, sei que existes dentro de um cubo de vidro, um aquário com barbatanas de papel, e lá fora regressam os corações de cintilantes pergaminhos com bordados e flores envelhecidas, percebo a tua dor, percebo que aos poucos te vou perder, e nada, nada consigo fazer para te resgatar do rio apelidado de medo, oiço-os, vejo-os na tua mão como se fossem pedras acabadas de nascer, que estou vivo? E amanhã o saberei,

A inveja dos outros quando as palavras crescem nos teus seios, a inveja de partires e não ser capaz de te procurar-te no Oceano mais longínquo das minhas veias argamassadas, via-te sentada numa esplada de vidro, sentia o pulsar do teu desejo quando abríamos um livros de AL Berto e líamos um dos mais belos poemas, depois... depois tínhamos o Pacheco e o magala travestido de poeta, eu, deambulando pela rua à procura do banco em madeira onde nos sentávamos, e... e pegava na tua mão, e escrevia no teu corpo, tantas e tantas... vezes em sentido, eu

Que estou vivo, que estou vivo sem o saber,

O uísque desaparece e entranha-se no gélido teu orgasmo, apaixonei-me pela escrita de António Lobo Antunes, cresci com Milan Kunera, e hoje, hoje apenas vivo finjindo que vivo, sou um cadáver em movimento curvíleneeo e uniformente acelerado, não sou Angolado, não sou Português... sinto-me apátrida como o destino, penso, não caminho, olho os jardins e sei que algures por lá andas escondida, talves te tivesses transfomado em arbusto, em saudade ou... ou em objecto de velharia na banca de uma qualquer feira, recomeço, esqueço-me que estou vivo, oiço na TV um grupo de Jazz, deslumbrante para um Sábado sem memória, escrevo sem saber porque o faço, talvez recorde os teus beijos, talvez recorde a tua ausência, talvez viva sem o saber,

Que estou vivo, que há pessoas prontas a assassinarem-me intelectualmente, mas eu, eu estou vacinado conta a inveja, mas eu, eu estou habituado a ser huminhado, e o velho Augusto perdido nos cigarros de enrolar, e eu perdido no gélido teu corpo de amendoeira, e, eu...

Que estou vivo, que estou vivo sem o saber,

Que amnhã existirá um amanhecer, que amanhã... amanhã sem o saber, tu, tu quererás pertencer às minhas palavras, porra... não podes morrer, não, não poedes,

Que estou vivo?

E uma âncora de desejo permanecerá no teu corpo...

 

 

(texto de ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 23 de Marvo de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 03:02

18
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Pigmentados beijos de ti, Sereia adormecida,

Oceano retalhado dos teus lábios amanhecer,

mulher que sonha e inventa palavras nos muros de xisto ao luar,

regressa a ti a noite, e dela, todas as fotografias mais belas que se alicerçam no teu peito,

beijos, bocas renegadas e sem jeito,

árvores poisando pássaros apressados e apaixonados...

louca, tu, quando acordas e vês no espelho da poesia os seios desgrenhados do poeta,

inventas,

e finges orgasmos nos socalcos mergulhados em lágrimas,

e alimentas...

e sentes... sentes lá fora o deambular da chuva miudinha,

que os pigmentados beijos de ti..., Sereia adormecia, essa... constrói a neblina.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 18 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:45

14
Mar 14

Com participação de Francisco Luís Fontinha.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:37

31
Jul 13

Foto de: A&M ART and Photos

 

O silêncio, vestido, o silêncio das palavras mergulhadas nas ínfimas gotículas de insónia, um olhar, uma cena construída nas cavernas da montanha adormecida, o poema redefine-se, vive, e parte em direcção ao mar..., os olhos fixam-se na parede húmida da escuridão, o silêncio absorve a musicalidade de um piano de cauda, as mãos finas e longas, entrelaçam-se e distribuem-se no teclado negro com sorrisos brancos, a pianista sorri, e tem nos olhos a alvorada das notas musicais, a pianista é como um livro na mão do poeta, manuseada, folheada... e acariciada, a pianista em lágrimas de desejo, voa sobre o palco inventado com um pequeno banco em madeira, há aplausos, há beijos nos lábios da pianista, e o poeta sussurra-lhe ao ouvido

Desejo-te como és, de mãos finas e longas perdidas nas manhãs de Primavera,

Ao ouvido (Amo-te?) amará o poeta a pianista misteriosa? Estará o poeta louco? E a pianista... será uma árvore com olhos verdes? Azuis? Descoloridos? Emagrecidos...

Como? Como serão os olhos da pianista?

Desejo-te (Amo-te) sussurra-lhe o poeta em duodécimos sons das palavras com sabor a gotículas de suor, o corpo permanece sentado e o piano, e o piano toca-se e masturba-se nas mãos da pianista, há um espelho, há pássaros, há...

Mendigos pássaros, loucos, loucos silêncios, vestidos, os silêncios das palavras mergulhadas em ti, nas ínfimas gotículas de insónia, não dormes, sonhas? Pensas num corpo sobre o teu, imune, vagueando como mórbidas Sereias no fundo do mar, sentindo, tu, entre o piano e o cortinado de fumo, os cigarros movem-se como carnívoras plantas em vasos de porcelana, desejas o desejo e tens medo de desejar,

Há,

Há pássaros em ti, voando, brincando, há pássaros nos teus cabelos de ébano cristalino, a tua boca, a tua doce boca, silencia-se na minha, permanece imóvel, ausente... e dorme, dorme como uma criança depois do almoço, da tua doce boca os lábios peregrinos começando as desvairadas lâmpadas de néon...,

Medo de desejares, medo de amares, há uma janela com vidros de pólen estacionada junto ao teu piano, ama-lo? Pareces cansada, triste, desiludida..., como eu, o poeta prisioneiro nas mãos da pianista, como eu, o poeta estátua, imóvel, nu, tu, numa cama embrulhada em livros e discos de vinil, uma cama camuflada no sofrimento da cidade, há

Como mórbidas Sereias no fundo do mar, sentindo, tu, entre o piano e o cortinado de fumo, os cigarros movem-se como carnívoras plantas em vasos de porcelana, desejas o desejo e tens medo de desejar, há em ti de mim... coisas desconhecidas, palavras não ditas, por escrever, doidas, doidas como os sons que das tuas mãos vomitam melodias de madrugada menina, vaidosa, alegre, como tu, menina, menina dos mimos, menina...

Há,

Há pássaros e pianos, há árvores e gaivotas, há poetas e livros,

Diz-me tu, o que escolherias?

Diz-me tu, como são os teus lábios quando sentes o invisível desejo do piano vagabundo descer a calçada em direcção ao rio,

Diz-me, diz-me tu..., menina do piano com graníticas pautas de oiro...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:23

08
Jan 13

Subiam a montanha em direcção ao sítio onde viviam as nuvens de prata, rastejavam dentro do silêncio com a ajuda de uma mão envelhecida, moribunda, recheada com algerozes e janelas com cortinados de papel, subiam, docemente, subiam a montanha conhecida como a velha montanha dos sonhos impossíveis de realizar, percebia-se no ar pesado a respiração dos cadáveres adormecidos pelos versos do poeta marreco, louco, porco, que habitava numa cabana junto a uma ribeira com braços de luz e pernas de vidro, à lareira, sentindo as imagens furiosas das pessoas enlatadas que deambulavam nas esquinas do orvalho, estava frio, muito, e os cães vadios procuravam em pequenos cardumes de prata as coisas boas da vida, tínhamos medo, não dormíamos porque das árvores, às vezes, desciam esqueletos com canetas de tinta permanente espetadas nos olhos, e na boca

Pequenos segredos de saliva com finos olhares que as ardósia escreviam nas planícies da insónia, não, não sabíamos que a montanha era invisível, não, não sabíamos que a ribeira e os esqueletos com canetas de tinta permanente espetadas

Nos olhos,

Eram fantasmas desenhados pelo poeta marreco, louco,

Nos olhos,

Subiam a montanha em direcção ao sítio, uma pequena fogueira de vaidade emergia sobre as rochas prateadas onde dormiam os cães vadios

Nos olhos

O louco poeta marreco,

Duas assoalhadas, um varanda com vista para os sonhos impossíveis de realizar, diziam-nos que para o anos as coisas iam melhorar, passavam os anos, passavam

E as coisas

Nos olhos,

Sempre iguais, sempre iguais, os cães procuravam as coisas boas da vida

E alguém gritava,

Nós gritávamos

Quais coisas?

Subiam a montanha em direcção ao sítio, uma pequena fogueira de vaidade emergia sobre as rochas prateadas onde dormiam os cães vadios

Nos olhos

O louco poeta marreco deitado de barriga para o céu, e descobriu, que

E as coisas,

O céu não existe, acreditávamos, subiam a montanha em direcção ao sítio onde viviam as nuvens de prata, rastejavam dentro do silêncio com a ajuda de uma mão envelhecida, moribunda, recheada com algerozes e janelas com cortinados de papel, subiam, docemente, subiam a montanha conhecida como a velha montanha dos sonhos impossíveis de realizar, percebia-se no ar pesado a respiração dos cadáveres adormecidos pelos versos do poeta marreco, louco, porco, que habitava numa cabana junto a uma ribeira com braços de luz e pernas de vidro, e no entanto

Tínhamos sonhos que acreditávamos serem possíveis de realizar, mas depois de subirmos a montanha invisível, depois de assistirmos as suicídio do poeta marreco e louco, depois de percebermos que os cães vadios, éramos nós,

A montanha desmoronou-se, desfez-se em pedaços de açúcar, e voou em direcção ao mar.



(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:09

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