Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Ago 11

Escrever não me serve de nada, escrevo para me manter suspenso à vida, e leio muito, também de nada me serve, mas enquanto leio a minha vida faz sentido,

 

Arrependo-me de ter estudado, e se eu fosse analfabeto era o homem mais feliz do planeta, se andasse a passear uma enxada, bebesse um garrafão de vinho por dia e se eu tivesse uma catrefada de filhos, mas infelizmente nem bebo um garrafão de vinho por dia nem catrefada de filhos para viver à custa da Segurança Social,

 

Assim, fodo-me porque ninguém tem pena de mim,

 

Meses depois de me ter inscrito no Centro de Emprego, e carago se eu não pensei que eles tinham morrido, pois nunca mais recebi notícias, mas estava enganado, estão vivos e de boa saúde, recebo agora um destacável “Na sequência da sua inscrição para emprego, informamos qua ainda não nos foi possível satisfazer o seu pedido de emprego. Se continuar interessado, queira devolver-nos este postal devidamente preenchido, no prazo de 10 dias a contar da data do correio. Se não responder procederemos à anulação da sua inscrição.”,

 

Assim, fodo-me porque ninguém tem pena de mim,

 

Mas adiante, a vida é uma roda que gira e gira e não se cansa de girar, e às vezes cai-nos um raio na cabeça e surge a oportunidade da nossa vida, e a melhor oportunidade da minha vida é sair deste país, conseguir a Nacionalidade Angolana, e terminar os meus dias onde nunca devia ter saído,

 

E pergunto-me, Como posso eu ter Nacionalidade Angola?,

 

Escrever não me serve de nada.

Ler muito de nada me serve.

Eu preciso é de muitos filhos,

E de um garrafão de vinho por dia,

 

Assim, fodo-me porque ninguém tem pena de mim.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:59

21
Jul 11

Quando o espelho nos mente,

E o corpo de farsas suspensas na neblina, sombras na tela da vida que escurecem com o passar dos dias, a insignificância e infeliz permanência no planeta terra, há quem lhe chame destino, divindade de deus, eu chamo-lhe vida de merda,

 

A manhã acorda emagrecida nos pregos que seguram as tábuas do barraco, finíssimos fios de luz atravessam-no e do interior escuro a penumbra miséria do colchão sobre os tijolos roubados na obra do vizinho, na mesa-de-cabeceira o cinzeiro em desespero abarrotado de beatas e pedacinhos de saliva com tuberculose, mais ao lado o candeeiro de petróleo extinguido por falta de combustível e que ilumina as frias noites do barraco, as migalhas de pão para entreter os pássaros pela madrugada no pavimento cultivado de teias de aranha, as formigas em suicídio coletivo junto ao frasco vazio e no rótulo em letra de ardósia está escrito “açúcar”, abro os olhos e a desilusão, mais uma para a coleção, Sinto que estou vivo!, e ele a conversar com o espelho embaciado pela ferrugem das dobradiças caquéticas das janelas, a desilusão de mais um dia, a desilusão de olhar no pulso os ponteiros em decomposição, o cheiro horrendo dos ratos à procura do meu corpo, e desistem, não lhes serve, um deles de dentes encostados à migalha de pão com o queijo trazido da rua, e revindica melhores condições de trabalho, a ASAE com o relatório do encerramento do barraco,

- Esta espelunca nem para ratos, Encerrado para obras, o letreiro sobre a porta,

O homem com a ardósia aparafusada nas costas diz-me que se eu não executar as obras dentro do prazo estipulado o barraco tomba ravina abaixo, e o espelho mente-me,

- Abraça-me, sorri-me a teia de aranha agarrada às mãos do autoclismo, olho a sanita atolada até ao teto, o homem pergunta-me se tenho água potável, e eu respondo-lhe que água só quando chove, e a teia de aranha responde  ao homem, Somos felizes assim!,

Somos?, pergunto eu ao espelho, inclino-me na manhã e olho os caibros carbonizados da cobertura, o céu entra-me dentro do barraco, e o sol deita-se sobre a mesa de três pernas, o homem da ardósia,

- Só tem três pernas a mesa?, sim, a outra guisei-a na semana passada,

E gafanhotos sobre o peitoril na ginástica matinal, batata-doce e uma pitada de solidão e a panela no lume do infinito acordar e descobrir que se está vivo, olhar o espelho e sobre a cabeça os ramos da amoreira de risca ao meio, nas sobrancelhas a densidade de comer aboboras misturadas com peixe salgado, enlouqueço,

- Duas semanas e ficará como novo, o doutor dos malucos para mim, Não se preocupe!, o doutor para mim, acredite, eu sou mais louco que o senhor,

As ratazanas começam o pequeno-almoço nos meus pés e as abelhas terminam o jantar nas pétalas do meu cabelo, a enfermeira masturba-se com os comprimidos para dormir, as órbitas em rotações lentas, deita a cabeça no meu colo, e fica-se nos orgasmos do sono, o doutor dos malucos segreda-me que está farto de ver pessoas, árvores, casas, pássaros, camisolas do Benfica, barcos, o mar, o céu, as nuvens e deus, e eu não percebo as palavras dele, dá-me cigarros para diminuir o comprimento de onda da minha pila, e eu fumo, e eu fumo, e ela mistura-se no saibro debaixo dos pinheiros,

- A enfermaria acorrenta-se à sombra de um triciclo, a enfermeira nos sonhos a semear púbis junto ao mar, e ouço-lhe o som do mar,

Olho pela janela e o meu barraco em cartão desfaz-se no vento do fim de tarde, o petroleiro com gripe agride com um pontapé o doutor dos malucos, e o doutor dos malucos continua a segredar-me que se pudesse escondia-se no centro da terra, eu repondo-lhe que se pudesse também me escondia, mas não posso, Porquê?,

- Tenho uma enfermeira em orgasmos de sono deitada no meu colo, Adormeceu!, diz ele ao doutor dos malucos,

O petroleiro não satisfeito com o pontapé que imprimiu no doutor dos malucos agarra na enfermeira pelos cabelos e deposita-a no banco de jardim onde me sento todas as noite,

- Quem disse que este gajo tinha gripe só pode estar maluco, queixa-se o doutor dos malucos, e manda chamar o segurança, agarrem, agarrem que é maluco,

O petroleiro em curvas apertadas passa por mim, passa pelo doutor, e passa pelo segurança, pula a janela e volta para o mar,

E eu penso, E se eu fizesse o mesmo?,

Acabavam-se os dias de miséria!

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:57

06
Jul 11

… Ou a puta da mania de quem se julgava, julga, mais esperto do que os outros,

O Chico esperto de mãos na algibeira, a imersa lentidão dos cigarros avulso nas clareiras da manhã, o fio de sémen em remoinhos que se desprega dos lábios de uma gaivota, o murro no estômago, pluf pum pum, e testículos abraçados à janela, o tecto sorri e o cuspo de gesso em estalidos que dos intestinos começa a sair e de imediato se ajoelha no soalho, o prato da sopa inclinado, a mesa da cozinha em três pernas e a quarta perna, falta-me a quarta perna grita a mulher, a quarta perna engessada do mergulho da cerejeira abaixo, só temos sopa, pensa ele enquanto em esforços conturbados discute com a colher em punho e apontada à porta de acesso à despensa, a mediocridade da fome, a despensa despida, seios ao léu, púbis emagrecido no interruptor na parede, os seios chupadinhos como as tetas de uma cadela vadia, falta-me a quarta perna da mesa, falta-me pão, falta-me a paciência para te aturar, ouve ele enquanto em manobras de reanimação tenta equilibrar o prato da sopa,

- Três quilogramas de saliva e os dentes que mastigam em seco,

A pobrezinha da sopa tomba e escorrega milímetro a milímetro pela toalha de plástico aos quadradinhos, falta-me tudo na voz rouca da noite ela de sorriso espetado na lareira, e ele furiosíssimo numa luta de galos a tentar estancar o derrame, o sangue a dilatar e das veias a mortalha dos cigarros avulso misturados com o murro no estômago,

- E a língua amarfanhada ao céu-da-boca, a secura dos dias esquecidos no sofá a olhar os retratos pendurados na parede da sala, e ele em voz alta, e o avô tal foi-se, e o outro avô também se foi, e eu, e eu também me vou,

Encosto as mãos à barriga e vou-me corredor fora,

A dor intensa que os pássaros deixam pela manhã, as asas que batem e se debatem contra o rápido das cinco horas, Porto-Lisboa, Lisboa-Porto, Lisboa-Lisboa, Tejo-Tejo, a cacilheiro em movimento curvilíneo a assustar os peixes, a tia à minha espera no Pinhal dos Frades e eu dentro do Tejo algemado à maré,

- Que saudades meu filho…

O cheiro dos pinheiros em mim, emagreci tia diz ele, evaporaram-se de mim cerca de dez quilogramas de argamassa, três sacos de cimento e cem litros de água, é a fome tia, é a fome, sabe tia, a fome é como o cacimbo em Angola, começa a descer em nós lentamente e quando damos conta, tia, os ossos tia, lembra-se?, o cacimbo a entranhar-se-lhes e eles em gemidos quando a insónia não nos deixa adormecer,

- Há quanto tempo,

Os ricos com insónias e o medo de perderem o dinheiro, e os miseráveis tia, os miseráveis com insónias porque não têm dinheiro para comer, porque os ricos tia, os ricos podem levar murros no estômagos,

- E os pobres filho?,

Os pobres tia, os pobres há muito que deixaram de ter estômago, é como o cacimbo em Angola tia, lembra-se tia?, desce devagarinho e entranh...

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:50

30
Jun 11

O corpo,

No ressequido orgasmo da manhã, as horas em silêncios dormentes, as pernas, que se esfarelam como migalhinhas de pão do dia anterior, e a rua, entupida de sombras que se abraçam aos candeeiros da tarde, o quarto absorve-o e as frestas da parede, sobre a cama, olham-no, cintila-lhe o corpo em segmentos de rectas oblíquos, o sol, cheiro miserável a cadáver esquecido no armário e espreita pela fenda do cadeado, gostas de cá andar?, pergunta-lhe ele enquanto procura as horas na algibeira, no mundo?, já gostei mais, quando os barcos brincavam no oceano, quando no verão me sentava à porta de entrada e a noite dentro da casa e as moscas misturadas em mim e na casa e na noite, sábado não posso,

- As coxas abandonadas em bancos de jardim nas mãos poisadas nos seios das árvores, o útero em combustão quando a menstruação abre a janela e do rio os petroleiros abraçados na dor de barriga, cabeça estonteada quando na noite a almofada em papel de mortalha enrola o tabaco dos fins de tarde, irrita-se comigo e fica chatinha, a neblina quando desce a calçada, quando um cão em três patas cospe o mijo contra os tornozelos dos móveis, a madeira na garganta do caruncho na garganta na película fina e branca da penicilina,

Não posso,

Subir a montanha e lançar-me como uma pedra até me cansar e imobilizar-me em segurança, pé na embraiagem das nuvens e na penumbra das algas procurar o travão das gaivotas, o corpo reduz a velocidade, o corpo encosta-se ao cais e a âncora das árvores as raízes que prendem o me corpo à terra fina e cansada e em sonhos sobre a cama atraco ao soalho de madeira, gostas de cá andar?,

- Quando o púbis empapado no vermelho da tela,

No corredor sem saída,

As portas não portas, desenhos nas paredes que fingem portas e o tecto de hora a hora desce um milímetro, o pé direito três metros de luz, o meu esqueleto cento e setenta e cinco centímetros de sombra, e é só fazer as contas, quase quase amassado e vai ao forno e bom apetite,

- Este odor a sangue quando os pincéis mergulham na paleta de cores do umbigo,

Três a quatro dias,

E a resposta teima em chegar, procuro-me nos perdidos e achados, e o meu nome não lá, nem me perdi e nem encontrado, desaparecido junto à avenida 25 de Abril de 1974, a senhora professora com o ditado da manhã,

Os pássaros são livres, e o mar é de todos e os rios voltam a correr para o mar, eu faço uma pausa e penso, e ontem os rios não corriam para o mar?, na Primavera as andorinhas com os sorrisos nos telhados do medo,

E a resposta teima em chegar, espero e desespero junto aos plátanos e os estorninhos em viagem,

- Vês já passou,

Tipo rotação da lua uma vez por mês,

O salário de um desempregado sem subsídio de desemprego, e espera-se pela transferência e nada, aguarde mais uns dias, já fizemos a transferência deve estar a receber a corda com o respectivo laço, depois, depois é uma questão de bom gosto na escolha da melhor árvore e acariciar as coxas abandonadas em bancos de jardim nas mãos poisadas nos seios das árvores, rijos, os dias de desespero.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:38

28
Jun 11

Ou fofinha como as espigas de milho hummmmm,

O poema é lindo,

Quando a voz que o constrói é um sorriso de vento no silêncio da noite nas mãos de uma flor adormecida no soalho da terra húmida depois de regada e as palavras fluem como sons musicais nas árvores da casa, na biblioteca os pássaros sentem o poema a entranhar-se nas penas transparentes e o candeeiro desce lentamente até adormecer no pavimento, os tacos de madeira ranhosos pingam liquido mucoso e no inverno incham e aumentam de volume, a água solidifica e rompe as ligações químicas, o poema acorda, o poema esfrega os pequeníssimos olhos de botão de rosa, olha os pássaros e deita-se sobre a secretária de madeira onde eu poiso os meus braços, onde eu prego murros com o martelo das mãos, e bato com a cabeça, é dura como cornos, a cabeça, a secretária, os cornos,

- O poema,

Rija como as pedras, três filhos,

Olha os pássaros e no vidro da janela escrevem O poema é lindo, as pessoas alimentam-se de poemas?, ele a ler livros antes de adormecer, não adormece, os intestinos ficcionados na noite e diarreia e sílabas e vogais e a merda que se espalha nos lençóis de mar da cama, o cheiro intenso a papel, o cheiro intenso a tinta, e a voz que o constrói rouca e a voz que o constrói suicida-se janela abaixo, e a cabeça da voz rola como uma formiga de asas vermelhas no tecto das rochas envenenadas pela fome, e o poema,

- Fode-se,

Três filhos rija como as pedras desbotados no fim de tarde,

O poema morre.

As palavras dentro da sanita afogam-se no mijo dos pássaros,

FIM DA FICÇÃO E PRINCÍPIO DA REALIDADE,

Qualificação superior à média, educado, maluco, doido, e às vezes, às vezes revoltado, que vive num país, num país de merda que lhe diz que aos quarenta e cinco anos não serve para nada, lixo, e está na hora de partir, partir e cagar-me para a troika e para a puta que os pariu, e que no desespero, e que no desespero está disponível para trabalhar com TRAFICANTES DE DROGA, REDES BOMBISTAS OU OUTRA MERDA QUALQUER, desde que tenha um salário para viver; EU.

Pedimos desculpa pela interrupção e voltamos à FICÇÃO,

Roda o coisinho do autoclismo e as palavras dispersam-se no cacimbo junto ao rio, no musseque o sol começa a esconder-se na sombra dos miúdos que desenham círculos na terra, o capim cobre-lhes as pernas queimadas de tristeza, é dura como cornos a noite, é dura como cornos a vida, é dura como cornos a cabeça que me mantém em equilíbrio como um poste de electricidade, os candeeiros dos meus olhos fundidos, e o escuro sobe pelo meu corpo e entra-me pelo nariz, e dou-me conta que sai fumo das minhas orelhas; curto-circuito interno, o indicador pisca-pisca do lado direito com um ataque cardíaco, e os médios, os médios com fractura do fémur,

- Acorda e durante a noite uma espiga de milho entra-lhe no olho esquerdo,

Ou fofinha,

Como a seda que alimenta o meu peito,

Os dias de inferno.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:44

27
Jun 11

O olhar de mim quando a ribeira se abraça ao rio,

E na cidade os automóveis em combustão acelerada,

A minha mão procura na algibeira as pequeníssimas moedas para o café, e o café em lista de espera, consulta só daqui a três meses e vá tentando,

- Uma vez duas vezes três vezes eu farto de tentar,

E se eu desistisse?,

Das moedas do café e da consulta, definitivamente não, nos óculos remelados os olhos que me impingem remédios milagrosos para as lombrigas para os bicos de papagaio para a próstata para os intestinos para a solidão, e o milagre para mim apenas meia dúzia de moedas, um trabalho,

- E nada mais do que isso,

Cabrões,

A minha cabeça estoira como rocha embainhada na dinamite do cansaço, e quando o cordão umbilical se debruça sobre as minhas mão,

- PUM a cabeça impressa na parede em ruínas e o borrão de tinta que sorri na tela,

A cidade empurra os corpos emagrecidos para o mar,

E o cheiro intempestivo dos cadáveres à procura de moedas para o pequeno-almoço, FECHADOS PARA DESCANSO DE PESSOAL,

- Um café e meio bolo e a sombra com a ardósia na mão, não vendemos meios bolos, ou bolo inteiro ou nada,

Nada,

Espero de amanhã,

Porque os dias são todos iguais, excepto na roupa que trago vestida,

- Traga-me só o café,

Cinquenta e cinco cêntimos de taxa moderadora,

E quando terminava a aula de trabalhos manuais construía bolinhas de barro e pumba aos cornos do papagaio da tasca decrépita,

- FILHO DA PUTA CABRÃO,

Consulta daqui a três meses e venha em jejum,

Eu sempre devido ao colesterol da vida, para as lombrigas para os bicos de papagaio para a próstata para os intestinos para a solidão,

- Tem alguma coisinha para a falta de moedas,

Não, não tenho nada,

E se eu desistisse?,

Levantar-me do sofá, despedir-me das fotografias penduradas na parede, e em meia dúzia de voltas sobre o eixo de rotação do meu corpo desligar o interruptor do candeeiro e, e cruzar o braços…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 11:54

25
Jun 11

“A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol”,

Da frase,

Impressa no muro do silêncio que divide o ontem do hoje, o segmento de recta da solidão quando na tarde a sereia do automóvel avança musseque adentro, enterra-se na lama, dilui-se na garganta do buraco da rua pavimentada a côdeas de pão, “A mágoa” presa ao betão aldrabado por mais areia que cimento, o traço três por um, três partes de areia uma parte de água e cimento nenhum, “ideológica quando a minha mão” toca nas flores silvestre do campo e escorre através do zinco calcinado do sol, a frase desce a encosta íngreme do mastro de um veleiro, nas velas os lábios da tarde quando no mar brincam as gaivotas “toca no sol” e foge para o pavimento térreo e lamacento que são os meus dias,

- O meu corpo deixa de respirar na maré cansada do amanhecer,

Eu morto,

E encalhado na doca de Santos preso à terra com cordas de sombras que no passo apressado dos transeuntes um rebocador dá aos pulmões e puxa e puxa e não saio do milímetro onde durmo, o zinco muda de cor, e na cor as pétalas da tarde em cio, com o cio as ratazanas buscam nas fendas da boca a claridade da noite, o musseque extingue-se e desaparece da paisagem,

- Os socalcos do Douro comem os meus pobres e cansados duzentos e seis ossos, afundo-me no rio e as algas agarram-se-me às nádegas inchadas do desemprego,

Dizem, dizem-me, oiço na manhã,

Que os pássaros são pássaros, o miúdo que a cada pontapé na bola um vidro estilhaçado, um prédio em ruínas, 5 4 3 2 1 e ergue-se de braços abertos sobre os plátanos e deixo de o ver, o muro do silêncio cambaleia e no vento deixa cair a frase “A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol”, esfarela-se como migalhas do pão duro que atirava ao candeeiro na messe de sargentos, e a velha a perguntar-me Porque estouraram as lâmpadas do candeeiro?, sei lá respondia-lhe que devia ser gases, os intestinos empapados na solha do jantar de ontem,

- O meu corpo engolido no xisto do pavimento, e esta paisagem não me alimenta,

Ninguém, ninguém a agarrar a minha mão, e o meu corpo mergulha nas águas profundas do Douro,

Que a cada pontapé na bola o sorriso do vidro, maricas, fincava as mãos na algibeira e perdia os olhos no lameiro abraçado à erva fresca da manhã, na ardósia cresciam as palavras da infância e dos números o giz na poeira silenciada da mão da professora, as bolas de naftalina protegiam-me da sandes de fiambre ao fim da tarde, a esmola orgulhosa do caricas, e que velho tão filho da puta,

- No Douro?, não, não fico nem mais uma nuvem,

Começo a escorregar pela traqueia da noite,

A frase “A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol” mistura-se com a solidão dos dias e dentro do estômago as vogais com a cabeça estonteada rumo aos intestinos, e puxa e puxa e não saio do milímetro onde durmo, o rebocador sanita abaixo e na tosse da doca de Santos suicida-se contra o vento, os pedacinhos de porcelana no chão da esplanada, e os números da ardósia somam-se, e os números da ardósia multiplicam-se e fingem abraçarem-se ao segmento de recta da solidão,

- Sei lá eu porque estouraram as lâmpadas do candeeiro Dona?, escrevia eu na parede da messe a frase A mágoa ideológica quando a minha mão toca no sol”,

Três dias de castigo,

Na sombra poeirenta da caserna, e puxa e puxa e não saio do milímetro onde durmo.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:05

09
Jun 11

Chego a casa e os móveis enferrujados, escondidos por panos envelhecidos no tempo, o cheiro a mofo cansado e aflito pela minha ausência, enrolo o pano que cobre o sofá, atiro-o indiscretamente e vai cair precisamente sobre as cinzas da lareira, e há quantos anos as cinzas aqui, suspirando dia e noite pela minha sombra, sento-me no sofá e dou-me conta do regresso, uma mola partida e o rabo encaixado no escuro, os meus ossos envelheceram e o jardim coberto de vegetação, silvas, tojos, ervas…, irreconhecível.

 

- Há quantos anos eu fora, há quantos anos eu distante, perdido, esquecido,

 

As portadas das janelas recusam-se a abrir, de braços cruzados olham-me, e porque me olham elas, estarei assim tão diferente?

 

- Há ratazanas cá em casa, penso eu, pedacinhos de papel mastigado junto ao rodapé, e os livros já eram, evaporaram-se como gaivotas junto ao mar,

 

Nada me resta, meia dúzia de destroços e enferrujados. Experimento abrir delicadamente a torneira do lavatório, queixa-se do reumático e cospe fios de lama, que grande merda a minha vida…

 

Batem à porta, ainda agora regressei e já uma velha alcoviteira vem verificar com os próprios olhos a minha miséria, as notícias correm rápido, e agora com estas geringonças da internet, com estas coisas da internet é num instante que vêm até nós, só pode ser a vizinha, a velha Adosinda, e recordo-me de a ver na cama, e eu em passinhos de lã ia até ela, dava-lhe um beijo e ela, ela com cinco coroas para comprar rebuçados, há quantos anos tia Adosinda,

 

- Meia dúzia de destroços e ainda nem consegui abrir as pestanas da casa, a luz foi aos poucos fugindo conforme os meses passavam e ninguém, ninguém para pagar a conta,

 

E saia da escola apressado, corria pelos quelhos em direcção a casa e ela sentada numa cadeira, os cabelos brancos, e na escuridão do quarto via uma auréola sobre a cabeça dela, são os anos meu filho, são os anos, buracos no soalho, nuvens no tecto e nas paredes, das paredes via sorrisos,

 

- Há ratazanas cá em casa,

 

Abro a porta e a velha Adosinda a olhar-me, de cima a baixo, do lado direito ao lado esquerdo, e, e meu filho, como tens esse cabelo e essa barba, estás velho, são os anos tia, são os anos,

 

- Sinto as ratazanas no forro da casa,

 

Chego a casa e os móveis enferrujados, escondidos por panos envelhecidos no tempo, o cheiro a mofo cansado e aflito pela minha ausência, enrolo o pano que cobre o sofá, puxo de um cigarro e aos poucos o cigarro treme nos meus dedos, da rua vem até mim o choro de uma criança, e imagino, imagino como tudo seria mais fácil se eu tivesse regressado mais cedo e não envelhecesse como uma oliveira cheia de feridas no peito,

 

- Há ratazanas cá em casa, a tia Adosinda abraça-me e deixa-me um beijo na face recheada de pêlos, abre-me silenciosamente a mão e coloca cinco coroas, diz ela, é para comprares rebuçados…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

9 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:37

01
Jun 11

Se ganhar o euromilhões envio-lhe um e-mail com cem corações, e às quartas e sábados ela desce as escadas, abre a caixa do correio, e corações nenhuns, não desista, continue a tentar, tenha fé, e às quartas e sábados temos petingas com arroz de feijão, e no tecto teias de aranha a olharem as toalhas de plástico e flores estampadas que cheiram a peixe frito, é quarta,

 

- Paciência… ainda não foi desta

 

Sobe as escadas, poisa-se no patamar para tomar fôlego, a luz adormeceu desde que o condomínio deixou de pagar a conta, o ascensor engripado, e à medida que ela sobe as escadas, os degraus multiplicam-se, em cada dois degraus nasce um novo rebento, a gravidez dos degraus, o aumento acelerado da população de degraus, os da direita a culparem os degraus pelo seu nascimento, como se o problema do prédio fosse o número excessivo de degraus,

 

- E o problema do prédio os alicerces

 

Os corações baloiçam no estendal que do quintal olham silenciosamente o e-mail, e nos alicerces do prédio sanguessugas agarram-se ao betão, os degraus sem culpa de serem degraus, os degraus com fome, e um cão raivoso quer-lhe colocar uma marquinha nos bracinhos, e assim, às quartas e sábados saberemos quem são os degraus pobres e os degraus ricos,

 

- Os degraus pobres de cruzinha no bracinho

 

Se ganhar o euromilhões envio-lhe um e-mail com cem corações, e às quartas e sábados ela desce as escadas, abre a caixa do correio, e corações nenhuns, e os degraus esperam pacientemente por um simples prato de sopa, e tal como os corações, sopa nenhuma, e os cabrões dos fascistas enraivecidos humilham os degraus, como se os problemas do prédio fossem apenas míseros degraus…

 

- Paciência… ainda não foi desta.

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

1 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:19

23
Mai 11

Chove torrencialmente e na rua as pedras transpiram pelas frestas da calçada, um roedor espreita-me de relance à entrada da sarjeta e tira-me as medidas, 1,75 m e 72 kg, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, o roedor fixou-se em mim, não me admira, às vezes pergunto-me se eu terei mel porque as abelhas sempre à minha volta, e eu não flor, eu não mel, eu uma árvore onde poisam pássaros e cagam nos meus braços, sempre fui assim, os pássaros sempre adoraram cagar sobre as folhas que cobrem o meu tronco, já fizeste alguma coisa hoje, não nada, isto tá fodido é a crise, eu bem estendo as mãos mas as mãos sempre vazias, qualquer coisinha para comer, vai trabalhar pá, amigo ao menos um cigarrinho, vai-te foder, e eu vou à procura do abrigo das platibandas, e enquanto vou eu fornicado, perco os clientes que correm apressadamente e fogem dos pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio, isto tá mesmo fodido hoje só cinco euros, e não dá para nada…

 

Chove, chove e eu não me dou conta, eu tão magro que os pingos atravessam o meu corpo como se eu fosse um passe-vite enferrujado e pendurado nas paredes da cozinha comidas pelo tempo, a cozinha vazia, não cozinha, a cozinha à minha espera, e eu entro em casa e vou directo ao quarto, deito-me sobre a cama, o meu corpo parece um objecto que acaba de sair da água, o meu corpo suspenso nos olhos do roedor, estás tão magro Francisco, eu magro, não, sempre fui assim, e sempre fui assim, e nas pedras da rua vejo o silêncio do meu corpo e a ausência das minhas mãos, hoje tá fodido, é a crise, só ainda fiz cinco euros, e eu nem isso amigo, hoje nem isso…hoje os pingos que a tarde constrói nos ponteiros do relógio.

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

23 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 14:23

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