Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Abr 19

É noite,

E hoje não estou ao teu lado.

É noite,

Começa em mim a procissão do adeus,

Nas lâminas incandescentes dos teus lábios,

Não, não estou apaixonado,

Nem pela madrugada,

Nem pela tempestade…

Apenas te oiço nos lençóis do mar.

É noite,

Abro a janela e apenas um fio de luz no teu olhar,

O silêncio espetado no teu corpo,

Como a espada que tenho na mão,

Para assassinar a noite.

Vou matá-la.

É noite,

É noite e os livros já dormem,

Como crianças,

Na cama da saudade.

As ruas sem ninguém,

Nem transeuntes,

Nem automóveis,

Nem submarinos,

Apenas petroleiros fundeados junto à porta de entrada;

Fugimos, hoje?

Para as grutas da montanha envenenada pela solidão,

Os amantes, as amantes, lambem-se entre quatro paredes envelhecidas,

Mortas,

Perdidas.

É noite,

É noite e não consigo pegar na tua mão…

Talvez amanhã o consiga…

Amanhã.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

19/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:20

08
Out 15

Estes cacos incendiados nas escarpas do silêncio,

O teu corpo permitindo-me adormecer,

Sobre ele,

Uma rocha cor de cinza,

Faz fumo,

Incendeia-te como se fosses pedacinhos de papel…

Voando sobre a noite,

Na janela um cortinado negro com lábios de luar,

Entra o rio nos ombros flácidos das palavras embriagadas na sombra da morte,

A voz alimenta-nos,

Beija-nos,

Abraça-nos como se fossemos duas pedras em queda livre,

O abismo que habita o teu olhar,

O marinheiro sentado numa esplanada de esperma…

Sentas-te,

Foges-me,

Como a água,

Os barcos…

E todas as flores do Adeus.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 7 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:06

03
Jun 15

A tarde vaiada no silêncio do adeus,

Há sempre uma partida,

Sem despedida,

Alguma,

Ou… ou nenhuma

Canção de embalar,

Há sempre uma palavra

Amiga,

Amarga,

Desempregada…

Sem… sem desenhos para desenhar,

A tarde,

 

Só,

Entre as paredes dos plátanos envelhecidos,

E gritam,

Às vezes…

Enfurecidos,

As pálpebras cinzentas da madrugada,

 

Mas da tarde vaiada…

Não sobra nada,

 

Nada.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 3 de Junho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:50

04
Abr 15

A barca desgraçada

Recusa-se a regressar

Inventa palavras

Desenha gemidos nas pedras

Vãs

E cansadas

A barca

Não

Sabe

O horário da morte

Finge dormir debaixo de uma lápide

De espuma

Canta a cidade

Os húmidos sorrisos da madrugada

A barca

Desgraçada

Recusa-se

Regressar

Aos teus braços

Ao teu corpo

Noite

Cama

A janela enclausurada nas tuas mãos

Mão

De veludo

As cabeças dos ventrículos de vidro

Nas fretas da insónia

Há sonhos

Há… há um esconderijo no teu peito

Os olhos te prendem

E não consegues liberta o sofrimento

Adeus

Ontem

A mão

De veludo

Recusa-se

A beijar-me

O vício curvilíneo dos telhados de zinco

As crianças lançando bolas de farrapos

Em chamas

Balas

A espingarda do silêncio

PUM…

Nas camufladas salas de jantar

O cadeirão sem pressa para descansar

Cerra os prateados ombros

Deita-se

Deita-se nas linhas transversais do infinito

Não

Espero

Nada

Teu

Olhos

Mãos

Mão

Não

Suicídio nas tuas coxas

A claridade dilui-se docemente na tua boca

Finas

Cores

Da tela em supérfluas marés de medo

O sono

E a alma de não ter alma

Desamadas

As flores do jardim do último beijo

A última carícia do teu perfume

As calças de ganga

Sentadas no cadeirão em fuga

E depois de terminarem os cigarros

Nada

Hoje

Finjo e fujo

Saltando o muro dos teus lábios…

E nos teus lábios

STOP

O vermelho semáforo envenenado na tua pele

Os pregos

Os sítios obscuros do teu corpo

Dançam e cantam

Hoje

Não

Mão

Mãos…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 4 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:11

17
Dez 14

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

O biombo da saudade

que morre no teu ventre

o pensamento em pequenos voos

lentamente em direcção ao mar

rumo à cidade

do adeus...

o meu corpo sobre os carris do cansaço

tenho medo

tenho pena...

que este pobre poema

não consiga acordar a madrugada

que vive acorrentada,

 

há nas pálpebras do teu sorriso

fios de luz em decomposição

canções melódicas ensanguentadas pelo silêncio da tua voz...

… amarga

complexa

nesta triste matriz composta

neste triste cubo de vidro

com braços de papel...

o biombo da saudade

que morre no teu ventre

inventa-se

a cada segundo que o tempo come,

 

a rua incendeia-se

e todos os mendigos... não mendigos

e toda a fome... não fome

apenas as palavras sobrevivem aos teus encantos

e lamentos...

apenas as sombras nocturnas do adeus

conseguem trepar o muro da agonia

e resta este pobre poema

que um dia...

que um dia ressuscitará

das cinzas

como cigarros sem alma.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:31

11
Dez 14

Na prisão do “Adeus”

velhas flores são torturadas pelo silêncio da luz,

não existem janelas, não existe uma porta,

frestas,

ou... ou literatura,

lá fora, na rua,

ouvem-se os gritos dos pássaros e das abelhas,

há um subscrito negro onde alguém escreveu...

“para a morte”

as velhas flores não precisam de saber qual é o significado da morte,

elas são velhas flores torturadas...

pelo silêncio da luz,

(e a morte é o anoitecer de cheiros e sons

que só as velhas flores conseguem desenhar

nas húmidas paredes da prisão do “Adeus”)

na prisão do “Adeus”

velhas flores são torturadas pelo silêncio da luz,

não existem janelas, não existe uma porta,

frestas,

ou pedaço de areia com sabor a mar...

e as grades de ferro transformam-se em madrugada vestida de branco.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:01

06
Dez 14

As migalhas do teu suor

quando há nuvens com fome

e esqueletos sem nome...

os tentáculos da tua dor

mergulhados na calçada do Adeus

há uma rosa

há uma flor

que a noite alimenta

e não quer

na lareira da solidão

mas só as estrelas conseguem

desenhar na tua mão,

há uma paisagem sem amor

no sorriso de um caixão

há jardins embriagados esquecidos na escuridão

as migalhas do teu suor

quando há nuvens com fome

e esqueletos sem nome...

há ossos de papel voando na madrugada

que só o amanhecer consegue parar

há barcos infelizes

e há barcos apaixonados...

mas as migalhas do teu suor

são os alicerces da cidade dos pássaros aprisionados.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 6 de Dezembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:35

09
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Aparecias no descampado morro da solidão,

trazias vestido o perfume da paixão,

e nos seios a cansada poesia do louco poeta,

depois... depois desaparecias na escuridão de uma porta sem fechadura,

deixavas-me suspenso nas amoreiras do desejo,

e entre um beijo,

e entre a saliva do silêncio...

nada mais do que a tua sombra transposta como a matriz ranhura,

ouvíamos o mar galgar as tempestades da tua pele,

e pergaminhos de suor, pequenas gotículas de gemidos ais...

alicerçavam-se à minha mão descarnada, como uma árvore esquecida na madrugada,

e percebia de ti as inconstantes locomotivas do amor,

 

(tínhamos dentro de nós o beijo e as sílabas desenfreadas com dentes afiados,

não havia em nós as coloridas paredes de verniz,

não havia em nós os sonâmbulos cubos do amanhecer...

e mesmo assim, quase sempre, desejava-te como a caneta de tinta permanente deseja o papel nu,

ausente,

de ti, de mim... de nós, quando se acendiam os candeeiros das avenidas com palheiros de prata)

 

Aparecias, e desaparecias...

acorrentada a uma fotografia junto ao lago com cisnes circulares e olhos de noite,

procurávamos nas janelas das camas ensonadas os cortinados do Adeus,

ausentávamos-nos, e regressávamos anos depois...

tudo como dantes, tudo tão igual em pequenas fotocópias de prazer,

e sentíamos em nós os tristes pilares do edifício amarelo,

descíamos as escadas, íamos à cave dos sótãos com zincados tectos, e sabia que habitava em ti a fuga, fugias, regressavas... e quando me apercebia, lá estavas tu sentada em mim,

eu era a tua estátua de marfim,

e entre lágrimas e alguns poemas..., nada nos pertencia,

tínhamos dois corpos ancorados aos rochedos de Belém,

e entretínhamos-nos a contar os comboios em corridas apressadas para Cascais,

e depois..., e depois adormecias nos meus braços como uma boneca de porcelana...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 9 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:24

01
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

São páginas de tristeza,

folheio os teus dedos no meu corpo ausente da madrugada sem janela,

existo, talvez... porque sinto o perfume da tua dor,

são lágrimas de papel que me fazem feliz,

e durmo pensando que estou debaixo de uma nuvem de porcelana,

velhos cacos, alguns grãos de solidão...

são páginas tuas presas à minha mão,

um livro que morre,

o escritor entranha-se no esqueleto vadio do poeta,

e este, este acredita nas infinitas flores dos jardins do nada,

uma montanha de silêncio corre em direcção à cidade do Adeus,

a ponte que me transportava para a outra margem, a casa da insónia,

 

(deixou de viver, morreu, caiu... simplesmente ruiu como pedaços de saliva na boca do Amor)

 

Onde está neste momento a casa da insónia?

nos teus olhos... acredito,

nos teus doces lábios de cereja envergonhada?

ou... nunca existiu uma casa da insónia?

 

São páginas de tristeza,

corações despedaçados como pedras atiradas por uma criança para o rio da morte,

dos lençóis teus, o meu peito pintado com holofotes de néon que a cidade do Adeus engoliu,

comeu,

alimenta-se de mim como sempre se alimentaram as árvores e os pássaros e os telhados de zinco,

sinto-me um analfabeto folheando pedras de xisto,

socalcos descem o meu corpo e sei que há um cais onde fundear o meu sorriso,

deixei de sorrir?

porque o faço se a vida é um circo com palhaços, carroceis e roulotes de cartolina...

sem pernas, sem braços... como os velhos guindastes do porto de Luanda,

folheio-te sabendo que pouco mais há que folhear,

e mesmo assim, são páginas de tristeza, as tuas...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 1 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 15:47

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