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Cachimbo de Água

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A aritmética do Amor

Francisco Luís Fontinha 4 Fev 13

Hoje, vive em mim o sono trémulo das searas de xisto onde brincam os corações invisíveis das terras longínquas que mergulham no cimento frio das mãos húmidas que as palavras incendeiam quando entram dentro da lareira, a voz rouca da solidão transforma-se num vulcão de sabão e dele saem pequeníssimas bolinhas mortas, algumas sobrevivem às almofadas do quarto escuro onde se esconde o libertino cortinado de amêndoa, outras, transparentes como as asas das borboletas castradas enroladas em fios de luz perdidos nas ruas desertas da cidade abandonada, sós e tristes, sós e cansadas, às vezes vêm até nós o esqueleto moribundo do velho Francisco dos lábios ensanguentados pelas pétalas das rosas mais belas do jardim do silêncio, ouviam-se os murmúrios das palavras que um miúdo escrevia nas paredes de vidro, e havia dentes de marfim nas clandestinas bocas das armadilhas enfeitadas com ventosas de aço, que

Hoje, vivem eternamente prisioneiros dos aviões de papel,

Que o segredo acordava todos os dias pela madrugada, vestia-se de negro, descia as escadas até à cave e abrindo uma porta de madeira prensada, começava o enfezado caminho através dos perpétuos corredores da morte, um labirinto de desenhos pintados com lápis de cor e acrílico sobre tela de linho, rodeavam o tecto fingindo o céu com as estrelas, as verdadeiras estrelas que a loucura semeou nas varandas dos edifícios perdidamente apaixonados pela cidade, muitos, muitos sucumbiam até derreterem-se, e via-os a despirem-se e apenas ficava o líquido pegajoso de chocolate fora de validade, passaram os anos, e todas as ligaduras que suspendiam as cabeças de areia à velha janela, acordaram e quando se olharam ao espelho da enfermaria, todas, gritaram

Agora somos pó,

Hoje, vivem eternamente prisioneiros dos aviões de papel,

Gritaram e não abri a porta, fingi que dormia profundamente, e quem do outro lado incessantemente procurava por mim, acabou por desistir, como todos aqueles que me procuram

Agora somos pó,

Desistem, morrem, fogem durante a noite enquanto os carris de aço dormem como flores de abelha nas esplanadas de mel, queria pintar-me de preto, vestir-me de preto, construir umas asas de mulher apaixonada com pele cremosa e suada, com cabelo curtíssimo, corte tipo rapazola, e voar até que a morte nos separasse, e voar

(Gritaram e não abri a porta, fingi que dormia profundamente, e quem do outro lado incessantemente procurava por mim, acabou por desistir, como todos aqueles que me procuram),

E eu não sabia que o amor pode viver numa esquina de um prédio em ruínas no centro da cidade, e eu não sabia que o amor pode viver dentro de uma árvore de tecido com olhos verdes, ou castanhos, ou mesmo azuis, porque eu sou um parvalhão e um grandessíssimo estúpido, e não sabia que o amor vive e está em todo o lado, e em cada esquina um poeta procura por palavras, porque

Eu não sabia

Agora somos pó,

Porque o amor é uma coisa esquisita, indefinida (para mim, claro, que sou um grandessíssimo estúpido e parvalhão), e eu não sabia que o amor pode ter asas, e voar, como os pássaros que vejo todas as noites poisados sobre a mesa-de-cabeceira, juntamente com o “Dentro do Segredo” de José Luís Peixoto, e confesso, confesso que não sabia que o amor era isto, coisas, papeis nas paredes da inocência, cabelos soltos no vento da manhã saborosamente que uma caneta de açúcar vai escrevendo no relógio de pulso do poema acabado de escrever, porque

Eu não sabia

Agora somos pó,

Porque eu não sabia,

Que todos, alguns, desistem, morrem, fogem durante a noite enquanto os carris de aço dormem como flores de abelha nas esplanadas de mel, queria pintar-me de preto, vestir-me de preto, construir umas asas de mulher apaixonada com pele cremosa e suada, com cabelo curtíssimo, corte tipo rapazola, e voar até que a morte nos separasse, e voar, voar, e voar até à morte do poema,

Porque eu não sabia que o amor é tão simples com a aritmética...

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

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