Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

22
Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Outono, os ossos tombados no pavimento, os braços alicerçados às árvores em movimento, havia cadeiras revestidas a couro, havia uma casa com uma sala de jantar, dentro dessa sala vivia uma mesa e seis cadeiras, e sobre a mesa uma paixão de crochet rendado ainda do tempo da avó Valentina, sentava-me no sofá, sobre os joelhos os dois velhíssimos álbuns fotográficos do pai Fernando, abria-o e

Mergulhavas nas imagens a preto-e-branco das paisagens Africanas, centenas de imagens rodopiando sobre a mesa da sala de jantar, ouvia-se o entrelaçar de dedos entre o capim e o cacimbo, ouviam-se os uivos dos mabecos rasgando sanzalas e musseques, ouvíamos as crateras dos rochedos nos alicerces da montanha, e tínhamos o feitiço da chuva miudinha, que lentamente, suavemente...

Alimentava o teu corpo de roseira, sentíamos

À noite,

Sentíamos as feridas dos sonhos desfeitos quando o mar nos entrava em casa, e tudo cá dentro

Fugia,

A casa ficou vazia, a sala de jantar viu-se rodeada de silvados e arbustos que muito mais tarde e junto ao Tejo, assistiram à despedida da Primavera, os sofás transformaram-se em pedaços de mola rolando como pedras depois das tempestades, e os álbuns fotográficos

Hoje solitáriamente sobre a mesa na sala de estar, poisados como cadáveres sem esqueleto, completamente sós, abandonadas as imagens... apenas o negro da noite que habita os teus pequenos seios cerâmicos que mostravas-me nas noites de incerteza e Inverno, a lareira acesa, apenas havia a luz dos pedaços de madeira em combustão, e o teu silêncio, nada mais

Os livros,

Sentia a tua respiração abraçada às imagens a preto-e-branco dos álbuns fotográficos do avô Fernando, tínhamos sede, tínhamos fome, e tínhamos vergonha

Os livros,

Diziam que eu era uma bandido escondido debaixo da sombra das bananeiras, e tínhamos mentiras que ainda hoje

Mentiras,

Os livros,

Sentíamos as lâmpadas em dias de ventania baterem nas faces rosadas dos calendários nocturnos das tuas mãos em melancolia, e os livros

Sentíamos as palavras entre os nossos corpos e sobre a mesa da sala de jantar

Arbustos em despedida,

Folhas de papel vegetal e malgas de marmelada,

E sobre a mesa da sala de jantar

Livros?

Folhas caducas, folhas velhas e folhas novas, malcriadas, folhas e folhas e folhas

Livros

Mandioca e papel de parede com flores encarnadas,

Víamos o Sol em pequenos quadrados, víamos a Lua em grandes triângulos, e livros e cinzeiros com o bafiento cheiro a morte, má sorte, a dor, e

Sofrimento,

Ouvíamos as lágrimas do Senhor Doutor quando descia a noite e um cortinado com círculos em pequenos milímetros caminhava direcção ao rio, a ponte via-nos abraçados como dois arbustos

A despedida,

O cheiro a a despedida,

O cansaço depois de uma triste mísera malga de marmelada, um pedaço de pão com pelo menos três dias de antecedência, e o requerimento indeferido

Os livros e as borboletas,

“Por falta de mendicidade o seu caso foi indeferido”

(filhos da puta)

Os livros e as borboletas, as bailarinas e os palhaços, o circo chegou à cidade, meninos, meninas, donzelas e belas

Os livros?

“Por falta de mendicidade o seu caso foi indeferido”

(filhos da puta)

Os livros hoje, imagens a preto-e-branco, sós, imagens estáticas, mortas, melódicas, saudades da saudade quando o medo habitava a nossa sala de jantar...

 

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – (Alijó?)

Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:08

09
Set 13

e a foto é de: A&M ART and Photos

 

acreditava que eras de pedra

e que tinha no olhar uma nuvem de luz

sentia-te vacilar nas searas da tristeza

voando sobre os tentáculos da solidão

dizias-me que eu pertencia às árvores de folha caduca

e em cada Outono

eu

tombava nas tuas mãos emagrecidas

os dedos esticados e finos

quando procuravas o mar nas clareiras do silêncio depois de partir a tarde

acreditava que eras de pedra

e percebia que amavas e percebi que tinhas no peito um coração de rosa dorida

 

(doente

dormente

ausente

e mente)

 

o amor depois da tempestade

fingia suspender-se nos teus dedos de verniz

compridos e longos

distantes como a madrugada

e vinha a noite

e tu acordada

esperavas

não dormias

abrias e fechavas

janelas

e ventanias

como sentias o meu corpo dentro do teu ventre

 

talvez

um dia percebas as fachadas dos meus olhos coloridos pelos pigmentos da insónia

memória tenho e nunca me faltou

corpo tenho e dou-me conta que me roubaram o esqueleto

em aço inoxidável

ao carbono

talvez percebas que o amor é uma treta como são todas as palavras

todos as imagens...

e um dia acredites nas gaivotas e nos barcos com dois braços meus

velas em teus cabelos

loucas

cinzentas que sobejaram do jardim teus lábios

 

(não revisto)

não datado (o hoje não existiu)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó (não tenho a certeza se sou eu)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:30

24
Fev 13

Desenho letras no muro das tuas coxas onduladas debaixo das gotas nuas de água em silêncio, tenho medo, pergunto-me

E depois? Quando o muro se transformar em jardim com flores de seda e coloridas abelhas cantando, e depois?

Poisadas nos mamilos da sede, sem que eu perceba onde fica o bosque, e a canção que é filha do bosque, e os pássaros, e os restantes muros

Desenho letras nas tuas coxas, e tenho o medo, e a vaidade, e tenho o sentido que não sinto, e depois, sento-me sobre o papel amarrotado das tardes violentas que os segredos do Inverno inventam nas tuas pequenas mãos, tenho pena

Dos teus ínfimos dedos, esbeltos, finos, e transparentes,

Como a água dos rios sem nome, sem destino, livremente correndo até ao mar, correndo, correndo, regressando os pinheiros mansos das eternas manhãs sem vidros nas janelas que têm visão nocturna para as rochas tuas coxas, aquelas

Onde desenhas letras? Exactamente, meu amor, essas mesmo, um muro de carne e sedução, curvadas à direita, e à esquerda, embebidas às vezes, ou sempre, no desejo infinito coração com sílabas de pétalas agrestes, como os livros tristes e cansados dos homens sem nome, sem vida, sem viabilidade económica, sós, e abandonadas

Por quem?

Pelos caminhos onde deambulam peugadas, e algumas delas, poucas, que se escondem nas pedras pequeninas dos teus dóceis dedos de fio iluminado pelos lábios da lua, escrevo as letras que desenho nas tuas coxas, preocupo-me, muito, e pergunto-me

E quando terminarem as tuas coxas? E se eu ficar sem o teu corpo, sem a tua sombra, e se eu perder os teus olhos, a tua boca, e se eu

Te perder numa tempestade de areia?

Gostava das tuas mãos quando me desenhavam letras nas minhas coxas, recordas-me as árvores da nossa infância, a minha, a tua, separadas por um muro alto e fino de cimento armado, eu atirava pedras para o teu território, tu, mais amoroso, atiravas-me rosas em papel, uma tarde, furiosa, eu, parti-te a cabeça com uma pedra, fiquei triste naquele momento, depois, durante a noite, sorri, sorri, sorri até que percebi o que era o amor, a paixão e as pedras não serviam apenas para partir cabeças de meninos mimados, filhos únicos, as pedras também serviam para eu perceber o que era a paixão

Por quem?

Pelos caminhos onde deambulam peugadas,

E,

Invejava a pontaria da avó Silvina e do tio Serafim, lançavam pedras e caiam estrelas do céu, ao revés, eu, lançava uma pedra contra uma árvore (alguém durante a noite escreveu EU MAIS TU – AGOSTO DE 1989) onde brincava um pássaro, e partia o vidro da janela da escola, nunca, nunca tive jeito para o lançamento de pedras e para jogar à bola, e meu Deus, Meu Deus... quantos vidros estilhaçados, quantas espigas de milho esmigalhadas, mas estrelas, não estrelas, nunca tive uma estrela, e por quem?

(E quando terminarem as tuas coxas? E se eu ficar sem o teu corpo, sem a tua sombra, e se eu perder os teus olhos, a tua boca, e se eu

Te perder numa tempestade de areia?),

E invejava as letras desenhadas nas coxas que fugiam como os barcos, leves, com o vento, escorregadios como lânguidos gemidos de orvalho, sentíamos as luzes dos livros embrulhados nas tristes maçãs da macieira do quintal, e subíamos pelas escadas da insónia até chegarmos ao varandim com janelas de sangue onde às vezes dormiam os vampiros, os verdadeiros, aqueles que nos chupavam o sangue antes de adormecermos, os mesmos, aqueles que nos roubaram os sonhos, e sempre belas as fotografias a preto e branco, e um dia, desceremos das nuvens, vamos calçar os sapatos com biqueira pontiaguda e com salto alto que deixamos junto ao Tejo, e talvez, e talvez sobre uma mesa estacionada num dos bares de Cais do Sodré, EU MAIS TU – AGOSTO DE 1989, desça de uma árvore de casca grossa, difícil de decifrar, como as equações com integrais que resolvíamos sentados num banco de jardim, debaixo de uma...

E sobravam-nos, não poderei dizer sempre, mas quase sempre,

Letras do muro das tuas coxas onduladas debaixo das gotas nuas de água em silêncio, tinha medo, perguntava-me

E depois? Quando o muro se transformar em jardim com flores de seda e coloridas abelhas cantando, e depois?

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:42

13
Set 11

A tempestade que cessa,

A saudade que acorda na manhã submersa,

A tempestade que brota

Como um rio em delírio,

Com sede e com frio,

E nunca se cansa de caminhar,

O rio,

Que abraça o mar…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:16

25
Mai 11

Os barcos suspensos no sorriso da maré

E na espuma que o mar constrói

As gaivotas que se passeiam pela manhã

E das asas, das asas pingos de chuva

 

Brincam com as nuvens.

Os barcos enrugados na tempestade

E o corpo de um menino balança

No convés dos dias intermináveis

 

Cansativos e os barcos sem rumo

Presos ao cascalho do cais

Em silêncios cadentes

Na espuma que o mar constrói.

 

 

Luís Fontinha

25 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:48

11
Mai 11

A seiva dos meus braços

Esgota-se na maré

Baixa a cabeça junto à areia…

E quando amanhece

 

Não seiva

Não braços

Nada ficou depois da tempestade

E quando amanhece

 

Procuro a seiva dos meus braços

A força do meu peito

E canso-me de procurar…

E procuro nas paredes do buraco

 

Qualquer coisa onde me agarrar

Mas a seiva escorre pelas entranhas da terra

Desaparece na maré

Foge dos meus braços.

 

 

Luís Fontinha

11 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:52

27
Abr 11

Não te perca de mim

Noite em silêncio

Madrugada escondida nas horas adormecidas

Não te percas de mim manhã indolor

 

Flor que espera a tempestade

Dos teus lábios

Quando na tua boca

Acorda o desejo

 

E no mar ergue-se a solidão…

Não não te percas de mim

Abelha embrulhada em pólen

Cansada do batimento das asas

 

Não te percas de mim

Não deixes ao abandono a minha mão

E eu suspenso na alvorada

Não não te percas de mim

 

Poema dos teus olhos

Sorriso que se despe na tarde junto ao rio

Poema escrito no teu corpo que corre entre a montanha

Não não te percas de mim noite em silêncio.

 

 

Luís Fontinha

27 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:59

23
Abr 11

Perco-me nos teus cabelos imaginários

Que o vento transporta até à tempestade

Olho-te e olho os teus olhos de amêndoa…

Estás linda

 

Amorosa

Saltando de pedra em pedra

Correndo junto ao mar

Brincando nos meus dedos

 

Que se perdem nos teus cabelos imaginários.

Peço ao vento

Rezo à tempestade

E só quero que os teus cabelos imaginários

 

Voltem a alimentar os meus dedos

E que o sol sorria no teu olhar…

Perco-me nos teus cabelos imaginários

Que o vento transporta até à tempestade

 

Estás linda

Amorosa

E quando olho os teus cabelos imaginários

Imagino os meus dedos reais

 

A brincar nos teus cabelos

Que o vento levou

Que o vento vai trazer…

Quando terminar a tempestade.

 

 

Luís Fontinha

23 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:16

Meu triste alegre olhar

Que se afoga na tempestade.

Sofre, cansado, a distância,

Com medo da saudade.

E na bruma penumbra infância

Acordada a verdade.

Vem aí a tempestade

E longe fica o mar…

 

E após o mar,

Terra firme, terra prometida,

Corre sem se cansar

 

A tempestade que é a minha vida!

 

 

Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:38

02
Abr 11

Embala-me o vento que vem de ti

A tempestade

E por um momento

Corro sobre as árvores prisioneiras

Que a madrugada me obriga a acordar

E na manhã vão despertar

 

O silêncio da lua

Visto o casaco da noite perpétua

E pulo o muro da solidão

Do outro lado do muro

 

A prisão

A paixão

O abismo

As rochas cortadas em pedacinhos

A rua

Que os meus braços beijam a neblina

 

E me embala o vento que vem de ti

A tempestade

O mar tão distante…

Tão ausente

 

Tão longe de ti eu

Sonâmbulo das lágrimas

Marinheiro que acaba de perder

O seu porto de abrigo

 

O meu veleiro encalhado

E no meu corpo as velas enroladas

No meu pescoço as cordas

Que me conduzirão até ao fundo dos teus olhos

 

É escuro…

A prisão

A paixão

O abismo

 

A tua mão que deixou de percorrer o meu rosto

Na tua mão que perdi os meus lábios

Oh madrugada em sofrimento

E o meu corpo em cinza

Eu sem esqueleto

Que dormia no teu sorriso

E me alimentava do teu olhar

Nas noites de insónia…

 

Embala-me o vento que vem de ti

A tempestade

Tenho frio

Na saudade

 

Estou só

E os meus olhos completamente cegos

Deixei de ver

Não oiço nada… nada

Ninguém

Apenas a tempestade

 

Que me embala o vento que vem de ti.

 

 

 

FLRF

2 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:35

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