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Cachimbo de Água

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a cidade dos cães

Francisco Luís Fontinha 24 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

sentia-me perdido dentro da cidade dos cães

ouvíamos os sofridos mendigos de prata

tactearem as paredes dos abandonados barcos de papel

sentia-me esquecido no teu corpo de porcelana

envidraçado e comido como os ossos do esqueleto negro

depois de partir o luar

sentia-me nos latidos embebidos nas palavras que jaziam no cobertor da lareira

e sobre a mesa

a tua fotografia parecendo uma montanha

um penedo monstruoso vagueando sobre as pedras ao aço envergonhado

de que se fazem estátuas

e homens com corpo musculado

 

(e sussurras-me à ardósia tarde que sou uma tábua que sobejou do caixão das merendas quando o cais abraçava comestíveis corações em molho de solidão

sentia-me parvamente só

como se devem sentir os restantes barcos da família dos pássaros

releio e leio e sinto

dentro de mim

“O Cais das Merendas”

e sentia-me embriagado com os cheiros das letras em flor)

[“O Cais das Merendas” de Lídia Jorge]

 

sentia-me perdido dentro dos contentores amovíveis dos sonhos nocturnos

tínhamos acabado de descobri os beijos e o perfume dos Plátanos do jardim

(em Alijó também há Plátanos)

bancos em madeira vagueavam na Baía e de longe regressavam as perdizes cinzentas

das imagens a preto-e-branco que o esqueleto negro trazia na lapela

sentia-me só na cidade dos cães

e percebia os vómitos angustiantes das canções que saltitavam num bar da rua das andorinhas

havia meninas

e livros disfarçados de meninas

e meninas comendo livros e livros

como as tuas palavras...

zangadas com o presente

procurando o inferno passado dos caixotes sonolentos

 

[não sei quem sou e como sou e tudo começou quando eu me sentia perdido na cidade dos cães]

 

 

(não revisto)

Domingo, 24 de Novembro de 2013

Francisco Luís Fontinha – Alijó

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