Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

14
Abr 15

O vento não passa por mim

Não me abraça

Não brinca comigo no jardim

O vento ignora o baloiço da minha infância

Deixa-me sem paciência

Para as coisas

As mais simples

E as mais belas

O meu cão fugiu de casa

Ou fartou-se da casa

Ou cansou-se das minhas palavras

E nem o vento o traz

 

E nem o vento me leva

Como o faz

Às folhas caducas de uma árvore

Ou aos cabelos desalinhados da doença

Não toca nas páginas escritas sobre a minha secretária

Nem nos livros não lidos

Por falta de tempo

Por falta de vontade para o fazer

O vento não passa por mim

Não me abraça

Nem dá força à tua barcaça

Que andas à deriva

 

Num Oceano sem nome

Algures entre Luanda

E

E Lisboa

O vento

Esquece

O vento esquece a criança que vive dentro de mim

Que brincava num quintal

Recheado de sombras e cheiros

Que trouxe

Mas com o tempo se perderam nos socalcos do Douro

E outro vento

 

Os levou

Para outro Oceano

Tão distante

Meu amor

Tão distante que nem à velocidade da luz

Eu

A criança

Conseguia alcançá-los

Os calções

Os papagaios de papel

Longe

 

Procurando outro vento

Numa outra cidade

Sem ruas

Sem pessoas para amar

Apenas cinzas

De um velho cigarro

Suspenso

Entre dedos

E rochedos

(O vento não passa por mim

Não me abraça

Não brinca comigo no jardim

 

O vento ignora o baloiço da minha infância

Deixa-me sem paciência

Para as coisas

As mais simples

E as mais belas)

Como o sorriso do teu amanhecer

Junto ao Tejo

Os cacilheiros embriagados de transeuntes

Apressados

Tão apressados

Que

Que deixaram de sentir o vento

 

Como eu

Eu

A criança do baloiço

Inventando círculos de prata

Nas manhãs engolidas pelo cacimbo

O vento

O vento é uma desgraça

Não passa

Nem me abraça…

A cabeça estoira

E a chuva pendura-se

No vento que de mim desistiu.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 14 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 18:02

31
Mar 15

O fim

Duas rectas paralelas…

… Abraçadas

No infinito cansaço

A sinfonia das pálpebras em veludo

Na sombra do amor

Gaivotas tontas

Tontas… tontas flores de papel

Sobre o teu ventre

Envenenado

O fim

Duas

 

Rectas

Longas

Infinito…

Abraçadas

Triste

A distância

Triste

A solidão nos dias em companhia

Os livros

Me alimentam

Abro a janela

O Douro à espreita

 

Nos barcos azuis da madrugada

O comboio pára

Os homens e as mulheres

Nos livros

Triste

Infinito…

E longas

As tardes sem ti

Adormecia no teu colo

E inventava aviões de musgo prensado

Olhava as lâmpadas dos teu olhar

O tecto dos teus seios

 

No mar

O comboio se esconde no teu púbis

E entre apitos

Uma nova paragem

As mão

Escalam o teu corpo de cera

Em chamas

Não sei o teu nome

Meu amor

Sei o dia em que nasci

Sei o dia em que vi o mar pela primeira vez…

Mas o teu nome

 

Meu amor

As mãos

Nos livros

Triste

Infinito…

E longas (pernas)

Ruelas sem saída

Mulheres de ébano

Semeadas no passeio da ilusão

O esqueleto meu amor

Dançando sobre a praia

Nua (ela ou ela?).

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 31 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:24

15
Mar 15

o engate suspenso nos anzóis da tarde

à mão

regressa a caneta da solidão

e há nuvens de papel nos olhos do poema

és livre

de voar

sobre os corações de xisto

que habitam as imagens a preto e branco

do Douro

navegar

subir ao luar

e,

 

e abraçar-se aos vulcões de areia

dos homens

e das mulheres

de sombra,

 

imaginar

desenhar nas entranhas pálpebras de amar

o silêncio do beijo

à janela

o mar avança e nos leva

somos dois

talvez...

três

o engate

à mão

suspenso nos anzóis da tarde

a tarde... a tarde dos farrapos de vidro...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 15 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:35

03
Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

estas mãos se cruzam no Oceano tua pele

mergulhando nas tuas pálpebras de madrugada

estas mãos te amam

e acariciam

nas tardes envenenadas pelo desejo

estas mãos de ninguém

com todos os cheiros da sanzala

estas mãos de ninguém

com todos os sons do amanhecer

que só o perfume de uma rosa consegue desenhar

e... e escrever

nas sombras do mar

estas mãos se cruzam no Oceano tua pele

que o barco do meu amor suavemente desliza...

como todas as palavras soltas

como todos os vinhedos suspensos no sorriso de uma enxada

estas mãos te amam

e acariciam

estas mãos de ninguém

que o tempo come

e despoja as suas cinzas no cemitério nocturno das gaivotas sem nome...

estas mãos

estas mãos se cruzam

quando todas as luzes se apagam e todos os corpos morrem...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 3 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:40

30
Nov 14

Sinto as tuas mãos

meu marinheiro iletrado

ensanguentadas

poisadas nos meus ombros de xisto

o rio se entranha nas minhas veias

no meu peito socalcos se embriagam

e sentem

o peso da despedida,

 

a lentidão da esperança

mergulhada no lixo poético do meu cansaço

e há mulheres tão lindas... esperando um abraço,

 

e há mulheres tão lindas... esperando um beijo

e sinto

as tuas mãos meu marinheiro iletrado

quando as candeias da saudade acordam

e fingem

que hoje é dia dos tentáculos de sal

das palavras enxertadas de insónia

e meu querido...

as minhas palavras são a febre que alimentam as hélices do corpo em cio

e do clitóris da estória...

sinto as tuas mãos...

meu querido!

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 30 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 01:05

25
Set 14

Tudo em meu redor parece embriagado

os livros

os desenhos

e as palavras

o meu corpo pesado

e os poemas embalsamados

dormem

sobre a secretária

como se fossem um mendigo diplomado

o meu olhar desassossegado

inventa candeeiros de papel

com anéis de tristeza

não existem lágrimas que escondam a madrugada

nem lábios de framboesa que abracem os meus braços de lata

o meu silêncio em greve

o meu silêncio uma videira acorrentada

aos socalcos da dor

o meu corpo ferve como fervem as línguas de fogo que habitam os meus cabelos...

tudo em meu redor morre

as plantas

as árvores...

e os pássaros sem nome.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:57

24
Ago 14

Sou o legítimo dono da noite,

sou o candeeiro onde se esconde o mendigo,

o rio que não corre para o mar,

sou a ponte frágil em madeira que antes de ser ponte...

um caixote,

o cofre das minhas recordações,

as imagens,

os sons e os cheiros de uma terra que não existe mais...

 

Sou a videira que morreu no socalco,

sou o socalco que tombou...,

sou o cansaço legítimo e dono da noite,

a prostituta que sobe e desce a montanha dos segredos,

sou o vento de papel sobre a luz ténue da aldeia,

o sino que não se cansa de me acordar...

sou as palavras com lábios de poema,

dos sons e dos cheiros de uma terra que não existe mais...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 24 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:44

16
Ago 14

Inventava no teu olhar barcos de esferovite,

desenhava nos teus sonhos rios sem nome,

vinhedos,

socalcos...

e tantos medos,

 

Inventava no teu corpo soníferos de verniz,

casinhas de papel onde brincávamos,

escrevia em ti o desejo sem giz,

inventava na tua almofada com bolinhas encarnadas o beijo...

uma porta que batia, lá longe, muito longe,

onde habitava o corredor da mendicidade,

tínhamos os cigarros suspensos no espelho do guarda-fatos,

e sentíamos o vento latir sob a janela da insónia...

éramos dois pássaros poisados num abraço de madrugada,

éramos duas rebeldes nuvens em direcção ao mar,

e sentíamos...

e tínhamos...

 

Amanheceres disfarçados de traição,

 

E inventava nos teus cabelos uma canção,

percebia-se na musicalidade das tuas mãos os tristes Invernos...

a lareira acesa e dois copos recheado com vinho do Douro,

os teus seios de diamante lapidado entretinham-se com os meus lábios...

e eu nunca entendi o significado amar,

 

Vinhedos,

socalcos...

e tantos medos.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 16 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:16

29
Jul 14

Desejastes-me Senhora,

quando eu tudo tinha,

hoje, que não tenho nada,

vós, minha Senhora,

odiais-me...

pareceis, hoje, uma alminha,

denegrida,

deitada na madrugada,

 

Desejastes-me Senhora,

nas mansardas de Belém...

fazíamos amor olhando o rio,

triste, e habitado por chulos, putas... e Cacilheiros,

à janela,

os cigarros semeados numa casa amarela,

fumegavam, e gritavam... e gritavam... esta Senhora é bela,

bela Porcelana,

que rica Porcelana... ela!

Desejastes-me Senhora,

quando eu tudo tinha,

hoje, que não tenho nada,

 

vós, minha Senhora,

odiais-me...

 

O poeta é um fotógrafo de palavras,

um pintor de caricias e medos,

o poeta é... o poeta é um escultor...

molda, molda o corpo da minha Senhora bela,

do granito embalsamado...

que olhando outro rio,

não triste, não habitado por chulos, putas... e Cacilheiros,

vive como um coitado,

 

vós, minha Senhora,

odiais-me...

 

E ainda guardais dentro de um livro uma envelhecida flor,

 

Não morreu o poeta, não morreu a minha Senhora bela...

mas... mas morreu o amor,

 

E morreu a casa amarela.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:25

07
Jun 14

Hoje, quero fugir,

esconder-me na sanzala da minha infância,

com os meus frágeis bracinhos, chapinhar nos charcos de areia,

hoje, hoje a noite parece um cortinado de incenso, ténue silêncio nos teus dedos,

faltam-me as palavras, faltam-me corpos para escrever as palavras,

de neblina, de pólen... corpos, de cera, de nada, apenas corpos sem significado,

hoje, quero fugir,

hoje, hoje pareço uma locomotiva galgando os campos de milho de Carvalhais,

apitos,

e gritos,

hoje,

hoje, os teus olhos incendiaram os meus lábios,

 

(palpita-me que hoje vais descobrir o texto invisível que esconde o meu peito)

 

Hoje, quero-te,

fugir,

alegrar-me com o teu sorriso de bambu,

afagar o mabeco desgostoso, cansado da vida, cansado... cansado destas palavras...

 

(Cansado da tua ausência, e não estás ausente, e não... e não hoje, por favor, hoje não, hoje não sonhos nos teus cabelos)

 

Hoje, quero fugir,

desenhar-te na minha boca,

hoje, esconder-me em ti,

como uma criança amedrontada,

triste,

com medo,

medo que do mar venha a sanzala da minha infância,

e me traga,

paciência...

porque hoje, hoje quero fugir,

e hoje quero-te em mim,

construindo círculos de preia-mar,

 

Hoje, quero-te,

fugir,

alegrar-me com o teu sorriso de bambu,

afagar o mabeco desgostoso, cansado da vida, cansado... cansado destas palavras...

 

(searas, margaridas, hoje todos me pedem as palavras que nunca escrevi)

 

E hoje, e hoje escrevo porque te vi,

e sem ti,

senti o luar poisar nos meus ombros,

senti o xisto dos muros caindo dos socalcos imaginários,

como os barcos de papel,

como os marinheiros de sisal,

enfeitados com plumas encarnadas e sorrisos de vodka,

e hoje, e hoje quero fugir,

aterrar num bar sem conhecer ninguém,

sem palavras,

sem... sem ti,

sentir o machimbombo da paixão em pequenos soluços,

 

(e nada como uma bebida com sabor a amar)

 

Um shot de AMOR!

Porque hoje quero fugir,

um shot de saudade,

porque hoje sem ti,

senti a tua fotografia na montra de uma livraria,

raios...

outra vez a poesia,

um shot, por favor,

um shot de alegria,

um shot para me recordar,

como eram lindos os teus seios de madrugada,

e hoje, hoje quero fugir,

 

(sem me preocupar com o amanhecer, sem me preocupar com nada).

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 7 de Junho de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:09

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