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Cachimbo de Água

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É um menino

Francisco Luís Fontinha 13 Jun 11

O Domingo aos poucos arregalava os olhos para o começo da manhã de Verão, na freguesia do Carmo o silêncio das 7:30 horas, Mafalda a parteira de serviço encharcada em suor, e na azafama da maternidade grunhia sílabas que no corredor passeavam nos bolsos do pai pendurado nos nervos,

 

- Puxe, mais um esforço, está quase…

 

E os três quilos e seiscentos gramas entupidos no cacimbo,

 

- Está quase… a cabeça já cá canta…

 

A cabeça, os olhos, um jeitinho e temos pernocas à vista, é um lindo menino, lindo menino eu, conversa, somos todos iguais, pele engelhada, ensanguentados como se tivéssemos caído a um poço de merda, berros insuportáveis, olhos suspensos em dois palitos, os dentes sobre a mesa-de-cabeceira, e enrolado num trapo levam-me para o banho, mas antes, mostram o engelhado à mãe babada, e o pai suspirava de alívio, é um menino,

 

- Ainda nem tempo tive de olhar pela janela e já me estão a atirar água ao focinho,

 

Mafalda desenha-lhe uma cruz invisível no peito e coloca-lhe uma etiqueta no pulso para não se perder no capim, a parturiente no cansaço dos três quilos e seiscentos gramas joga à macaca na missão de S. Paulo, desenha um sorriso na boca da irmã Francisca e adormece,

 

- Estes miúdos são insuportáveis e não se calam, todos aos berros como se fossem uma orquestras de goelas esfomeadas,

 

Sílabas que no corredor passeavam nos bolsos do pai pendurado nos nervos, os cigarros intermináveis fundiam-se no começo da manhã de Domingo, na ilha do Mussulo esperavam-no os amigos com a sombra das Cucas, e do arroz de marisco um camarão com a cabeça de fora e numa vozinha de maré embalada pelo vento,

 

- É um menino.

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

13 de Junho de 2011

Alijó

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