Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Andávamos de terra em terra, andávamos de luar em luar, éramos dois mutantes fugitivos aos arautos das marés de inverno, sonhávamos, desesperávamos-nos quando encalhávamos sobre as fragas frágeis das aldeias em flor, e tínhamos medo do dia seguinte, e quando acordávamos, continuava tudo igual ao dia de ontem, amanhã, dizem, amanhã é Sábado, levantarmos-nos não muito cedo, o duche, o pequeno-almoço, e uma torrada para o REX, tomar café, de preferência DELTA RUBY, e depois de enganar-me com as sombras de cigarros apagados desde Maio de 2012, regresso a casa, ligo o portátil e escolho o Ubuntu como Sistema Operativo, fartei-me do Windows e das suas birras, parecendo às vezes certas mulheres, chatinhas, tão chatinhas que as prefiro a elas do que a ele, mas enquanto existir o Linux não o trocarei por outro qualquer, porque há coisas inconfundíveis, incontornáveis, amores eternos, amores como o das pessoas, amores

(sou a favor do software livre e aberto a todos)

E depois de tantos amores, e depois de portátil ligado, vou à minha caixa do correio, - Levanto-me, abro a porta da biblioteca, passo pelo corredor, atravesso em bicos de pés a sala de jantar, mergulho num pequeno Hall e depois de ultrapassar a cozinha, entro definitivamente no quintal, e cerca de quinze metros depois, abro a caixa, e correio... nenhum – quem é que tinha o atrevimento de me escrever, digam-me – Quem? - só o “Fisco”,

(andávamos de abraço em abraço, andávamos de gemido em gemido)

Faço uma visita breve ao meu blogue, talvez escreva alguma coisa, depende dos sábados e do estado da caneta Parker de tinta permanente, até à data nunca ame deixou ficar mal, escreve sempre aquilo que quero e desejo, e Às vezes, até me obriga a escrever aquilo que não quero, mas ela é assim, e assim me vai acompanhar até ao fim

(fim de mim, fim de ti, ou fim de um texto qualquer ou poema)

Copiam tudo, aqueles sacanas, e de “O Medo” de AL Berto, na mão, abro-o, e verifico que é uma edição de Outubro de 1991, Contexto-Círculo de Leitores, e com o número de edição do Círculo de Leitores 3138, nada disto importa, apenas que este livro vale algum dinheiro – Talvez cento e vinte euros – mas a minha curiosidade está na contracapa onde vive um pequeno texto meu, de 9 de Maio de 1994, em Vila Real e digo ser esse o dia mais feliz da minha vida,

E reza assim,

“Não tenho medo

de estar só...

não tenho medo de morrer,

mas... sinto medo de estar vivo!

E se eu morrer,

Que seja sozinho;

tenho medo da multidão,

e sei que não estarás ao meu lado!



Claro que eu percebo estas palavras e porque as escrevi naquela data, mas já não importa, e copiam tudo, aqueles sacanas, copiam os poemas, copiam-me os textos, copiam tudo, aqueles estúpidos pássaros de bico amarelo e negros como a noite, recordo-me em miúdo de ver um em casa do meu avô, dentro de uma gaiola, e já na altura, ficava confuso ver alguém com asas dentro de um pedaço de rede, sem liberdade, apenas porque canta lindamente,

(e se um dia, um louco, fizer o mesmo comigo, isto é, construírem à minha volta uma rede invisível, onde me aprisionam, apenas porque escrevo, apenas porque gosto de ler, apenas... porque sou eu)

Andávamos de terra em terra, andávamos de luar em luar, éramos dois mutantes fugitivos aos arautos das marés de inverno, sonhávamos, desesperávamos-nos quando encalhávamos sobre as fragas frágeis das aldeias em flor, sem flores, sem janelas, depois, depois voaram-nos as palavras e os bancos de jardim com meninas de livro na mão, sentadas, cruzavam a perna, e de saia meio de chita, meio de qualquer coisa, esqueciam-se que eu era um pássaro esquecido dentro de uma gaiola numa aldeia do Concelho de S. Pedro do Sul,

(- Tens saudades minhas, meu querido amigo? - e só sei que era Sábado, e que depois de escrever qualquer coisa, deixava o portátil ligado, música em sons melódicos para os fantasmas da livraria, e antes do meio-dia, todos os Sábados, dirijo-me à barbearia do senhor António, desfazem-me a barba e venho descontraidamente almoçar, com o meu querido AL Berto sempre à minha espera, sobre uma secretária de madeira)

Uma das meninas levantou-se do banco onde estava ancorada, colocou o livro debaixo do braço, o olhar dela cruzou o meu, e hoje, hoje acompanha-me todos os dias e todas as noites dentro da roulote da alegria.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:30

02
Fev 13

Parecíamos pássaros vestidos com casacos de aço inoxidável e voávamos e voávamos, e voávamos como se lá fora existisse um fio de silêncio que nos sufocava e víamos às vezes o colar de pérolas da bruxa má, a mulher velha que vivia na cabana de pedra com acesso ao destino, perguntávamos-lhe se um dia alguém nos ia apanhar e cozinhar em chapas de alumínio com molho de rosas em pétalas vermelhas, respondia-nos sempre a resmungar que

Parvalhões de pássaros que nunca aprendem que o destino não existe,

E eu, e eles, elas, acreditávamos que sim, que o destino não existia e era invenção de um velho a que toda a gente chamava de Armindo e diziam as más línguas que era ele o responsável pelo andamento do tempo, pois fazia-se passear durante a noite com uma enorme manivela que servia para dar corda às pesadíssimas roldanas de papel, os segundos transformavam-se em minutos, e os minutos corriam de mão dada com as horas, depois, muito depois as horas vestiam-se de dias, de semanas, meses, e anos, à espera

Parvalhões de pássaros que nunca aprendem que o destino não existe,

Que o amor acordasse numa janela de vidro sem cortinados, apenas a preto e branco a imagem dela, a manhã móvel e soalheira do ainda não acordado Sábado, tínhamos poesia e fatias de pão com manteiga derretida nas palavras de ninguém, que o amor acordasse, se transformasse em homem, se transformasse em mulher, se

À espera que dos parvalhões pássaros nasçam parafusos de areia e beijos de cetim, e beijos de chita, e beijos com beijos em beijos quando desce a noite e entra no púbis das mãos de linho, a minha mãe passava tarde intermináveis a construir colchas de renda, e eu, quando a apanhava distraída, roubava-lhe os novelos de linha para os meus papagaios de papel, e voávamos e voávamos, e voávamos como se lá fora existisse um fio de silêncio, um fio de silêncio com hálito a renda floreada, lindas, belas, elas

As colchas de renda, voavam também elas como se fossem papagaios à procura dos lábios da paixão, vivíamos prisioneiros a uma cratera de tesão que o meteorito tinha deixado nos nossos corpos flácidos, como as toalhas de linho da avó Silvina, e elas

Se

À espera dos parvalhões pássaros,

Pássaros vestidos com casacos de aço inoxidável e voávamos e voávamos, e voávamos como se lá fora existissem madrugadas sem portas, como se lá fora existissem alvoradas sem telhados, como se lá fora existissem dois pequenos corpos nas mãos do velho Armindo, ele hesitava

Ou pego neles ou pego na manivela e dou andamento ao tempo, curiosamente nós também não sabíamos, e ela dizia-me que tudo era culpa de Einstein, e eu

Enquanto fumava cigarros com sabor a chocolate não percebia o que tinha Einstein a ver com o que se tinha passado connosco, mas fingia acreditar, como finjo acreditar em tudo aquilo que me dizem, que me disseste, e dizes

Mentiras de porcelana com dentes de marfim, não importa, um dia voltarás como voltam os pássaros, todos os anos, vestidos com casacos de aço inoxidável, voltarás um dia, a não ser que

O velho Armindo deixe de dar à manivela e o tempo cesse em nós como cessaram todos os desejos de todas as palavras, como cessaram todas as árvores e todos os rios, e lá fora, ao longe, uma fragata de pano voa como voávamos antes de chegarem as amendoeiras em flor, ao longe, muito longe, como cessaram as lâminas de pele húmida com gotinhas de suor, se os

Parvalhões dos pássaros aprendessem que o destino não existe,

Tínhamos os casacos mais pesados da cidade, e ninguém ao regressarmos do dia para vermos, aos poucos, erguer-se a noite entre os mastros de madeira com as velas de pano amarrotado, sujo, levemente cintilante como as lâmpadas das escadas que nos levavam até ao telhado, sentávamos-nos sobre as telhas invisíveis e falávamos com a lua de prata que sombreava as minguas mãos dos vagabundos esquecidos sobre as lareiras de vidro, tínhamos os casacos mais pesados da cidade, e ninguém

“Pesadíssimas roldanas de papel, os segundos transformavam-se em minutos, e os minutos corriam de mão dada com as horas, depois, muito depois as horas vestiam-se de dias, de semanas, meses, e anos, à espera

Parvalhões de pássaros que nunca aprendem que o destino não existe,”

Ninguém queria saber de nós; de mim, de ti, deles, delas, dos pássaros e dos casacos de aço inoxidável.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:21

29
Jan 13

Dos ombros da prima Glória saltitavam os findos espaços que um suicidário amador deixou cair sobre os canteiros de rosas vermelhas, “cuidado – pintadas de fresco”, um silêncio transformado em palavras anunciava a morte do perfume melancólico que as devidas mãos de fábula exportam para os infindáveis Rossios das cidades suspensas na mesa número sete da esplanada com sombra para os defuntos organismos que a pura vaidade incendeia, plantas

Que o velho Horácio semeia,

Colhe,

O ressacado comboio dos sonhos amorfos, das palmas as palmas para o artista conceituado em turnê pelas janelas da rua do Alecrim, algures, neste país, algures num outro continente, há-de sempre existir uma rua como o nome de

Alecrim

Ou

Francisco qualquer coisa,

Tanto faz, dizias-me quando regressava a casa com a carteira esvaziada pelos vómitos e diarreias diárias, sentíamos o silêncio frio nas tardes de verão, e víamos, deambulando pela rua, homens, mulheres, crianças, todos, todas, elas e eles e eles e elas

Ou

A transpiração nocturna caminhando sobre um pavimento de alumínio entre duas bolhas castanhas, as flores dormiam, e tínhamos na algibeira meia dúzia de notas de vinte escudos enroladas como se fossem um tubo de queda, como os que se utilizam para escoar as águas pluviais quando torrencialmente chove, ou

Sentíamos os fluídos das madrugadas em flor entranharem-se nos orifícios vazios que um suicidário amador deixou cair sobre os canteiros de rosas vermelhas, “cuidado – pintadas de fresco”, um silêncio transformado em palavras anunciava a morte do perfume melancólico que as devidas mãos de fábula exportam para os infindáveis Rossios das cidades suspensas na mesa número sete da esplanada com sombra para os defuntos organismos que a pura vaidade incendeia, plantas, ou esperávamos pelo nascimento de um Francisco qualquer coisa

Ou, ontem, depois de encerrarmos definitivamente as mãos entrelaçadas nas sereias de amêndoa e darmos-nos conta que existiam rosas por pintar, mesmo lá no centro do canteiro 2B, no meio circunflexo, os sexos murchos das aldeias despidas pela solidão das noite em construção, a vaidade, quando vinha, não era para todos, e alguns deles, delas, deles e delas

Dormiam duplicadamente como os poemas incompreendidos que a avó Hortênsia escrevia antes de dormir, quando dormia, porque ela passava os dias e as noites e as horas e os minutos e os derradeiros segundos

Acordada,

E eu sabia que a velha era rija, como as pedras de Trás-os-Montes, e os pinheiros, e os pássaros e os homens, e as moças pintadas de vermelho, como as rosas de papel

“Cuidado – Pintadas de fresco”, e eu ouvia-as camuflarem-se no capim de ninguém, sabíamos, que os tubos de areia depois de mortos tinham dentro de si um líquido espesso, peganhoso como o mel, mas de cor diferente, pingavam pedacinhos de lágrimas de vidro, e continuávamos embrulhados nos suores frios das tardes de verão, e continuávamos embrulhados nas tórridas diarreias de insónia que as noites traziam de longe, estranhamente, sabíamos que os hotéis mórbidos das cidades com Rossios à deriva como um barco espetado num buraco negro algures no espaço longínquo, os quartos com casa de banho privativa arrumavam-se no quarto andar, e sobre nós, dormiam as clarabóias das estrelas sem futuro, e eu

Percebia,

E eu

Percebo,

Compreendo,

Não tenho dúvidas,

Ou

(E eu sabia que a velha era rija, como as pedras de Trás-os-Montes, e os pinheiros, e os pássaros e os homens, e as moças pintadas de vermelho, como as rosas de papel), que às vezes tinha sonhos que um velho de cabelo comprido e barba branca me roubava, e ficava sozinho, sem ninguém, à deriva sobre as alcatifas do oceano, aos poucos afundava-me, aos poucos deixava de ter força para remar contra as marés de inferno que o velho de cabelo comprido e barba branca não quis levar de mim,

Tínhamos

Ou

Já não sei como eram as nossas noites à lareira, já esqueci

E tão pouco me recordo das janelas de vidros riscados, as lentes dos óculos dormiam à cabeceira da avó Hortênsia, e confesso que tinha pena da velha, mas que podia eu fazer, nada, quase nada, e só depois do mel com sabor a qualquer coisas estranha, nós pensávamos que um Francisco vinha

E nunca regressou, e todos os tubos de areia morreram, e todas as bolhas castanhas morreram, e todas as notas de vinte escudos

Esqueci-me

E todas as notas de vinte escudos ainda hoje brincam na gaveta da mesa-de-cabeceira da avó Hortênsia, coitada, tão velha, mouca, e transporta um esqueleto virtual como peças sobresselentes compradas por um dos netos da última viagem à China, e tirando isso

Já não sei como eram as nossas noites à lareira, já esqueci os aviões e os barcos de papel, já não sei como eram as nossas noites à lareira, já esqueci os aviões e os barcos de papel e os papagaios de muitas cores que um cordel prendia ao portão de entrada de um quintal hoje fantasma,

Ouviam-se e deixamos de ouvir,

Esqueci-me

Como era o amor.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:37

27
Jan 13

De esqueletos mórbidos estou eu farto, dizia-se doutorado pelos bares nocturnos da cidade plantada na copa de uma árvore a que todos chamávamos

Inocência dos sonhos,

Pouco tempo depois, via-o passear-se junto às acácias salgados do primo Augusto, as imagens floriam nas paredes viscosas das noites sem estrelas, e de madrugada, quando todos os buracos encerravam, fazia-se arrastar pelos braços de duas sombras com asas, e lilases olhos, e

Inocência dos sonhos, talvez um dia, dizia ele, regressamos ao eterno jazigo de prata onde moram os nossos pais, e eu acreditava

Que os meus irmãos eram loucos,

E

Inocência dos sonhos, a cidade plantada na copa de uma árvore, debaixo dela brincam crianças de cabelo castanho, meninos, meninas, homens, mulheres, silêncios de oiro, rios cansados de regressarem ao mar das oliveiras, entre a montanha dos pilares de areia e a táctil mão de desejo que ela, a minha única irmã, transportava para as cavernas do ciúme, havia a noite, triste, e tínhamos acabado de perder todas as estrelas do céu, penhoradas as nuvens, pergunto-me

Que faço eu aqui? Não sei, mas tenho a certeza que os meus irmãos são loucos, e que as acácias salgadas do meu primo Augusto são processos revolucionários em curso, doutorados pelos bares e caves da cidade, ouviam-se gemidos de luz quando atravessava de eléctrico cidade, a mesma cidade a que todos chamávamos

Cidade da inocência dos sonhos,

Alguns azuis, outros, outros encarnados, confesso, gosto do vermelho, mas prefiro o negro, a noite é negra, os buracos negros, evidentemente, são negros, gosto, adoro, amo, as palavras pretas e pretos que voam dentro dos meus poemas, amo as cidades negras vestidas de branco e inventadas pelas mãos de uma criança negra, preta, húmida

A cidade

Toda nua,

E

Às vezes,

E às vezes ouviam-se orgasmos de mel nas colmeias dos sótãos perdidos dos edifícios perdidamente apaixonados pelos carros em miniatura que o menino António trazia nos bolsos do bibe, chegava à escola, e de bata branca, senta-se numa carteira carunchosa, velha, a mesma onde se tinha sentado o pai, o avô, e o tio Francisco, que diziam ser louco e que depois de ter vivido dez anos na Coreia do Norte, nunca

A cidade

Toda nua,

Às vezes, e dizem que nunca mais apareceu, evaporou-se, como as lâminas de barbear que o aldrabão do meu vizinho me vende, riscadas, velhas, com as janelas extintas em fios de aço, ouviam-se todas nuas

As árvores onde vivia a cidade da inocência dos sonhos, quinto andar – esquerdo, ao terminar o dia, esperava-a à porta da galeria falida onde ela teimava trabalhar, sabendo que as paredes

Nuas, todas nuas

Como os pássaros que viviam no meu pobre sótão, coitado, com um cadastro infernal de doenças, diabetes, colesterol, próstata e nunca esquecer o reumático, e ainda eu não tinha chegado ao primeiro andar já ele em queixumes e aos gritos que às vezes eu não sabia se ele estava mesmo doente, se ele se fingia de doente ou pior, se ele estava grávido e a dar à luz

Eu suava, subia dois a dois, os degraus envelhecidos da madeira ranhosa que o velho Fernando deixou quando partiu para a aventura dos montes de areia, sabia-o e sabia-a, ouvíamos docemente o choro de um recém-nascido, e eu, acreditava

Sim, vou ser pai

E ouviam-se do quinto andar – esquerdo, ao terminar o dia, esperava-a à porta da galeria falida onde ela teimava trabalhar, sabendo que as paredes

Nuas, todas nuas

São gémeos,

E juro que ainda hoje não acredito que de um sótão envelhecido, doente, perdido numa cidade que vive sobre a copa das árvores

Tenham saído os meus queridos irmãos,

Loucos,

Pareciam-se como os outros sótãos da cidade, o mesmo rosto, o mesmo tamanho, a mesma cor, e loucos

E que nunca mais apareceu o tio Francisco.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:00

11
Jan 13

Percebia-se pelas pálpebras dele, azuis com sabor a pedacinhos de inocência, que a chuva trazia na algibeira a digestão fictícia dos carrinhos de choque que da infância deixaram estacionados junto ao berço de madeira prensada, calculava pelo peso da noite que não eram mais do que três magras horas da madrugada, chorava, não dormia, e sentia-se que dentro dele viviam parafusos de aço com defeito de fabrico, a garantia tinha cessado, as torres tinham acabado de cair entre os imensos plátanos virgens e os outros, quaisquer, barcos envelhecidos, doidos varridos, deitados sobre as tábuas da ignorância, dele, e eras uma criança. doida às vezes, dócil também, poucas, nenhumas, quaisquer

Vivia-se no fio metálico da navalha e ele tinha medo dos cobertores com remendos de chapa que a mãe, mecânica, tinha feito para que pudessem dormir e nada deles saísse durante a noite, atravessasse os buracos do velho tecido, e pelos partidos vidros das janelas fossem aterrar no paralelepípedo da rua com costas de geada, os braços murchavam, e derretiam-se como a manteiga sólida que o inverno pintava como se fossem pedaços de pedra, e quando lhe perguntavam

Gostas de cá andar, e ele com rosto de incenso respondia quase sempre Às vezes, depende, e nunca percebi o que queria ele dizer com Às vezes, depende

Acordava o dia, retiravam-lhe a fralda de pano encharcada numa espessa massa amarelada intensamente com um cheiro horrível, indesejado, que aos poucos ia ocupando cada milímetro quadrado da casa de Lisboa, um enfadado rés-do-chão meio podre, meio enraizado no Outono pássaros de luz que vinham do outro lado do rio, entravam em casa, sentavam-se na mesa da cozinha, e da janela

(Tanta coisa para dizer que cheirava a “merda”)

E da janela sentiam-se os motores com cavalos cinzentos em lábios de fumo, ouvia-se o rosnar da fera amansada criança deitada no sofá à espera que lhe trocassem a fralda de pano por outra fralda de pano, limpa, lavada, e o motor aos tropeções avançava mar adentro até desaparecer nas velhas cristas das ondas de espuma que os cigarros embebidos em cerveja emagreciam como tremoços numa esplanada de Belém, sexta-feira, e nada de novo, foi-se e não regressou mais

Às tuas, Às minhas, Às nossas,

E não regressou mais,

Chegava ao balcão e pedia incessante e audaz ao empregado “Destroque-me” esta nota para tirar cigarros, e ela

Não se diz “Destroque-me”, tá ver Francisco, isso não existe, correctamente é Troque-me esta nota para tirar cigarros, e eu acreditava mesmo que os ossos de pano que às vezes me embrulhavam tinham saído de validade há tempo suficiente, só podia, não encontrava outra explicação para o tão grande aglomerado de homens e mulheres à porta de minha casa, gritando

(Tanta coisa para dizer que cheirava a “merda”)

Às tuas, Às minhas, Às nossas,

E não regressou mais,

Um enfadado rés-do-chão meio podre, meio enraizado no Outono pássaros de luz que vinham do outro lado do rio, entravam em casa, sentavam-se na mesa da cozinha, e da janela, da janela vinha-nos o medo das coisas como as simples flores encarnadas com lacinhos de cetim que eu nunca soube como se chamavam e tu, quando eu chegava a casa, simplesmente deitavas no caixote do lixo e dizias em voz alta para que eu ouvisse e não esquecesse nunca

Não quero mais esta porcaria, odeio flores encarnadas com lacinhos de cetim,

E eu,

E ela,

Olhavam-me depois de trocarem-me a fralda de pano, abria a boca e sorria, sorria quando sabia que da janela vinham as imagens tricolores com pequenos fios de prata, sorria porque tinha acabado de beber o saborosíssimo e inconfundível leite materno, sorria porque

Vivia-se no fio metálico da navalha e ele tinha medo dos cobertores com remendos de chapa que a mãe, mecânica, tinha feito para que pudessem dormir e nada deles saísse durante a noite, atravessasse os buracos do velho tecido, e pelos partidos vidros das janelas fossem aterrar no paralelepípedo da rua com costas de geada, os braços murchavam, e derretiam-se como a manteiga sólida que o inverno pintava como se fossem pedaços de pedra,

Às tuas, Às minhas, Às nossas,

E não regressou mais,

(Tanta coisa para dizer que cheirava a “merda”)

E da janela sentiam-se os motores com cavalos cinzentos em lábios de fumo.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:09

27
Dez 12

O cabelo minguava a cada fotografia a preto e branco no espelho do guarda-fato, os tios uns forretas de doutoramento abstracto e risíveis amargas glândulas das palavras ensonadas pela espuma do mar e de punhos cerrados, e as tias, beatas convictas nas calçadas embriagadas dos milagres impossíveis da ilha dos desejos, pensa

 

E não me adiantava pensar, porque com eles não ia longe e com elas, coitado de mim, queixa-se ele quando nos contava as anedóticas peripécias de uma infância desenhada a esquadro e régua, e às vezes, e às vezes,

 

Pensa, pensa nas coisas boas que a pobreza proporciona aos homens e às mulheres, e às crianças, e a deus, porque digamos que

 

Deus também será pobre?

 

Não sei, não sei, e às vezes

 

E eu pensava, nas clarabóias da crosta em bosta que os animais derramavam no alpendre com ventilação mecânica, iluminação natural, em néon com chapinhas de zinco suspensas nos cromados que diariamente a Marília acariciava, e nova vida, e uma placa de madeira prensada à porta de entrada

 

Vendem-se cromados acabadinhos de fritar, doida, ela subia à copa das árvores, e sem perceber que a gravidade, às vezes muito grave, gravíssimo

 

E no entanto fazia-o por prazer, não por loucura, segredava-me ela Eu não estou louca! Claro que não Marília, Claro que não, loucos

 

Deus também será pobre?

 

Não sei, não sei, e às vezes

 

Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim

 

Loucos e Loucas,

 

E eu?

 

Claro que não, Claro que não,

 

Piratas, tentáculos que desciam do alpendre, a fome vestida de tarde de verão, deitava-me junto à seara de trigo, pegava numa palhinha e metia-a na boca, imitava cigarros, e sonhava com aviões com olhos azuis, e sonhava com aviões com cabelos de alecrim, jasmim, cravos de sofrer que as rodas dentadas atropelavam pelos corredores da enfermaria

 

Não estou louca

 

Claro que não, Claro que não

 

Marília abre a mão está na hora das drageias, não sei, não sei, e às vezes

 

Não resistia ao chamamento dos pássaros quando poisados no peitoril guerreavam entre eles por minha causa, e percebia, e eu sabia que cada um deles

 

Eu

 

Eu levo-a a passear,

 

Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim

 

Loucos e Loucas,

 

E eu?

 

Claro que não, Claro que não,

 

E eles,

 

Loucos e Loucas,

 

Pegavam em mim, aos poucos começavam em batimentos fictícios de asas, e eu sentia

 

Sim diz, O que sentias Marília?

 

Sentia-me levitar, devagarinho, de milímetro em milímetro, e quando acordava estava sentada no telhado, cruzava as pernas e esperava

 

Sim diz, O que esperavas Marília?

 

Que alguém me resgatasse das garras loucas dos pássaros do jardim, e perguntava-me

 

Deus também será pobre?

 

Claro que não, Claro que não.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:45

04
Set 12

Do amor das palavras os rios de insónia

nas viagens sobre a aldeia de xisto

com janelas de amêndoa e telhados de chocolate

 

os cigarros imaginários que caminham no corredor da morte

sinto-os

sinto-os encostados às portas do sofrimento

quando o mar da paixão morre entre os degraus e não consegue poisar no sótão

sinto-os em sussurros

nos gemidos da noite obscura

 

o corpo nu da mulher embrulha-se nas paredes de gesso

construídas com migalhas de livros

e velhas sílabas pertencentes a poemas mortos

os pássaros cheiram a tinta acrílica

e as abelhas fogem pelas frestas como olhos de vidro

que vivem nas paredes de gesso do sótão de areia

 

do amor

apenas silêncio

do amor

apenas noites acorrentadas a rios de insónia

 

as pedras e os livros e as mãos da mulher nua suspensa nas paredes de gesso

do amor

e todos os pássaros em direcção ao mar da felicidade

as pedras e os livros e os lábios da mulher nua

e o mar da paixão

apenas silêncio

 

e a minha vida

uma rua de uma cidade morta

uma rua nua e escura

sem saída

amarga no chão semeado de mangas

e o céu pintado de capim

 

(E espero pacientemente que a cidade de Luanda me engula

como engoliu o meu chapelhudo

e o meu triciclo

e todos os meus sonhos).

 

(Poema não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:38

02
Set 12

atravessávamos o espelho do amor

e com a tua mão entrelaçada na minha

viajávamos como crianças loucas

em direcção aos pontos de luz

 

brincávamos com os teus cabelos suspensos no topo das estrelas

e um silêncio lânguido crescia no coração de uma flor

vivíamos dentro de uma seara sem fronteiras

e éramos livres como os pássaros pintados no mural do esquecimento

 

os rios emagreciam

choravam

 

e longas filas de mel

adormeciam nas janelas da noite

os rios emagreciam

como emagrecem os meus sonhos

 

(e tenho a certeza que nunca irei abraçar-te).

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:04

16
Ago 12

Uma mulher de vidro poisou nas minhas palavras

sobre a secretária de madeira

invento-lhe história com fotografias a preto e branco

que trouxe de Angola

os barcos ainda vivem

e navegam entre paredes de limão

e o fumo dos cachimbos ensonados junto aos livros desassossegados

uma mulher

 

no meu álbum de fotografias

uma mulher que hoje é uma menina

e ontem

e ontem galopava no cavalo branco com sílabas de cetim

 

perdi-lhes o nome

olho-as e quase desconheço os lugares

e os cheiros

e todos os nomes do caderno preto

 

vejo o mar

e o mar parece um amontado de ruínas de cimento

vejo as árvores

e todas as árvores mortas nas janelas dos pássaros sem cabeça

perdidos no meu álbum de fotografias

vejo o mar

e todos os barcos são pedaços de madeira

dentro dos dias ensanguentados de insónia

e princípios de solidão

os calafrios da morte

a preto e branco

nas equações do amor...

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:48

13
Ago 12

O amor

é uma coisa defecada

numa esplanada

junto ao rio,

 

sem palavras

entre coisas loucas

e poucas loiças coisas apaixonadas

 

sem cabeça

as flores do amor defecado

 

as malditas flores

dos coisos

coisos amores loucos

poucos em ti

as noites sem paixão

 

O amor

é uma coisa defecada

numa esplanada

junto ao rio,

 

(um rio que nunca foi rio

numa cidade com prédios de plasticina

e amêndoas doces

um rio construído na amargura

sem barcos

nome

ou um simples número de polícia

um barco sem braços e sem pernas devorado pelos livros da aldeia em ruínas

sem cabeça

as flores do amor defecado

poucos em ti

as noites sem paixão)

 

só existe uma forma de ser feliz;

voar como os pássaros

e ser louco como os poetas

e ser livre

livre dentro da noite

como todos os travestis invisíveis da cidade.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:50

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