Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

13
Fev 13

A minha casa,

Quatro paredes em cartão, do fino, que é mais chique, não tenho janelas para o mar, porque infelizmente ele vive longe de mim, não tem telhado, felizmente para mim, porque às vezes falta-me o ar e tenho grande dificuldade em respirar, ela, a minha casinha, não tem mobílias luxuosas, e tirando a máquina de costura Singer que herdei de uma bisavó que deve ter mais de setenta anos, talvez mais

Nada a acrescentar, nasci longe e vim de longe, e quando regressar, irei regressar para longe, talvez encontre outra casinha modesta com esta, mas aqui

Não vou ficar mais,

Mas aqui falta-me o mar, os barcos em passeios nocturnos quando terminavam as sessões das duas da madrugada, os cinema recheados de gajos em desejo, às vezes sentiam-se-lhes os gemidos entre as portas de madeira do Hall e a sala de fumo, percebia-se pelo comportamento dos cigarros que havia um perfume de mulher algures nos cortinados das janelas viradas para os telhados adormecidos de uma cidade abandonada, mas lá eu

Tu lá eras feliz, tinhas sonhos, brincavas com personagens invisíveis e desenhavas em todas as paredes da casa, excepto na casa de banho, talvez por ser o único compartimento que quase sempre estava ocupado, passavas tardes intermináveis a construir vestidos para bonecos loucos, pegavas na agulha da tua mãe, nas linhas, e dos tecidos

Lindos vestidos e quando te perguntavam o que querias ser quando fosses grandes, algumas vezes respondias

NADA,

Outras que

QUERO SER COSTUREIRO OU BAILARINO,

E afinal

E afinal não fui uma coisa nem outra, sou um homem descomplexado, pobre, sem palavras, sem ideias, sem o amor vestido de qualquer coisa, de morte

Outras que

QUERO SER COSTUREIRO OU BAILARINO,

E

E afinal vivo numa casa com quatro paredes em cartão, do fino, que é mais chique, não tenho janelas para o mar, porque infelizmente ele vive longe de mim, não tem telhado, felizmente para mim, porque às vezes falta-me o ar e tenho grande dificuldade em respirar, ela, a minha casinha, não tem mobílias luxuosas, e tirando a máquina de costura Singer que herdei de uma bisavó que deve ter mais de setenta anos, talvez mais

Outras?

E

E ainda acredito nos olhos disfarçados em poemas, e ainda acredito nos lábios com tonalidade de sílabas adormecidas, como as rochas do amor, como os orifícios das portas com vista para um corredor comprido, fino e escuro, onde

Brincam

Onde e

Barcas vestidas de barcos com âncoras de aço e correntes em oiro, às vezes oiço-os masturbarem-se no tecto embaciado do Domingo de prata, e do calendário ordinário com gajas nuas que o sapateiro suspende todos os anos desde que começou a trabalhar

Murcham as palavras do amor proibido, cansado do azul sobre os joelhos com rosas amarelas, vestias-te de cinzento para te confundirem com os candeeiros de silício amargurado que caem nas noites de celibato, e os homens aproveitavam-se das tuas mãos para roubarem o telhado da minha pobre casinha,

A trabalhar um pedaço de sola como o pão duro das sobras que durante a noite dormem nos caixotes de luxo, e que muita gente teima em apelidar de lixo, duro, robusto, sapatos de luxo para exportação, e quem sabe

NADA,

Outras que

QUERO SER COSTUREIRO OU BAILARINO,

E afinal

E afinal não fui uma coisa nem outra, sou um homem descomplexado, pobre, sem palavras, sem ideias, sem o amor vestido de qualquer coisa, de morte

Outras que

QUERO SER COSTUREIRO OU BAILARINO,

De fatias de pão nasçam sapatos de luxo...

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:59

06
Jan 13

Assassina-me como se eu fosse um grito de luz, e não deixes que as cores do arco-íris murchem, se extingam, morram, quando acorda a noite no pólo da saudade, chegavas tardíssimo a casa, inventavas trânsito que todos os dias antes partires, deixavas colado no frigorífico, regressavas, descolavas o post-it e a cidade retomava o ritmo solitário que as noites trazem, constroem dentro das imensas dores frágeis que os ossos das tuas mãos carregavam caminho abaixo até chegares à ribeira, e mentalmente ela queria dizer-me

Amor, falta-nos tudo,

E ele respondia-lhe

Se a casa tiver livros já tem tudo,

Não, livros não tem, em finíssimas palavras a senhoria, Nem um sequer para amostra? Não, respondia-nos ela, nem um para amostra, talvez ratazanas, talvez teias de aranha, talvez

Tenho a certeza que estou constipado, e ela

Amor, falta-nos tudo,

E ela aparecia durante a noite com o leite e o mel,

Vai fazer-te bem, amor,

Acordavas-me, erguias-me, a ténue luz desenhava na parede lateral um menino de sombra, e ela obrigava-me a beber o leite com mel, queimava a boca, torcia-me na cama como se estivesse no interior de uma tempestade de areia, bufava, arfava, em pedacinhos ia engolindo a mistela, e sentia o calor desértico das terras ensanguentadas pelas lilases letras dos cadernos proibidos pelos militares que ocupavam a nossa província perdida no meio de urtigas e rochas esquisitas que os homens das aldeias vizinhas vinham buscar para pintarem e vendiam-nas aos transeuntes turistas que em noites de luz cheia nos visitavam,

As ratazanas querem comer-me, acreditava eu, a cada segundo de ponteiro que o velho relógio descrevia nas clandestinas terras assombradas pelo capim desnorteado, estonteante, doente, e afinal as ditas ainda tinham mais medo do que os palhaços do circo junto ao átrio da igreja protestante, e mentalmente ela queria dizer-me

Amor, falta-nos tudo,

E ele respondia-lhe

Se a casa tiver livros já tem tudo,

Vai fazer-te bem, amor,

Acordavas-me, erguias-me, a ténue luz desenhava na parede lateral um menino de sombra, e ela obrigava-me a beber o leite com mel, queimava a boca, torcia-me na cama como se estivesse no interior de uma tempestade de areia, e nunca percebi o infernal trânsito

chegavas tardíssimo a casa, inventavas trânsito que todos os dias antes partires, deixavas colado no frigorífico, regressavas, descolavas o post-it e a cidade retomava o ritmo solitário que as noites trazem, constroem dentro das imensas dores frágeis que os ossos das tuas mãos carregavam caminho abaixo até chegares à ribeira, e mentalmente ela queria dizer-me

Amor, falta-nos tudo, e afinal, as ratazanas queriam comer-me, acreditava eu, a cada segundo de ponteiro que o velho relógio descrevia nas clandestinas terras assombradas pelo capim desnorteado, estonteante, doente, e afinal as ditas ainda tinham mais medo do que os palhaços do circo junto ao átrio da igreja protestante, e mentalmente ela queria dizer-me,

Se a casa tiver livros já tem tudo,

O trigo deixou de crescer após a tua partida, os pássaros, hoje, tal como os aviões, não voam, morrem, às vezes morrem, sem nada a casa, hoje não, se a casa tiver livros já tem tudo, o post-it e a cidade retomava o ritmo solitário que as noites trazem, constroem dentro das imensas dores frágeis que os ossos das tuas mãos carregavam caminho abaixo até chegares à ribeira, e mentalmente ela queria dizer-me

Falta-nos tudo,

E mentalmente ela queria dizer-me que o trigo deixou de crescer após a tua partida, os pássaros, hoje, tal como os aviões, não voam, morrem, às vezes morrem, sem nada a casa, hoje não, se a casa tiver livros já tem tudo,

E tu

Assassina-me como se eu fosse um grito de luz, e não deixes que as cores do arco-íris murchem, se extingam, morram, quando acorda a noite no pólo da saudade, chegavas tardíssimo a casa, inventavas trânsito que todos os dias antes partires, os pássaros, os aviões, e eu

E eu sempre que podia, quase sempre, antes de começar a noite, inventava trânsito, que cobriam as cores do arco-íris, e tu

E eu

Com o leite, o mel, à espera que regressasses das tuas longínquas viagens ao além, e afinal as ditas ainda tinham mais medo do que os palhaços do circo junto ao átrio da igreja protestante.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:23

05
Jan 13

Sou uma casa em ruínas

simplificada que habita na garganta da avenida

sentindo a solidão das pálpebras doces que a noite deixa ficar

sou

sem portas

janelas

nem vista para o mar

uma casa cansada,

 

uma casa triste e velha dançando na madrugada

sou uma casa em ruínas

abandonada

como todas as palavras que escrevo

desgraçadamente voando sobre as nuvens cinzentas

sou sem portas varandas

restaurante sem ementa

e tantas

casas como eu

à procura do céu

em zinco as lâminas que o vento semeia

no peito coração das gentes da aldeia,

 

sou

uma casa

em ruínas

apenas só

amarga

dançando debaixo das árvores de papel

que as palavras silenciosas

sou

sem portas

janelas

nem vista para o mar

uma casa cansada...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:19

27
Out 11

A casa deixa de fazer sentido

As janelas cobrem-se de nuvens

E a porta de entrada acorrentada à montanha

Que desce do céu,

 

O rio entra pela chaminé

E desce e desce e desce…

E poisa e poisa e poisa…

Na penumbra lareira imaginária,

 

A casa deserta e só

Escondida nos braços da neblina,

A casa, a casa imaginária

Onde vive um menino invisível,

 

E só e só e só…

A poeira que se alicerça nos livros,

A casa deixa de fazer sentido

Quando acorda a tarde,

 

A casa,

Começa a voar em círculos na copa das árvores,

E voa e voa e voa…

Em direção ao mar.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 10:41
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17
Set 11

Regresso a casa nas mãos do vento

Com nuvens suspensas nos meus lábios,

Regresso do mar,

E chego a casa e um petroleiro à porta de entrada,

Cansado e com falta de ar,

Cansado e quer zarpar

Pela madrugada…

Regresso a casa

E a casa vazia e a casa perdida nas estrelas da noite,

A casa embalsamada,

A casa enfurecida com a tempestade,

A casa malvada,

 

Regresso a casa nas mãos do vento

E o vento encostado ao petroleiro,

E a casa camuflada no capim desajeitado…

Regresso a casa e a casa em sofrimento

E a casa um veleiro,

A casa… um corpo deliciosamente travestido de gelado,

 

Regresso a casa nas mãos do vento

Com nuvens suspensas nos meus lábios,

Encalhada em astrolábios

Sem movimento,

 

A casa nua

A casa que se evapora no cacimbo de Luanda…

Regresso a casa e pela janela vejo a lua

Prisioneira nas mãos de quem manda…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:39

25
Jun 11

A casa amarela e suja,

Seminua encastrada na serra que a humidade corrói como um barco enferrujado, o aço que cintila e absorve a luz do dia, os bichos que habitam nas minhas árvores e ao final da tarde esperam impacientemente pelo regresso dos estorninhos, ensurdecedor este silêncio de pássaros que lá do alto deixam cair a porcaria esbranquiçada que nas tripas se acumula e alastra como manchas de óleo no pavimento,

- Que faço eu aqui?, diz a casa no silêncio da serra, as janelas de boca aberta na sombra das árvores,

O sol sufoca os pulmões da casa,

Na tosse engasgada quando o meu corpo diminuído se agarrava a um ramo de árvore e parecia um pêndulo em movimento, horas minutos e segundos no recreio da escola junto ao jardim, defecar só no terreno do vizinho, e sentia no rabo o vento fresco da manhã, malditos estorninhos, quando o rabo se encostava às peugadas da sombra das videiras, a escola empenada e de coluna vertebral escorregadia nos bicos de papagaio, tosse tosse nas arcadas da minha mão, tosse na casa amarela e suja nos olhos esbugalhados dos estorninhos durante a noite,

- E feliz eu quando habitada!, agora, agora míseras paredes inclinadas nos dias chuvosos de inverno, as madeiras a alimentação preferida do caruncho ao pequeno-almoço, e das janelas os farrapos dos cortinados suspensos no vento que assobia serra abaixo, e na cabeça os finíssimos fios de cabelo, e eu feliz quando crianças dentro de mim!,

Dos alicerces a ténue nuvem em decomposição, o cheiro a cadáver nas rugas da argamassa,

A casa seminua amarela e suja, das asas o esvoaçar de penas levadas na tempestade, escondo-me na serra, eu sou a serra entregue por vós, e se fez homem ao terceiro dia, o mar, o mar entra-lhe pela janela e um petroleiro envelhecido derrama sémen nos lençóis da cama, lençóis azuis, a cor do mar quando o lavatório se agarra à torneira e água desce pela parede e na terra semeada as flores amargas da primavera, rebeldes, indomáveis, a casa selvagem ou da bruma escuridão das minhas mãos à espera do jantar, e o que é hoje o jantar?,

- Lasanha meu querido,

Outra vez?,

Outra vez o regresso dos estorninhos, e ninguém à espera deles, sobre a secretária “Vigílias de AL Berto” e “ O caderno de Saramago”, nada mais em mim e de mim, a febre estonteia-lhe a cabeça nos lençóis defecados do mar, e o mar entra pela janela, entra o mar e as mãos de AL Berto, e que injusto este pais,

- Porquê outra vez?,

Ainda ontem…

Nas flores do jardim e hoje não abelhas, das flores do jardim o silvado onde se escondem as lágrimas da casa, a serra a ser engolida pelos estorninhos quando a luz se acende e ela indefinidamente sente o chão em movimento, o peso de anos e anos de olhos cerrados, debruça-se na ribeira e da ribeira,

- Ainda ontem o jantar lasanha,

Os pratos seminus dentro da casa amarela e suja,

Encastrada na serra que a humidade corrói como um barco enferrujado, na testa VENDE-SE, vende-se sucata, mobílias que acabam de chegar da  ortopedia, ainda estão quentinhas, radiografia aos pulmões, e o alcatrão do cigarro preso às paredes velhas e sujas do amarelo esquecido no tecido da saia, e vende-se o petroleiro e os estorninhos que não cessam de cagar, o chão em manchas de óleo, o chão,

- Aleluia Aleluia, Deus proteja esta casa,

Esta casa que se esfarela nos seios da serra,

Tristes e sinceros, e de olhar carrancudo me olham e deixaram de me desejar, dentro da casa a pele húmida e macia onde na parede um calendário parou no dia 25 de Junho de 2011, sábado, 25 de Junho de 2011, um dia como tantos outros não fosse o mar entrar pela janela…

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:26

12
Mai 11

Dentro dele um electrão percorre-lhe o corpo e esconde-se no peito juntinho ao coração, sente uma picadinha, não dor, caminha até à pedreira, deita-se no chão e adormece.

 

A casa transpira e vê-se o suor impresso nas janelas, e nas cortinas, as cortinas sem fôlego com uma mão a segurar-se ao tecido para se proteger das ondas, quando nas rochas ele em criança quase a afogar-se, escorrega lentamente e desaparece no olhar de um petroleiro que passa lá longe, muito longe, dentro do corredor estreito e infinito, e das imensas portas, umas do lado direito, outras, do lado esquerdo, os olhos abrem-se.

 

Fechar os olhos, chamar os braços que andam em círculo junto ao rio e enrolar-se na tarde que começa a acordar, juntar os joelhos ao peito, dormir eternamente, e o electrão após várias tentativas de fuga começa a erguer-se até às nuvens, e as nuvens lá, construídas de silêncios de algodão e sorrisos de linho, a tarde desprende-se do corredor onde portas caminham junto ao rodapé, e do pai emerge a voz que em pedacinhos de palavras o chama, mas ele não acorda, dorme, sonha,

 

- eu deitado na areia, eu já sem corpo, eu sem nada, eu deitado na areia a sorrir aos albatrozes que caminham apressados pelas ruas da cidade, fumam cigarros compulsivamente, passam por mim, passam por mim como se eu fosse um contentor de lixo, e talvez eu um contentor de lixo esquecido na praia, eu deitado, eu a sonhar.

 

Ele dorme eternamente e sonha, ele a casa que transpira e nas janelas o suor impresso, as cortinas sem fôlego com uma mão a segurar-se ao tecido para se proteger das ondas, e a mão começa a dançar, e a mão deixa de se ver, mistura-se com as ondas, e desaparece do olhar, o corredor vazio, e na casa, na casa apenas as janelas com saudades do electrão…

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

12 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:09

07
Mai 11

A casa a tremer de frio e o meu corpo em suspenso entre a porta de entrada e o jardim, a casa na cama ensopada nos cobertores, enrolada nas sombras da noite, vira-se para a esquerda, vira-se para a direita, dobra-se sobre si, e a casa em suspiros longos, puxa de um cigarro, o cigarro em compasso de espera, acende-se e o escuro apodera-se do fumo, e apaga-se, a casa a tremer de frio, não dorme, e o meu corpo à porta de entrada junto ao jardim, e o jardim aos meus pés acabado de acordar, a casa em convulsões nas frestas interiores, e à janela o mar que espera entrar, não, não o mar, não desistas dos meus braços agora, e a casa na ressaca da noite, treme de frio, ensopada nos cobertores,

 

- não, não desistas de me abraçar, não desistas dos meus braços agora…

 

Ensopada nos cobertores, a casa treme de frio, levanta-se, veste-se, abre a porta… e quando me apercebo está à minha frente no jardim ensonado, está magra, desossada, os braços picados pelas abelhas e a casa não um malmequer, a casa uma casa, que em pleno verão treme de frio, sobretudo cinzento nos ombros, e não pára de correr, e em círculos concêntricos gira em meu redor, parece a terra em movimento de rotação em volta da lua, eu, eu a tremer de frio, a casa,

 

- não, não desistas de me abraçar, não desistas dos meus braços agora…, no guarda-fato o meu esqueleto incompleto à espera das frestas da casa e do inverno que de vez em quando poisa no jardim, baixo-me, pego numa flor, e percebo que a flor com medo do meu corpo, da casa, de nós,

 

A casa treme de frio enrodilha-se nos cobertores da madrugada, engasga-se na tosse, não dorme, não come, pesam-lhe os braços quando alguém acende a luz do quarto, e esqueci-me, esqueço-me que a casa com diarreia, caminhadas infundadas até à casa de banho, diarreia e vómitos, eu transpirava, eu tinha frio, eu ontem, eu há dezassete anos, precisamente a 7 de Maio de 1994, a esta hora a casa, a casa a estrafegar um grama de heroína, e depois, e amanhã?

 

- E hoje? Hoje não heroína, hoje nunca mais heroína, hoje eu sentado junto ao mar à espera que ela,

 

Ela vai-lhe crescer o cabelo, pegar na minha mão e levar-me para casa,

 

- não, não desistas de me abraçar, não desistas dos meus braços agora…

 

 

 

(texto de ficção inspirado no dia 7 de Maio de 1994)

Luís Fontinha

7 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:10

21
Abr 11

O crucifixo pendurado na parede do quarto olha-me como se eu fosse um criminoso, malfeitor, impostor, olha-me como se eu fosse uma sombra pendurada na ombreira da porta virada para o mar, o meu corpo sobre a cama com suspensão das funções vitais, dois quadros olham-me e trocem o nariz à minha cara de parvo, à minha cara de incredulidade porque da janela via o mar, e das duas uma, ou a janela estava ao lado da porta, ou,

- ou eu estou a ficar louco

Ou o mar dá a volta à minha casa, a minha casa dentro do mar, e por essa ordem eu conseguiria ver o mar da janela e ver o mar da porta, e a janela e a aporta, em sítios distintos, opostas uma à outra, e

- O crucifixo pendurado na parede do quarto olha-me

E eu detesto, não gosto, e eu fico muito chateado com o olhar de um crucifixo que sempre me lembro de ver naquela posição e que desde miúdo está ali pendurado como se fosse um retrato de um falecido, quando o mar me rodeia eu fico em silêncio, chamo as gaivotas à minha mão e na minha mão poisam cansaços da noite, e da noite

- dois quadros olham-me e trocem o nariz à minha cara de parvo, dois quadros e um crucifixo, e finalmente percebo que não estou só dentro da casa rodeada pelo mar, eu na companhia de três fantasmas pendurados na parede,

Eu chamo as gaivotas à minha mão, e na minha mão começa a acordar o sono, viro-me para o lado, lentamente fecho os olhos e espero, espero que o sono tome conta de mim.

 

 

(texto de ficção)

FLRF

21 de Abril de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:40

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