Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

24
Jan 15

A1_025.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

sentíamos o peso do clítoris amanhecer

suspenso nas telhas de vidro do silêncio

tínhamos nos braços o suor das palavras

consumidas pelo fogo da paixão

havia um abraço de luz

nas verdejantes lápides da solidão

e apenas um finíssimo orgasmo de iões brincavam nas pálpebras da escuridão

havia o medo de não regressar

estávamos em círculos de papel

quando do espelho corpo em evaporação

uma gaivota soletrava os gemidos da maré...

os barcos arrependidos choravam como choram as crianças em flor.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 24 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:46

03
Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

estas mãos se cruzam no Oceano tua pele

mergulhando nas tuas pálpebras de madrugada

estas mãos te amam

e acariciam

nas tardes envenenadas pelo desejo

estas mãos de ninguém

com todos os cheiros da sanzala

estas mãos de ninguém

com todos os sons do amanhecer

que só o perfume de uma rosa consegue desenhar

e... e escrever

nas sombras do mar

estas mãos se cruzam no Oceano tua pele

que o barco do meu amor suavemente desliza...

como todas as palavras soltas

como todos os vinhedos suspensos no sorriso de uma enxada

estas mãos te amam

e acariciam

estas mãos de ninguém

que o tempo come

e despoja as suas cinzas no cemitério nocturno das gaivotas sem nome...

estas mãos

estas mãos se cruzam

quando todas as luzes se apagam e todos os corpos morrem...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 3 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:40

19
Dez 14

Vadios soníferos da vaidade

que deambulam nas clandestinas ruas da saudade,

olhares prisioneiros da escuridão,

pincelados tentáculos de gelo descendo o teu corpo pérfido...

e às minhas mãos

o teu cabelo incendiado pelo desejo,

e às minhas mãos o odor censurado do teu coração,

voando sem rumo,

voando... voando embrulhado em lápis de cera que o tempo engole,

e não sabe que em mim habitam os cinzeiros de chita,

os cigarros de papel aromático desenhando lábios de medo na alvorada,

vadios soníferos da vaidade... vadios monstros da madrugada,

vadios meninos de Luanda,

sanzalas encalhadas no cacimbo zincado,

capim em luta pelo sexo,

sem horários como os calendários nocturnos dos mabecos em cio...

o rio se abraça ao barco náufrago que transporta a felicidade,

e a ponte se alicerça aos seios do amanhecer,

vadios os meus poemas

em meninos de Luanda,

a infância lapidada numa avenida sem estória,

como uma fotografia inseminada num estúdio negro,

assombrado,

sem número de polícia... ou paragem de machimbombo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:04

13
Dez 14

Sou o carrasco adeus

da sonolência saudade

tenho nas mãos o papiro

e no olhar

uma espada invisível

não percebo porque choram as acácias

e os plátanos da minha terra

não percebo porque gritam os rochedos

que se alicerçaram aos meus braços...

se eu sou frágil

se eu... se eu sou um simples fio de luz

embrulhado numa lápide sombreada,

 

sou o carrasco adeus

da sonolência saudade,

 

sou o presente envenenado

que deambula pela cidade

sento-me junto ao rio

e imagino barcos em papel

que não regressam mais...

quem parte

quase sempre não regressa...

como os comboios de areia

esquecidos no mar

sou o carrasco adeus

da sonolência saudade

… sou a madrugada antes de acordar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 13 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 15:59

06
Dez 14

Esta casa sem mão

completamente embriagada pelo fogo da madrugada

de janelas encerradas

com portas em latão,

Esta cabeça casa sem mão

o teu corpo em desalinho

dentro da lareira...

sem perceber que há um amanhecer colorido,

Este caixão

na casa sem mão

o celibato cansaço quando há na tarde esqueletos

e escuridão...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:55

28
Nov 14

Os teus olhos pincelados de verniz

camuflados no sombreado silêncio de uma ardósia

a tarde sem destino

e o menino...

embrulhado nas palavras adormecidas pelo giz

que só o luar consegue apagar

e destruir

o barco vai partir

sem conhecer a direcção...

ou... ou o cais para ancorar

e há uma corda suspensa nos lábios da solidão

que transcende o homem que deseja mergulhar no Oceano,

o desengano

do desassossego vestido de beijo enfeitiçado

a menina dança?

os teus olhos que só os pássaros percebem

o teu corpo de esferovite à deriva na planície das lágrimas incendiadas pelo areal...

um grito de revolta

alicerçado ao magnetismo esconderijo das geadas envenenadas

a embriaguez estonteante das madrugadas

quando o relógio de pulso se suicida num abraço de cartão canelado

e o homem responsável pelos teus olhos pincelados de verniz...

… morre lentamente na fogueira da paixão

como a perdiz

nas garras do amanhecer

e nesta vida de viver...

os teus olhos são cerejas de sofrer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:52

01
Nov 14

Desdenhado cansaço de viver

das distantes planícies de algodão

sofrendo sem querer

querendo...

o pão

as sílabas engasgadas na montanha do Adeus

as palavras desenganadas de um falso esqueleto

trôpegos feitiços de chorar

os poemas de escrever

cintilam na tua mão as cavernas da escuridão

lês a penugem da madrugada

dos sonhos desenhados no amanhecer...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 1 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 15:55

25
Out 14

Vagueias entre os lábios das andorinhas de papel

és uma planície desgovernada

que espera ser semeada...

com palavras

e beijos de pólen

vagueias nos disfarces da madrugada

ténue luz

janela encerrada,

 

Vagueias... com arte

vagueias na geometria complexa do meu olhar

esperamos o regressar da vertigem

há em ti o silêncio e a viagem

de vaguear sem destino

vagueias na metamorfose dos ossos de cristal

entre os barcos cansados de caminhar...

… e os homens embebidos nos poemas de chorar,

 

Vagueias no sexo inventado dos amores risíveis

trazes no peito a claridade da insónia

misturamos os dedos nas mãos que vagueiam as montanhas de sémen...

vagueias por vaguear

e sonhas com círculos suspensos no Céu

… e os homens embebidos nos poemas de chorar

que o poeta deixou na clareira amortalhada

que o poeta cessou depois da tua partida,

 

Vagueias miúda no cigarro incandescente

corres, corres... corres sem perceber que há no amanhecer fotografias tuas

calendários moribundos...

e relógios com mecanismos envenenados

vagueias nos alicerces da solidão

deitas a cabeça no meu peito

e em tristes suspiros...

finges que me amas... quando é impossível amarem este poeta de luz...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 25 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:38

22
Out 14

Vão morrendo as palavras de amar

quando desperta no amanhecer

o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar,

 

Faço-me à vida,

caminho sonâmbulo sobre a fogueira dos meus poemas

até que eles se transformem em nada,

olho-me no espelho da agonia, sinto na garganta a tempestade da paixão,

carrego nos ombros o peso do meu próprio caixão,

em vidro, e com fotografia a preto e branco para o mar,

saboreio o teu corpo nas pálpebras verdes dos livros não lidos,

perco-me em ti... sem saber se amo, sem saber se estou vivo nesta campânula de lágrimas,

e o desassossego inventa-me como se eu fosse um papagaio de papel,

de muitas cores,

como muitas cartas de amor

no tempo destruídas pelas suicidas lâminas da geometria,

 

Tenho saudades de ti...

minha Lisboa, meu amado Tejo... meu amante Cais do Sodré,

percebia nas paredes húmidas da noite um corpo em translação,

uma puta que procurava um ombro de gesso,

um gajo embriagado que cuspia finos fios de fogo...

e terminava quando a cidade acordava,

eu amava, eu não amava...

eu sentia nas amoreiras flores o beijo de ninguém,

o pavimento paralelepípedo da tristeza começava a transpirar,

ouviam-se os gemidos delas, ouviam-se os gemidos deles...

e ao longe,

um apito encurralado entre carris de aço em direcção a Belém,

 

(Vão morrendo as palavras de amar

quando desperta no amanhecer

o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar),

 

Esquecia as mãos na algibeira,

iluminava-me na fragrância madrugada quando um banco de jardim corria para o rio,

misturava-se com um velho Cacilheiro, às vezes... tossindo, às vezes... às vezes coxeando...

como um mendigo prisioneiro de um vão de escada,

como um marinheiro em busca de sexo, drogas... e um par de asas...

nunca voei,

e havia noites que sobrevoava a minha amada Lisboa,

como um louco,

como um prego de aço no barbear da manhã...

disfarçava-me de ponte metálica...

e desenhava sorrisos nos vidros pintados de negro embalsamado,

até morrerem todas as palavras de amar...!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:00

06
Out 14

O vampiro ensanguentado

é filho de um quadrado,

à noite, coitado, adormece empoleirado no cansaço,

e pela madrugada, acorda vestido de roseira,

nunca conheceu a mãe,

apenas existe uma fotografia pendurada no espelho do amanhecer,

e ao longe, e ao longe uma fogueira...

e no centro da fogueira... palavras que ele recusa ler,

é destemido, e é solitário,

o vampiro ensanguentado desiste de observar os plátanos

e os anzóis de papel, senta-se junto ao rio...

e sonha com os barcos de vidro,

 

apanha com a mão os pedacinhos mais frágeis do vento,

sorri, sorri porque acredita no luar,

o vampiro... ensanguentado...

é filho de um quadrado,

e detesta as tempestades de amar,

 

não sei, não sei se ele vai ler estas palavras...

 

terá de apagar a fogueira,

ir ao seu centro...

e das cinzas,

ressuscitar os corações de sofrimento.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:27

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