Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

12
Abr 15

Sinto-te

Nesta jangada invisível

Do sofrimento

O cansaço

À palavra

Na tua mão

Entre cidades

Rios

Pontes

Os olhos

Fundeados nos rochedos da solidão

O prateado silêncio

Nas paredes do sono

O poema inventado

Pela árvore adormecida da tristeza

Sinto-te misturada nas ardósias tardes de Primavera

Não chove

Há nos teus lábios

O sorriso do luar

E os sonhos

Do mar

Lá longe

Perdido

Nos sofridos barcos de esferovite

Os peixes e as gaivotas

Poisadas no teu corpo

Alimentado pelo meu olhar

Voas

Foges

Levantas-te de madrugada

E regressas ao endereço desconhecido

Devolvida por endereço insuficiente

A noite

E

As estrelas de papel

Sinto-te

Nas arcadas manhãs em liberdade

Sinto-te nas sanzalas esquecidas

Sobrevoando o capim da memória

A casa distante dos teus braços

As janelas do teu cabelo

Sós

Nós

Entre socalcos

E

E marfim

Ao pequeno-almoço

Sinto-te

Nos horários ensanguentados do pêndulo amortecido

Uma lagarta de aço

Em curvilíneas convulsões

O medo

O amor aprisionado ao medo

De partir

Regressar

Sem bagagem

Sós

Numa eira sem asas

Esperando o acordar das estátuas

As lagartas da insónia

Os muros amarelos de um triste Calçada

O estuário dos teus seios contra as marés de prata

Sinto-te

E sinto-te nas páginas em branco

Do ciúme

Teu

Amanhã

Sinto-te

Sentir-te

Nos lençóis da paixão

Como sentia em criança os palhaços nas mangueiras do meu quintal…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 12 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:26

30
Mar 15

Pareço um sedimento

Quando acordam as abelhas

E as migalhas de gelo

Que não pareço

Sonham nas árvores do teu jardim

Sou o vagabundo transatlântico

Desgovernado

Como sempre fui

Desde que nasci

Quando abriram a janela do perfume

E lá estavam elas

Todas preenchidas

 

Empilhadas

As nuvens de um Domingo

Sem endereço

Ou… ou identidade

Sinto no teu olhar o luar de Janeiro

Porque nasci em Janeiro

Era Verão

O calor entranhava-se na minha mão

Ouvia o sorriso dos parvalhões

À minha volta

Tão pequenino

Tão…

 

(o caralho que vos foda, pensava eu)

Quem são estes gajos

E estas gajas…

Ninguém me respondeu

Ninguém

Hoje são apenas palavras

Mortas

Numa cidade

Morta

Como as ditas migalhas de gelo

Cambaleando num calendário enforcado numa parede

Havia riscos

 

Letras indecifráveis

Papéis velhos

Não amigáveis

A guerra

O silêncio das balas

Cruzando o berçário

Eu era um ranhoso

Rabugento

Sempre aos berros

E mal abri os olhos

Barcos

O meu primeiro sonho

 

Fugi

Mudei de nome

Hoje não sei onde nasci

E se essa terra ainda existe

Ou… ou é apenas uma imagem sem coração

O dia deitava-se sobre a pedra fria da morgue

Eu percebia que lá fora

Alguém

Me esperava

Para quê?

Se eu nunca quis ninguém…

Ao meu lado para me esperar

 

Eu só queria partir

E voar…

Pegar numa faca

E cortar todos os segredos

E todas as sombras

De um quintal

Com mangueiras

E um papagaio em papel

Desenhos

Desenhos no meu peito

Que hoje escorregam quando me levanto

E se transformam em lixo…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 30 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:02

12
Mar 15

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas

que habitam os socalcos da saudade

sou um ninho de cacos

e pequenas películas de silêncio

pela madrugada

oiço a tua voz aprisionada nas frestas deste cubículo

há entre nós um espelho cansado

e triste

ausento-me dos teus lábios

e perco-me nas palavras sem nome

como as ruas da tua cidade

ou da tua aldeia

 

o musseque

fervilha

transpira poesia

e o teu cabelo suspenso numa fotografia

tão distante

o mar

e as marés de sono

que me embrulhavam

hoje

não mar

não sono

nada

 

amar

amar

amar as flores e os desenhos embalsamados

correr montanha abaixo

deitar-me sobre ti

apenas

o peso das nuvens pinceladas de alfazema

a aceleração

acorrentada a uma equação

a física

a matemática

e... e amar

 

nada

os separa

os fios de sémen perdidos no cacimbo

o cachimbo em brasa

lúcido

de braços abertos

e abraça-me

e beija-me

como se beijam todos os livros

folheados

e no entanto

ausento-me deliberadamente das sombras envergonhadas...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 12 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:35

24
Fev 15

Desenho_A1_078.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Os sete orgasmos do Mussulo, a liberdade sobre as palmeiras invisíveis que me atormentavam, como campânulas de sofrimento, ao deitar, o caixão que dançava deixou de o fazer, dificuldades com o cachê, dispensa de artistas e cadáveres de cera, um altar recheado de almas, tantas almas como os versos do sem-abrigo quando sentado numa cadeira apodrecida de um circo ambulante,

Quero ser artista, mãe!

Nem penses..., nem... penses...

Filho meu não é artista!

Nunca,

Nunca, mãe?

Os sete, juntos, e sós, no Mussulo era mais barato, a saia descaída, o soutien desenhado no peito

E...

Nunca, mãe?

Nunca,

Nunca

No peito uma flecha de sémen rodopiando no gelo do ringue de patinagem,,,, o belo, a dança... e o corpo em pequenas rotações...

 

 

(ficção)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:13

27
Jan 15

Porto, 27 de Janeiro de 2015

 

 

Não te oiço

olho os pássaros suspensos nas árvores

e imagino-te um poema em construção

não te oiço

mas sinto o ranger do teu corpo

como um comboio descontrolado

triste...

tão triste que não sabe o significado da dor

tão triste... que se aprisiona no silêncio de um longínquo corredor

tens nos olhos a noite estampada

e não existem estrelas nas tuas mãos...

nem luar no teu sorriso

não te oiço

invento horas num relógio imaginário

os dias

as manhãs

tudo não passa de um sonho

e não te oiço

meu querido

porque imagino-me nos teus braços

passeando as ruas de Luanda

víamos os barcos

e as sanzalas...

sem que eu percebesse o que era a morte.

 

 

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:49

23
Jan 15

Desenho_A1_111.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

preciso das tuas asas para sorrir

vivi numa casa que apelidaram de “borboleta”

nada tinha

às janelas faltavam os vidros

os cobertores tinham partido em viagem silenciosa

e nunca mais regressaram

quando ia à janela via o mar

e a Baía de Luanda

não mar

não asas para sorrir...

a “borboleta” tinha medo das minhas mãos

e quando encostava a cabeça às frestas do gesso cansado

sentia um barco atrapalhado descendo as escadas

correndo

como uma gaivota

que nunca

nunca... quis entrar dentro da “borboleta”...

porque ela era filha de um papagaio imaginado pela criança de porcelana.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:48

13
Jan 15

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

A cidade camuflada pela espingarda das palavras,

o homem vestido de madrugada

esconde-se entre os candeeiros sem nome,

no cais,

encontra a solidão

e alguns cigarros de triste olhar,

há sobre ele o cheiro da saudade

e dos machimbombos puxados pelo cordel invisível do capim,

ouvem-se canções no musseque,

e dançam

e dançam

e dançam...

dançam em redor dos mabecos em fúria,

dançam imaginando pequenos charcos de água

como se o dia não tivesse acordado,

a cidade,

acorrentada,

o homem,

sufocado,

ele,

ela...

e não há poesia nos triciclos de madeira apodrecida, e não há poesia nos papagaios de papel,

esta cidade está infestada de sombras

e de lágrimas cor-de-rosa...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:06

27
Dez 14

O Eros sexo mergulhado nos lençóis da solidão,

o corpo em lágrimas de gesso...

a cidade em pedaços de vento,

o Eros sexo mergulhado nas janelas do Tejo,

a caravela do desejo regressando ao teu ventre,

os lábios da Princesa em cardumes beijos,

que só o mar sabe alimentar,

longe... o silêncio orgasmo das palavras não escritas,

longe... o abraço disfarçado de machimbombo...

voando como a gaivota do “Adeus”...

em pecado,

as palavras... o ventre... as coxas misturadas entre desenhos e sombras embriagadas,

e no entanto...

o Eros sexo... não pára de chorar,

o Eros sexo é o grito da noite depois de acordar.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 27 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:49

19
Dez 14

Vadios soníferos da vaidade

que deambulam nas clandestinas ruas da saudade,

olhares prisioneiros da escuridão,

pincelados tentáculos de gelo descendo o teu corpo pérfido...

e às minhas mãos

o teu cabelo incendiado pelo desejo,

e às minhas mãos o odor censurado do teu coração,

voando sem rumo,

voando... voando embrulhado em lápis de cera que o tempo engole,

e não sabe que em mim habitam os cinzeiros de chita,

os cigarros de papel aromático desenhando lábios de medo na alvorada,

vadios soníferos da vaidade... vadios monstros da madrugada,

vadios meninos de Luanda,

sanzalas encalhadas no cacimbo zincado,

capim em luta pelo sexo,

sem horários como os calendários nocturnos dos mabecos em cio...

o rio se abraça ao barco náufrago que transporta a felicidade,

e a ponte se alicerça aos seios do amanhecer,

vadios os meus poemas

em meninos de Luanda,

a infância lapidada numa avenida sem estória,

como uma fotografia inseminada num estúdio negro,

assombrado,

sem número de polícia... ou paragem de machimbombo.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:04

23
Nov 14

Sinto a falta do fumo do teu cigarro,

não percebo a ausência das tuas mãos...

quando poisavam no meu rosto,

e dos teus lábios sobejavam palavras que não me cansava de ouvir...

sinto a falta do teu olhar embrulhado no cacimbo,

e das mangueiras que brincavam no nosso quintal,

desenhando bonecos de sombra no meu peito,

sinto a tua falta...

e imagino-te a galgar o portão de entrada com um brinquedo debaixo do braço,

e eu...

e eu adormecia no teu colo,

sonhando com barcos de papel e triciclos de luz...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:07

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