Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

07
Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

hoje vi o mar estampado no silêncio da alvorada tarde quando emagrecida pela solidão

dos alicerces nocturnos do medo

pensei em ti quando brincávamos nos charcos pardos dos musseques em flor

imaginei-te hoje com uma carapaça de filhos

imaginei-te hoje com uma cabeleira em açafrão e vestidos de alecrim

e tu olhavas-me percebendo que era eu não sendo eu

dizias-me baixinho

CRESCESTE...

cresci imaginado sorrisos nas janelas da escola com vista para o recreio

parti vidros desajeitadamente com uma bola de futebol

partiram-me a cabeça despropositadamente apenas com o pretexto de no futuro...

… amo-te

 

(e não amavas

e não gostavas das palavras com sabor a zinco das sanzalas de vidro...)

 

imaginei-te hoje voando sobre as mangueiras dos quintais do Madame Berman

vi o triciclo encolhido junto ao antigo pombal

vi as galinhas esperando o sonâmbulo milho

como migalhas de sexo perdidas na cinzenta voz da paixão

hoje vi o mar

e confesso que não gostei das imagens estampadas no silêncio da alvorada tarde quando emagrecida pela solidão dos alicerces nocturnos do medo

confesso que hoje tive medo quando recordei o teu rosto e o vi impregnado numa lâmina de xisto

voraz forçosamente como pirilampos nos buracos de uma parede de orgasmos voando sobre os pássaros

imaginei-te quebrando o gelo e as pequenas pinceladas de suor que iluminavam o teu corpo

e os sais de prata dos teus olhos em noites de viagem aos rochedos negros...

imaginei-te e percebi que sempre foste de sombra

 

(e não amavas

e não gostavas das palavras com sabor a zinco das sanzalas de vidro...)

 

CRESCESTE...

imaginando bocas de sémen nos lábios da madrugada

e cresci acreditando que o mar era uma ténue luz de linho bordada pela mão das cicatrizes manhãs de cacimbo

cresci imaginando os barcos cruzarem os corredores da inocência

sem apitos

marinheiros fecundos

homens vestidos de cozinheiros...

cozinheiros vestidos de homens com gabardines em chocolate

e chapéus de chuva com sabor a claridade cansada

imaginei-te crescendo no meu colo olhando as marés do encarnado beijo

e percebemos que as cordas de nylon eram filhas dos alicerces nocturnos do medo

 

(e não amavas

e não gostavas das palavras com sabor a zinco das sanzalas de vidro...)

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 7 de Novembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:02

22
Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Outono, os ossos tombados no pavimento, os braços alicerçados às árvores em movimento, havia cadeiras revestidas a couro, havia uma casa com uma sala de jantar, dentro dessa sala vivia uma mesa e seis cadeiras, e sobre a mesa uma paixão de crochet rendado ainda do tempo da avó Valentina, sentava-me no sofá, sobre os joelhos os dois velhíssimos álbuns fotográficos do pai Fernando, abria-o e

Mergulhavas nas imagens a preto-e-branco das paisagens Africanas, centenas de imagens rodopiando sobre a mesa da sala de jantar, ouvia-se o entrelaçar de dedos entre o capim e o cacimbo, ouviam-se os uivos dos mabecos rasgando sanzalas e musseques, ouvíamos as crateras dos rochedos nos alicerces da montanha, e tínhamos o feitiço da chuva miudinha, que lentamente, suavemente...

Alimentava o teu corpo de roseira, sentíamos

À noite,

Sentíamos as feridas dos sonhos desfeitos quando o mar nos entrava em casa, e tudo cá dentro

Fugia,

A casa ficou vazia, a sala de jantar viu-se rodeada de silvados e arbustos que muito mais tarde e junto ao Tejo, assistiram à despedida da Primavera, os sofás transformaram-se em pedaços de mola rolando como pedras depois das tempestades, e os álbuns fotográficos

Hoje solitáriamente sobre a mesa na sala de estar, poisados como cadáveres sem esqueleto, completamente sós, abandonadas as imagens... apenas o negro da noite que habita os teus pequenos seios cerâmicos que mostravas-me nas noites de incerteza e Inverno, a lareira acesa, apenas havia a luz dos pedaços de madeira em combustão, e o teu silêncio, nada mais

Os livros,

Sentia a tua respiração abraçada às imagens a preto-e-branco dos álbuns fotográficos do avô Fernando, tínhamos sede, tínhamos fome, e tínhamos vergonha

Os livros,

Diziam que eu era uma bandido escondido debaixo da sombra das bananeiras, e tínhamos mentiras que ainda hoje

Mentiras,

Os livros,

Sentíamos as lâmpadas em dias de ventania baterem nas faces rosadas dos calendários nocturnos das tuas mãos em melancolia, e os livros

Sentíamos as palavras entre os nossos corpos e sobre a mesa da sala de jantar

Arbustos em despedida,

Folhas de papel vegetal e malgas de marmelada,

E sobre a mesa da sala de jantar

Livros?

Folhas caducas, folhas velhas e folhas novas, malcriadas, folhas e folhas e folhas

Livros

Mandioca e papel de parede com flores encarnadas,

Víamos o Sol em pequenos quadrados, víamos a Lua em grandes triângulos, e livros e cinzeiros com o bafiento cheiro a morte, má sorte, a dor, e

Sofrimento,

Ouvíamos as lágrimas do Senhor Doutor quando descia a noite e um cortinado com círculos em pequenos milímetros caminhava direcção ao rio, a ponte via-nos abraçados como dois arbustos

A despedida,

O cheiro a a despedida,

O cansaço depois de uma triste mísera malga de marmelada, um pedaço de pão com pelo menos três dias de antecedência, e o requerimento indeferido

Os livros e as borboletas,

“Por falta de mendicidade o seu caso foi indeferido”

(filhos da puta)

Os livros e as borboletas, as bailarinas e os palhaços, o circo chegou à cidade, meninos, meninas, donzelas e belas

Os livros?

“Por falta de mendicidade o seu caso foi indeferido”

(filhos da puta)

Os livros hoje, imagens a preto-e-branco, sós, imagens estáticas, mortas, melódicas, saudades da saudade quando o medo habitava a nossa sala de jantar...

 

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – (Alijó?)

Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:08

24
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Sem muros, a seara livremente em movimento, a seara alegremente voando como os teus doces dedos quando se entranham no meu branco cabelo, e algumas das minhas folhas, ainda por escrever... vão-se alicerçando nos braços da madrugada, venho de ti chorando porque percebi que as cadeiras da vida, algumas, não muitas, estão a morrer, primeiro o maldito bicho, depois... depois... a maldita morte, e depois, bom, depois a tua aspereza dos violinos em flor, havia sons que mal distinguíamos nos soníferas luzes da noite, e o castanho corpo teu... amaldiçoado pelo cansaço

Tomba,

O musseque engorda,

A sanzala incha como pequenos frascos em vidro quando miúdo colocávamos grilos e outros bichos, nãos os que matam as cadeiras da vida, estes, estes apenas nos roubam os sonhos, roubavam, porque hoje, nem bichos, nem sonhos, nem... nem o teu corpo castanho,

Tomba,

Entre os charcos acabados de preencher como o impresso de candidatura com o respectivo currículo, depois de entregue

Lixo,

Depois de entregue

Nem para limpar o cu serve,

“Brancooo é papel e só serve para limpar o cu”, gritavam elas,

E a sanzala inchava, crescia, multiplicava-se,

Lixo,

Sem muros, como vértices de areia engolidos por sexos baratos, regressava da feira da Ladra apenas com as cuecas e pouco mais, a vida de difícil passou a horrível,

E a diferença

Está no número, de autocarro é um, de eléctrico... talvez seja outro, mas todos vão dar ao mesmo, e todos me levavam de regresso, entrava em casa, subia as escadas tão devagar que nem as ratazanas davam pela minha presença, mas ela

Isto são horas de chegares?

E eu perguntava-me se existem horas certas para regressar a casa, mesmo apenas em cuecas, se existem horas certas para as refeições...

Horas, tem horas?

Não, não as tenho, sou alérgico,

Mas ela entre perguntas e respostas, entre o vai e o vou, fui e nunca mais voltei à sanzala, cansei-me das viagens nocturnas pelas avenidas transatlânticas com bancos em madeira e pássaros de pedaços papel, fartei-me da cubata apenas só com uma porta de entrada, e juro

Detesto,

Juro que me irrita entrar e sair sempre pelo mesmo sítio, parece de loucos, e de loucos, juro, preferia entrar pela porta e sair pela janela, mas a cabra da cubata nem janelas tem, nem cortinados tem, nem tecto onde suspender um par de calças

Tem?

Não, não tem não,

E entro em casa de cuecas na mãos, ela

De onde vens tu'

Venho da lua, venho do mar, venho de onde não te interessa,

Adeus,

Era Domingo, acordei cedo, sem muros, a seara livremente em movimento, a seara alegremente voando como os teus doces dedos quando se entranham no meu branco cabelo, e algumas das minhas folhas, ainda por escrever... vão-se alicerçando nos braços da madrugada, venho de ti chorando porque percebi que as cadeiras da vida, algumas, não muitas, estão a morrer, primeiro o maldito bicho, depois... depois... a maldita morte, e depois, bom, depois a tua aspereza dos violinos em flor, havia sons que mal distinguíamos nos soníferas luzes da noite, e o castanho corpo teu... amaldiçoado pelo cansaço

Tomba,

E O musseque engorda...

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 24 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:09

17
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

As hormonas fervilham, cobre-se a lua com um fino manto de sémen, há delírios dentro dos calções brancos, tínhamos deixado na atmosfera um leve e intenso cheiro a sonho e a desilusão, ela diz que o dinheiro tudo compra, eu

Não o tenho,

Ela diz que eu

Tu nada podes comprar,

Vende-se, prostitui-se intelectualmente como se tratasse de um livro ainda por escrever, as hormonas

Fervilham,

Transparente como a chuva depois de se masturbar sobre os zinco telhados das sanzalas, a sombra desce da cidade, cobre os ombros da mulher emagrecida, triste, como o tecido depois de molhado, depois

Fervilham,

Diz ela,

Porque para mim, um simples aldeão esquecido no musseque da escuridão, não fervilham hormonas, nunca existiram os calções brancos, nunca... como o sabor da manga depois de dissipado o Cacimbo das margens íngremes do rio, mabecos, girafas, zonzos, todos os bichos da selva, lá fora fumava-se erva e outras raízes, que só

Diz ela

Fervilham as hormonas,

Ai se não fervilham, que só em África existem, que só em África fervilham, e diz ela, que a cidade dorme, extingue-se no silêncio vestido de cansaço, acabam-se as realidades virtuais, e começam verdadeiramente os

(nem uma foto de calções brancos encontro, coloco a mulher onde quando em criança rabisquei todo o seu corpo, tinha... cerca de cinco anos, pobre, sem dinheiro, e ela, ela deixou-o fazer, por caridade, por nada)

Textos infestados por pequenos insectos, os calções, os calções brancos dançam no interior do ânus ao som de Pink Floyd, o escritor lê poemas de AL Berto e alguns textos de Luiz Pacheco, cobre-se a lua com um fino manto de sémen, há delírios dentro dos calções brancos, tínhamos deixado na atmosfera um leve e intenso cheiro a sonho e a desilusão, ela diz que o dinheiro tudo compra, eu

Não o tenho,

Ela diz que eu sou um sonhador perpétuo, difícil de construir, fui feito a partir do barro e dizem elas, lá do velho musseque, que,

Tu nada podes comprar,

Oiço-o dizer (“tão triste mário sobre o tejo um apito” - de AL Berto) e dos calções brancos, nada, nem barcos, âncoras, fins de tarde no Rossio, nada, nem o pobre cimento que segura as asas do vento, e tu

Diz ela

Nada podes comprar,

Não o tenho,

Ela diz que eu sou um sonhador perpétuo, difícil de construir, fui feito a partir do barro e dizem elas, lá do velho musseque, que, o barro é como o cristal, lindo e belo, só que... muito mais barato, ele diz-me que eu com cinco anos escrevi todo o corpo das películas em desejo que chegavam até mim, bebíamos, e comestíveis cinzentas neblinas junto ao porto camuflavam todos os barcos em regresso, e ficávamos

A ouvir o mar,

E ficávamos...

Simplesmente a ouvi-lo,

(“tão triste mário sobre o tejo um apito” - de AL Berto)

Fervilham as hormonas dentro dos finos calções brancos, (nem uma foto de calções brancos encontro, coloco a mulher onde quando em criança rabisquei todo o seu corpo, tinha... cerca de cinco anos, pobre, sem dinheiro, e ela, ela deixou-o fazer, por caridade, por nada), e uma nuvem de gelo entra porta adentro da miséria cubata invisível...

Uma placa sobre a porta de entrada,

“Há caracóis”, e vivíamos felizes como serpentes no interior do ânus abraçados à fina réstia em tecido dos calções brancos,

Definitivamente,

Hoje, Hoje há caracóis...

(“tão triste mário sobre o tejo um apito” - de AL Berto).

 

(não revisto – texto de ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 17 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:52

09
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Tinhas um gosto qualquer, inexplicável, sabias-me a nafta e dei-me conta que não existo, sou uma sombra que vive dentro de um espelho, sou um lugarejo sem vida e perdidamente encalhado na serra, vivo fingindo viver, habito os corpos sem palavras, tenho asas, e voo, e durmo, e choro, e tenho sempre na algibeira as lágrimas da noite, invento coisas, coisas invisíveis, como pessoas, como árvores, como... ritmos de ninguém, excepto, excepto quando acordam as gaivotas dos pedaços silêncio que guardam as amendoeiras em flor, há uma ponte que me transporta, há uma vagão escuro sem janelas, que em noites de solidão, me acolhe, me alimenta, há mentiras vestidas de verdade, mentiras em lábios de espuma, marés invertidas, corpos suicidas como as lâminas finas dos orgasmos nocturnos, tinhas um gosto qualquer, inexplicável, sabias-me a coisas amargas, distantes, coisas sem significado, coisas abstractas, fúteis como as tuas mãos, coisas

Ainda existem as palmeiras?

Coisas intransponíveis, coisas apenas, indisponíveis, indigesta, alimentos vagabundos que o vizinho de quarto esquerdo deixa todas as noite à entrada da porta, lá dentro, oiço-o em conversas fictícias, conversas... conversas parvas, que a ama

Amo-te querida,

Que ela é o diamante dele

És o meu diamante, minha querida,

(que treta)

Falhados, fúteis, lamechas, queixinhas,

(que treta)

Amo-te,

Coisas intransponíveis, coisas apenas, indisponíveis, indigesta, alimentos vagabundos que o vizinho de quarto esquerdo deixa todas as noite à entrada da porta, lá dentro, oiço-o em conversas fictícias, conversas... conversas parvas, que a ama, que dava a vida por ela, que...

Palhaço,

(Sair, beber um copo, esquecer que vives e habitas no Bairro Madame Berman)

Que se cada toque que recebo no Facebook correspondesse a um euro... porra, não fazia nada, nada, nem tão pouco escrevia, que se ela regressar, eu fujo, escondo-me na sanzala onde nasci, juro, escondo-me num charco depois das chuva que sobejou no musseque, subo para o telhado, sento-me sobre o zinco, e não desço, e não regresso, apenas se ela me prometer que não voltará nunca, jamais, eu, percebo que sou uma ponte alérgica aos automóveis, apenas sobre mim andam velhinhos e velhinhas e criancinhas, nada mais do que isso, nada mais do que ontem, porque hoje,

Palhaço, eu, eu sim!

(cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado, cansei-me, fartei-me, farto, farto, cansado, cansado)

Palhaço, eu, eu sim!

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:06

05
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Oiço-te na clandestina cidade, os edifícios arderam, e todos os habitantes são neste momentos sombras, pedaços de escuridão vagueando junto às ruas despidas, nuas, hirtas, como vulcões de areia nas ranhuras da paixão,

Oiço-te e finalmente vou, como um esqueleto transeunte formatado em compacto Linux, olho-me no espelho, provavelmente o único objecto que restou dentro da casa onde habita, por favor, olho-me enquanto te oiço, e cada vez mais percebo que começas a não existir, que és uma cidade morta, uma cidade sem peixes, sem pássaros, uma cidade apenas habitada com Rosas Bravias e mais nada,

Paixão,

O amor, tal como a cidade

Ardem,

A paixão, oiço-o dentro de mim a vestir-se de madrugada, descerra as persianas do desejo, abre a janela dos lírios encarnados, oiço-o, oiço-o voluntariamente a descer do quinto andar em queda livre, chega ao chão, apenas migalhas, cinzas e pequeníssimos papeis que sobejaram do suicídio dele, o louco marido, o apaixonado poeta que inventava cidades para viver, e vivia, dormia nelas, e depois

Ardem,

E depois

A paixão,

Depois, nada, ninguém, hoje, hoje apetece-me mandar foder a literatura e a poesia, e as musas inspiradoras, hoje, hoje apetece-me vandalizar todos os livros que eram meus e deixaram de o ser, hoje

E depois?

Ilumino-me, e oiço-o dentro de mim, ele, ele veste-se pela madrugada, sai de casa, desce a calçada e entra na primeira tasca que a madrugada inventa só para ele, senta-se numa cadeira simples, coloca os cotovelos sobre uma mesa simples, provavelmente da mesma família do que a pobre cadeira, sobre a mesa uma velha toalha em plástico, e bebe, e bebe até voar sobre a cinza da cidade ardida,

E depois?

A paixão, o amor, o falso amor, a velha paixão, a saudade de uma cidade ainda não nascida, as escadas para os sótãos sem janelas, os crucifixos mergulhados em oceanos de luz, e das lâmpadas, eles, eles vêm-me buscar, carregam o meu corpo como se fosse um pedaço de rocha, a neblina que se funde como o gelo no Inverno de brincar, trazia calções invisíveis com suspensórios, sandálias de couro já bastante diluídas nas chuvas torrenciais das tardes de ninguém, e ninguém

E depois

E depois,

A paixão?

(Depois, nada, ninguém, hoje, hoje apetece-me mandar foder a literatura e a poesia, e as musas inspiradoras, hoje, hoje apetece-me vandalizar todos os livros que eram meus e deixaram de o ser, hoje

E depois?)

Sou feliz assim, deixem-me, deixem-me... e... depois? A paixão, os barcos a romperem quilhas sobre os telhados de Belém, ao longe uma sanzala arde, o zinco funde-se e mistura-se com o capim envelhecido, eu, eu brinco como um pequeno arco (aro da roda de uma bicicleta), e oiço-o, oiço-o dentro de mim, ele sofre, ele chora, ele amava, ama, apaixona-se e morre, como as estátuas, morre sobre os cortinados da cidade ardida, pessoas, corpos amontoados sobre as cabeças de xisto, a noite leva-a, e eu, eu feliz,

Hoje?

Hoje, hoje não acredito, acreditava, acreditava nas lâmpadas de néon que as cidades vomitavam nocturnamente dentro dos lençóis de esperma, havia sempre um livro entre nós, havia sempre uma personagem a espiar-nos, e cansei-me, e fartei-me,

Feliz,

Hoje?

Fartei-me, cansei-me, e perdi-me em todas as cidade onde vivi.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:24

16
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Se dançávamos? Tínhamos acabado de regressar da longínqua sanzala de vidro com cubatas revestidas em saudade e pedacinhos de medo, aquém e além, uma voz fria gritava-nos, e arremessava-nos pedras invisíveis, e eu criança, envergonhado porque não entendia os orgasmos em sombras de café que os adultos deixavam esquecidos nos bancos do jardim, uma penumbra manhã perdi o esqueleto de mim, e de dentro do guarda-fato, divertia-me a pincelar tons mastigáveis na solidão de uma casa pequeníssima, com cinco janelas, e uma chaminé, e durante a noite ouvíamos as lágrimas sorrido parede abaixo... até se derramarem no soalho embrulhado em humidade e caruncho, que em alturas de desassossego, ouvem-se, ouvem-se em pequenas festas como fazíamos quando vivíamos na cidade dos desejos e dos sonhos e dos pequenos mares que entravam em nós, e nunca, nunca mais nos abandonavam,

Voltar?

Se dançávamos, não percebo agora o significado da desordem...

Voltar, em vez de descer, subir, sentar-me sobre o telhado, e ouvir a conversa dos pássaros nas tertúlias tardes dentro das mangueiras, debaixo delas, duas crianças experimentavam a força utilizando um cordel fino, tão fino como o cabelo castanho do velho Domingos, Voltar? Não percebo a desordem dos meus braços, não percebo a rouquidão da minha voz, e... principalmente, tu existes dentro de uma lata de conserva, vestida com um lindo vestido em papel verniz, colorido, e quando chove, ouvem-se-te em pequenas chamas de luz os batimentos de um coração apaixonado, Voltar... nunca, jamais, para quê e porquê?

Se dançávamos? Às vezes...

Voltar e não encontrar as ruas onde as tínhamos deixado, durante a noite, homens, mulheres e algumas crianças, utilizando a única força disponível, mudaram de local todas as ruas da cidade, o mar, hoje, já não está lá, lá, hoje, está um campo de milho que perdemos no horizonte enquanto observamos, e onde havia, antigamente, campos de milho, está lá, hoje, o mar, só, sem ninguém a chapinhar na água salgada e na areia branca, e ninguém nos avisou, e dizem-nos que até a nossa casa mudou de sítio, deslocou-se avenida abaixo, e foi literalmente engolida pela fome, e pelo ódio...

Porquê regressar! Se dançávamos? Olho-me no espelho e vejo o rosto, o meu rosto de menina, de mulher apaixonada, desiludida com as manhãs quando desapareces de mim e ficas só entre papeis velhos e outras fotografias, tão velhas, tão... imagens sem significado, oiço-me de encontro ao espelho, reflecti-me

Evaporaste-te através dos orifícios que sobejavam na cubata, espetávamos pregos sobre um velha carica, servia para isolarmos o mesmo orifício da humidade e dos espíritos malignos dos retratos semeados sobre a mesa-de-cabeceira, raramente conseguias segurar-te e acabavas por tombar sobre o passeio em cimento, dos joelhos, pequenos riscos, cromados gelatinosos aos morangos de um dos canteiros ainda não destruído pelo canino REX,

E porquê se me reflecti num espelho com coração de xisto, dele conseguia-se ver o rio e os socalcos encurvados por carris que nos transportaram até hoje, aqui, à sombra de uma velha cubata, esquecidos na sanzala trémula, vagueando como imagens no lençol nocturno onde brincávamos antes de nos deitarmos, era noite, e o teu rosto imagina-se liberto das minhas mãos, e o teu rosto... também ele, como as ruas e as casas, mudaram-nos de sitio, e hoje habita numa outra cubata, numa outra sanzala... num outro País de sonhos desencantados, falsos sonhos, de um falso espelho; tu

Se dançávamos?

Todas as noites, tu é que não te recordas de mim, da música, e das árvores e dos candeeiros suspensos no tecto do céu...

Claro, claro que dançávamos...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:25

01
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Abandonaste-me e enviaste todas as tempestades que assombraram o meu velho cubículo de areia, a cubata tinha uma pequena janela com imagens de paisagens despidas, nuas, e travestidas, da sanzala chegavam até mim os uivos dos pássaros magoados pelas lâminas do final da tarde, havia pequenos charcos nas imaginárias covas do pavimento térreo, terminara a chuva, começava a noite, e o velho homem de vestes emprestadas pelo também velho compadre tinha acabado de roubar todas as estrelas do céu, olhava-o, e entranhava-se-me a escuridão fria e penumbra da noite em pequenas construções, abandonaste-me e tinhas-me pintado de negro,

Olhava-me no espelho do guarda-fato, e de mim sobejava uma imagem em papel com palavras inaudíveis, inacessíveis, palavras inventadas pela teoria do caos, abelhas, moscardos, ventoinhas com motores a diesel, e claro, sempre da janela da cubata, as imagens como feras de cera correndo sobre a procissão à volta do musseque, tinha-lhes medo, pintado de negro, fugi, escondi-me, transformei-me em Cinderela amachucada, primo meu, nuvem tua, rio dele, e porque desejavam as feias pétalas de incenso navegar na maré adocicada dos rebuçados de açúcar que o avô trazia na algibeira e distribuía no final do dia?

Nunca, nunca o entendi, como hoje não entendo a tua ofegante mistela de cores dentro do teu peito..., imagino-te uma tela branca com desenhos inanimados, cadáveres de porcelana em pequenos pedaços milimétricos, e de peso insignificante, desprezível, imagino-te como um balão voando sobre as janelas dos plátanos em frente à rua da escola, imagino-te, não imagino, percebo, deixei de entender as tempestades dentro do meu cubículo de areia, sinto as lágrimas invadirem a minha triste cubata, oiço lá bem longe, da vizinha sanzala os uivos dos mabecos embriagados pelas tuas garras de perfume fingido pela claridade dos cristais das sarzedas imagens das janelas de prata, havíamos imaginado zumbis sobre o zinco, e o último machimbombo com destino à cidade acabara de partir..., nunca, nunca o entendi, como hoje

Acabaram-se as tertúlias e as noites de vadiagem, acabaram-se as viagens ao interior das caves transeuntes por meninas de plumas e asas em cartolina, acabara-se-me a vontade de me sentar num banco de jardim, e esperar, que regresses, viva, morta, semi-nua, nua, em revolta, esperar, sentado, a contar as pedras que uma criança a brincar no parque atira contra uma pequena árvore, vou em duzentas e tu, ainda não presente, desisto, levanto-me, imagino-me caminhando oceano adentro, costa acima, saltito por dentro da ondulação com barbatanas de espuma cinzenta, acabara-se-me os sonhos, mar adentro, vou longe, caminho, caminho, levanto-me do banco de ripas acabadas de pintar

“Cuidado – Pintado de Fresco”

E... como hoje, acabadas de pintar, mergulhadas na água transparente que durante a noite desce sobre a sanzala, entra-me pela pequena janela da cubata, saio de dentro dela, como um recém-nascido, choro, grito, sorrio... invento-te regressando dos montes com pinheiros e bandeiras de pano cetim como quando íamos à Feira da Ladra comprávamos pequenos objectos sem significado, e imagino-me nas mãos da parteira, não me calava, berrava, chorava, fazia com que o zinco da cubata se erguesse e voasse sobre o vizinho musseque, como gaivotas, anos depois, em círculos À volta dos cacilheiros e de uma ponte em ferro, sentava-me, não no banco com ripas de madeira, sentava-me no chão, fumávamos cigarros e imaginávamos o vento bater na face rosada dos jardins de Belém,

E além, depois do grande momento quando as pequenas sanzalas se transformaram em jardins de púrpura, acreditei que nunca mais me “abandonavas e enviavas todas as tempestades que assombravam o meu velho cubículo de areia, a cubata tinha uma pequena janela com imagens de paisagens despidas, nuas, e travestidas, da sanzala chegavam até mim os uivos dos pássaros magoados pelas lâminas do final da tarde, havia pequenos charcos nas imaginárias covas do pavimento térreo, terminava a chuva, começava a noite, e o velho homem de vestes emprestadas pelo também velho compadre tinha acabado de roubar todas as estrelas do céu, olhava-o, e entranhava-se-me a escuridão fria e penumbra da noite em pequenas construções, abandonavas-me e tinhas-me pintado de negro”, acreditei que nunca mais pronunciavas o meu enfeitiçado nome...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:55

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