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Cachimbo de Água

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Os barcos da minha infância

Francisco Luís Fontinha 2 Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sinto-me ausente como os barcos da minha infância

oiço os loucos apitos das orgias nocturnas dos pássaros anónimos em mim

finjo escrever no corpo da alma

acredito voar se saltar a varanda e passear sobre os telhados de Alfama

os bares em Cais do Sodré

o rio... o rio que me chama... e eu... e eu não vou

pronto

não quero

porque não me apetece olhar o mar

sinto-me transeunte como as formigas empanturradas em açúcar e compota de abóbora...

não quero conversar com ninguém

prefiro a ausência,

 

A minha santa ignorância... sou um Réu sentado em cima das rochas de espuma

sou um corpo deitado sobre outro corpo

mórbidos nós... até que a morte nos separe... penso em ti

e nunca sei quem és

como te devo apelidar...

se

ou

sinto-me ausente como as serpentes e os barcos da minha infância,

 

Além habitam os charcos lamacentos das bibliotecas em flor

aqui... nada que preste

aqui apenas a minha sombra espetada num farrapo junto a um espigueiro...

o telhado chora

e range

as ripas fazem amor com os pregos enferrujados...

gritam

uivam

e lá dentro

pedaços de nós em pequenas espigas de milho adormecidas no cansaço da morte

não sei... ainda não sei o teu nome

como te despes... como... qual é a tua relação com o espelho do desejo?

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 2 de Janeiro de 2014

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