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Cachimbo de Água

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As estrelas da manhã

Francisco Luís Fontinha 20 Jul 11

O desejo de viver entrelaçado nas estrelas da manhã,

O ar que respiro das palavras que escrevo e que não me servem para nada, para uns sou louco, para outros, nada, um conjunto vazio, o zero invisível na madrugada, a força constante num segmento de reta quando se extingue na ardósia da tarde, as palavras morrem depois de as escrever, leio o texto, e deixa de fazer sentido, ele pergunta-se, e eu também me questiono, Para quê?, Porquê?, quando fiquei frente ao tejo a contar os automóveis que passavam e os meus olhos prenderam-se ao comboio em passos apressados para Cascais, e desde aí, desde aí nunca mais tive olhos, a cegueira completa de mim quando olho um rio, e nunca sei, nunca sei se esse rio corre para o mar ou o mar que corre para esse rio, E quando o mar se evapora e de deixa de existir?, e ela tem razão, a roseira que me pica os braços que por sua vez noutros tempos quase picados pelas abelhas de êmbolo, e eu, e eu adormecido na noites e via a agulha a tentar absorver-me, eu fingia-me morto, baixava a cabeça e a agulha procurava outro corpo, outros braços presos ao teu pescoço, o comboio acena-me e a minha distração estampada no meu rosto, conversava com os arbustos que me olhavam e me diziam,

- Um dia as  palavras vão fazer sentido, e eu cuspia-lhes no rosto e em voz mergulhada nas pedrinhas dos passeios respondia-lhes que não, as palavras nunca fazem sentido,

E quem as lê constrói sentidos, sentido proibido, E agora é que me dizes que é sentido proibido?, se te fosse foder arbusto, quer dizer, quer dizer depois de entrarmos nas coxas de sentido proibido é que me avisas que é sentido proibido, olha digo-lhe eu, vai mesmo assim, e quero lá saber,

- As tuas palavras não fazem sentido porque tu não sabes escrever, diz-me o arbusto e continua, e sabes, não sabes escrever nem sabes fazer nada, és um absoluto zero,

Os cubos de gelo derretem-se nos arbusto por baixo do umbigo e ela com a mão acena aos veleiros estacionados em Algés, ele a cultivar o terreno agreste do corpo dela, e a terra em gemidos no rego de água começa a levantar-se e a remexer-se no chão alcatifado do quarto, junto ao rodapé a nespereira plantada pelo avô em centímetros de altura, e debaixo da cama o feno fresco da manhã para a amarela, a vaca poisava os cornos sobre a mesa-de-cabeceira e suspensa nos cornos da vaca as cuecas dela desenhadas numa noite de verão ao balcão de um bar,

- Ignorante, o arbusto para mim, e cada vez que acariciava as pernas dela ele não me deixava esquecer que o vento passa e nunca mais volta, e porque será, perguntava-me ele, E porque será?

O terreno do corpo dela macio e em pedacinhos de algodão, a janela aberta, a rua deserta, os pedacinhos que se despregavam dos ramos e saiam janela fora, o vento as levava como leva as minhas palavras, E para quê?, o arbusto a sorrir-me, ela enrolava-se nos lençóis da cama onde em cada sessenta minutos corpos carnudos e corpos emagrecidos poisavam como fios de sémen na gruta do púbis, e os combóis de Cascais interrompiam-se nas coxas dela, o maquinista saía fora e lançava um berro contra o segundo andar da pensão,

- É para hoje,

E uma voz de silêncio respondia-lhe que estava quase; falta pouco.

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