Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

Geometria da paixão

Francisco Luís Fontinha 30 Out 14

Toco-te sem saber que não sentes o meu silêncio

toco-te sem perceber que há dia nos cortinados do teu olhar

sentamos-nos

e descubro que na tua mão de lágrima

vive uma abelha

triste

e cansada

toco-te fingindo que no teu corpo existe uma cidade por descobrir...

deserta, só

toco-te sem saber que não sentes o meu silêncio...

que a minha ausência vestida de negro

é apenas um pedaço de cansaço semeado no teu ventre...

 

O veneno

o veneno que há em ti

comestível nas tardes de solidão, à janela

desenhando o que é impossível de desenhar...

porque os círculos da paixão se evaporam nas pedras em combustão

e na geometria... o amor não tem significado

é absorto

é... é mais uma ruela sem saída

o veneno

o veneno que se alicerça aos teus seios

e...

e não te deixa adormecer,

 

Toco-te sem o saber

porque deixei de observar as tuas algas

e esqueci que nesse rio onde andavas...

ninguém hoje sabe que o teu corpo lhe pertenceu

foste abraçada

foste... foste amada

pensavas que havia rochedos de insígnias

quando apenas...

nada

quando apenas uma quadriculada palavra... invadiu as tuas coxas

absorveu-as... e hoje são um esqueleto de vento

em pequenos quadrados suspensos nos lábios de um marinheiro...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Os apitos uivos

Francisco Luís Fontinha 27 Jul 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Deixemos de ouvir os comboios das tardes de verão, os apitos uivos transformaram-se em palavras tontas, vagabundas ruas com sonoralidade abstracta, olhos azuis os da noite quando vinham as gaivotas às mãos das desnorteadas horas sem regresso com sabor a poesia, e sorrisos lábios poisados sobre a vadia areia das cavernas flores que a madrugada alimentava, e depois, vomitava como vapor da velha máquina ferrugenta fingindo engolir o negro carvão como seara de trigo se tratasse..., ouvíamos, não, apenas eu ouvia os ditongos, não, apenas eu percebia as velhas sílabas em danças de salão, ouvíamos música, não, eu ouvia música, eu

(rua dos segredos, número cinco, rés-do-chão, Lisboa)

Eu fartei-me dos comboios, das máquinas enferrujadas e dos silêncios das tuas velhas madeixas, digamos que... cansei-me de ti, das tuas horrendas letras travestidas em palavras, palavras, palavras, velhas, sempre velhas, comboios... barcaças, e migalhas sobre a mesa da cozinha,

Fumegava em soluços a cansada lareira,

(rua dos segredos, número cinco, rés-do-chão, Lisboa)

Digamos que não passas de um esqueleto de arame dobrado sobre a cidade, prendias-te a um edifício granítico, de um lado, e do outro, percebia-se pela marca do teu pulso que estavas suspensa a uma ratoeira invisível com janelas circulares, o teu corpo parecia um petroleiro fundeado dentro do Tejo junto à dentadura em Marfim de Almada, do outro lados, eu,

Eu percebia que nunca mais comboios, eu percebia que nunca mais ruas curvilíneas, de sentido único, sem banco em madeira, sem flores, sem jardins..., sem meninos e meninas a brincarem aos comboios eléctricos, eu percebia que nunca mais os soluços que fumegavam da cansada lareira em triste insónia, e que a paixão e o amor...

Eu

Digamos que não passas de um esqueleto de arame dobrado sobre a cidade, uma esfarrapada bandeira que o mastro de um veleiro transporta, gaivotas, elas, também esquecidas dos apitos uivos, elas também, as madames, vestidas com folhas de jornal, e passeando-se nos carris envenenados da cidade canibal, e sabíamos que na rua dos segredos, número cinco, rés-do-chão, Lisboa, havia tambores em desvairados transparentes rufos, eu não te merecia, só, eu, apenas eu, não eu, apenas eu,

Eu?

Só porque o quero...

Deixemos de ouvir os comboios das tardes de verão, os apitos uivos transformaram-se em palavras tontas, vagabundas ruas com sonoralidade abstracta, olhos azuis os da noite quando vinham as gaivotas às mãos das desnorteadas horas sem regresso com sabor a poesia, a fome em palavras atravessava-me e apanhava-me sempre quando eu

Eu?

Quando eu sentado numa esplanada, ouvia os apitos uivos das máquinas ferrugentas, os barcos ao aço carbono, como trepadeiras subindo pelas escadas do sótão até chegarem ao céu, uivavas, gemias, parecias a locomotiva vaidosa que brincava entre o trigo e o sorriso, eu, lindo, queixava-me que a tua sombra era uma estátua de pedra, uma rocha colorida com olhos de manteiga, eu...

Eu? E que a paixão e o amor...

Só porque o quero...

… levemente distante das chuvas fumegantes das esplanadas com cadeiras plastificadas, os livros, ardiam na lareira que há pouco te falei

Lembras-te?

Eu?

Deixei de os amar,

Deixemos de perceber porque nasciam sorrisos quando deviam crescer lágrimas, e que a lareira só existia porque ainda não tinha regressado de ontem a Primavera de hoje, e o vento trazia-nos as poucas migalhas que sobejaram das sangrentas viagens ao inferno dos peixes; os teus peixes e as tuas algas.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terei em mim as sobejadas tuas lágrimas?

Francisco Luís Fontinha 6 Jul 13

foto: A&M ART and Photos

 

Terei em mim as sobejadas tuas lágrimas?

E as tuas algas, meu amor,

como conseguem elas sobreviver sem as minha mãos...

sem o meu olhar,

terei em mim as algemas flutuantes do silêncio

quando apareces no espelho da noite

e começas a cantar

sorrindo,

 

Sou uma gota de água salgada

que voa nas clarabóias do teu doce cabelo

sou uma gaivota disfarçada de gota de água...

que te ama quando deitas a tua cabeça no meu peito confeccionado com as pobres pétalas

do xisto laminado da paixão,

 

O amor dispara palavras contra os uivos meninos da cidade dos abismos

sentavas-te nos corredores da noite como se fosses uma árvore

uma menina vestida de árvore

como as tuas algas e os teus peixes e a rosa que deixaste no interior de um velho livro...

o amor disfarça-se de madrugada

e assim, nós, os eternos amantes, dormimos parecendo pássaros envenenados pelo cacimbo,

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

As tuas tristes algas

Francisco Luís Fontinha 30 Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Flutuávamos como duas abelhas sobre desejos de mel, abraçavas-me e beijavas-me, não percebendo eu, o significado do amor em equações diferenciais, acariciava-te a integral tripla dos teus seios, e tu, tu olhavas-me como se eu fosse uma flor com pequenas convulsões, desejava-te, e não percebia, que eu, também mulher como tu, mergulhava num círculo de tédio com pequenos cubos de insónia, olhava-te, olhava-te... até me cansar, até desapareceres do meu espelho verde alface que sempre viveu dentro do meu coração, flutuávamos como duas serpentes e acabávamos pela manhã, entre a madrugada e o amanhecer, enroladas uma na outra, como duas cordas em sisal, como duas âncora a aprisionar barcos que gemiam enquanto éramos pássaros, que saltitavam os quintais dos velhos pescadores, como nós éramos, meu amor, duas simples gaivotas sem qualquer plano de voo,

Tinha medo de perder-te, e ausentares-te de mim, quando o pensava, parecia-me um suplício, uma tristeza disfarçada de palavras, poucas, porque bastavam-nos os lábios, e nunca, nunca precisávamos de livros, sebentas... ou canetas de tinta permanente, porque éramos pétalas vagueando sobre um rio em delírio, porque te amava como ainda te amo, a ti, ao teu corpo, aos teus sonhos, e às tuas algas,

E como é triste, o silêncio do teu corpo,

Como são tristes, as tuas algas, os teus esconderijos, que fazes-me procurar-te entre pinheiros e gaivotas, entre marés e o pôr-do-sol, como é difícil olhar-te e ouvir da tua voz

Amo-te, minha querida,

Como, o quanto difícil é, dizer-te

Amo-te, minha querida,

Como são tristes, as tuas nádegas, depois de partires, como será sempre triste, a tua triste ausência, navegando tu pelas sílabas dos alicerçados desejos, e como são tristes, todas as peles bronzeadas que te conheci, quando deitavas a tua cabeça sobe os meus seios, e imaginávamos barcos a brincarem nas nossas coxas...

Sempre tua,

Ana.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Sábado de Março

Francisco Luís Fontinha 2 Mar 13

Enquanto ouvir os pássaros, percebo que estou vivo, sentindo os barcos em círculos no rio dos sonhos, sim, percebo que estou a sonhar, e enquanto olho, uma cidade em voos silenciosos debaixo das pontes que ligam o amor e a paixão, sim, percebo que estou “fodido”, porque a paixão mata, mói, corrompe as mandíbulas das asas de papel, e oiço-as, a elas, e percebo, porque oiço os malditos pássaros, que estou vivo, sou um espelho insignificante, com luzes e brilhantina na cabeça, um palhaço de circo ambulante, um zumbi com cabelos soltos e mergulhados nas espinhas do amanhecer, e sim, que percebo, a paixão emagrece o céu, alimenta-se dos corpos em desejo, e depois, depois de mastigar os ossos e a carne, foge, e esconde-se no monte mais secreto do abismo; e começo a não ouvir os pássaros, e percebo que os barcos em círculos no rio dos sonhos, sim, percebo que a paixão mata, como matam as balas da solidão, quando embatem contra o peito da paixão...

Para que servem os meus poemas se as tua mãos de papiro ardem no silêncio da noite recheada por uma longínqua, fria, inteligente, capaz de absorver-te como as tuas algas que utilizavas nas tuas débeis pesquisas, acabavas de te apaixonar pelo mar, e já trazias os rios num dos bolsos do teu bibe, e dançavas, quando o vento soprava do Sul, uma bandeira flutuava, dizia-se livre, liberta-me

E tu

Que fizeste concretamente?

Deixaste-me acorrentado a um cais mórbido, ensanguentado por palavras que ninguém percebia, porque era a nossa linguagem, eram as nossas palavras, como o fumo

E

E tu

Lembravas-me o vento quando eu sobrevoava as tendas de lona das casas sem literatura, e que fizeste concretamente? Nada,

Nada,

Como sempre, eu, tu, dois veleiros num cais de cimento com luzinhas que ao longe se transformavam em pontinhos, em círculos, em

Em

E tu

Que fizeste concretamente?

Enquanto ouvir os pássaros, percebo que estou vivo, sentindo os barcos em círculos no rio dos sonhos, sim, percebo que estou a sonhar, e enquanto olho, uma cidade em voos silenciosos debaixo das pontes que ligam o amor e a paixão, sim, percebo que estou “fodido”, porque a paixão mata, mói, corrompe as mandíbulas das asas de papel, e oiço-as, a elas, e percebo, porque oiço os malditos pássaros, que estou vivo, que precisamos de gritar, amar, morrer, que enquanto ouvirmos os pássaros, percebemos que estamos vivos, sentindo os barcos em círculos no rio dos sonhos, sim, percebemos que estamos a sonhar, e enquanto olhemos, uma cidade em voos silenciosos debaixo das pontes que ligam o amor e a paixão, sim, percebemos que estamos “fodidos”, porque

A paixão matou-nos, porque o amor, também ele, numa noite de inverno, assassinou-nos, e ficamos sós, abraçados, como duas gotas de água suspensas num arame de vidro..., e no entanto

Em

E tu

Que fizeste concretamente?

As tuas tristes algas sobreviveram à tempestade de areia, talvez, hoje, Sábado de Março, vivam dentro de uma parede de xisto, com janelas para o rio Douro, talvez, hoje, Sábado de Março, as tuas tristes algas, algumas, não todas, mortas, como nós, como eles, e todas as palavras que escrevemos sentados num triste banco de jardim com ripas de madeira e mãos de alecrim, o cheiro, sentíamos o cheiro das palavras que deixamos morrer, e matamos

As palavras;

(amor, amo-te, paixão, desejo, beijos, carícia, abraço)

E tantas outras que matamos, como matamos os pássaros,

Enquanto ouvir os pássaros, percebo que estou vivo, e como não os oiço, percebo, entendo, pressinto

Que morri,

Ou

Que as tuas tristes algas... mentiam-nos, quando acordávamos pela manhã e depois de abrirmos a janela, ao longe, ao longe uma ponte de aço acenava-nos, ao longe, uma ponte de aço gritava-nos

Amava-vos, mas deixei de olhar o sol e o mar transformou-se na face de um cubo pintada de azul, e quase sempre estávamos de olhos vendados, como todas as rochas dos rios com algas mentirosas...

(Lembravas-me o vento quando eu sobrevoava as tendas de lona das casas sem literatura, e que fizeste concretamente? Nada,

Nada,

Como sempre, eu, tu, dois veleiros num cais de cimento com luzinhas que ao longe se transformavam em pontinhos, em círculos, em

Em

E tu

Que fizeste concretamente?)

E nunca mais tivemos sossego como o homem com cabeça de palha.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

 

P.S.

Tinhas nos seios as sílabas que construíam as palavras mais belas do planalto onde habitávamos e nos escondíamos, tinhas no peito uma janela onde vivia um coração, e dessa janela, víamos os triângulos de areia que Deus deixava sobre as plantas carnívoras que brincavam no nosso quintal de cartolina e lápis de cor, e mesmo assim, que tudo tínhamos, deixamos morrer as palavras mais importantes de nós; E hoje, Sábado de Março, apenas comunicamos através de números e equações matemáticas complexas, feias e distantes...

Não crescem algas na tua mão

Francisco Luís Fontinha 26 Jun 11

Sou um gajo porreiro e esquisito escrevia ele na almofada da noite nua e escura, antes de adormecer,

O cigarro extingue-se no hálito da sanita e das nádegas assentes no bidé o peso amorfo do corpo dobrado, a cabeça presa a ventosas e silêncios pegajosos colados aos azulejos, com os olhos afugentava os risquinhos da separação, o espaço à volta de cada e azulejo e vazio, o pórfiro da mão separando o feldspato, separando o quartzo, e a mica, e a mica encastrada nas estrelas suspensas no gesso humedecido da neblina,

- Gosto está giro,

Ela estacionada na esplanada do café,

E em pequeníssimas dentadinhas absorvia as letras do Semanário “Expresso”, os artigos confundiam-se com a luz da tarde, os artigos desciam-lhe pela garganta, e picadelazinha aqui e picadelazinha ali, um arranhão na língua, e no estômago misturavam-se com a saliva incandescente da maré, ouvi o mar, e sabia que o mar nos intestinos em voltas e voltas, o vazio da voz,

- É preciso ter muita sorte dizia ela, andar nu em casa e cair e enfiar uma Nossa Senhora pelo rabo acima,

E eu não acredito em milagres quanto mais nos sonhos,

Sempre a noite que entra pela janela e o meu corpo degolado pelo cacimbo e o narguilé deitado ao meu lado de braços cruzados, isso são apenas sonhos diz ela,

- Quanto mais em sonhos,

Acende-se a luz do candeeiro,

As pernas descansam no comprimento de onda da noite e com a frequência de dois ais o chilrear do eléctrico descendo a rua, o cheiro a mijo junto à roulote das farturas, e antes de adormecer o sempre ritual da contagem das moedas e amanhã fodo-me, nem para o café dá,

- Um dia vamos ter a nossa casa de madeira junto ao mar,

Prometes?,

Sou um gajo porreiro e esquisito escrevia ele na almofada da noite nua e escura, antes de adormecer,

- Prometo!,

Dispenso os livros e a poesia e as palavras, mas não os teus braços,

- És tão parvo…

As gaivotas que se fodam,

Quando o narguilé pega na minha cabeça e lança-a à garganta do mar, e onde está Deus porra?, engolem-me os peixes nos dias cinzentos que poisam sobre o musseque, o cigarro quase extinto e a espuma mergulha na sanita, o autoclismo expulsa o que resta de mim,

- E nem dos sonhos,

Crescem algas na tua mão,

Porque a tua mão é uma pedra esquisita, porque a tua mão encosta-se à almofada antes de adormecer, e da noite nua e escura, finges não me ver pendurada no tecto; e brincamos na imensidão de terra infestada de flores selvagens, e não crescem algas na tua mão…

Cessam as nuvens

Francisco Luís Fontinha 10 Mai 11

Cessam as nuvens do amanhecer que tapam os meus olhos, cessa o néon encalhado na parede sobre as portas de entrada dos comércios, cessam os bancos do jardim e escondem-se por entre as sombras da rua, e logo pela manhã alicerçam-se nas minhas pernas as algas do rio que durante a noite entraram pela janela, tenho medo, fico preso ao chão, as minhas pernas ancoradas a um relógio de parede no silêncio do tempo engasgado e circular à volta do candeeiro, não ando, deixei de andar e também perdi a velocidade, quero esconder-me dentro de uma raio de sol, mas o sol é suficiente frio para aquecer o meu corpo gélido, verifico que sou de tungsténio, e cessam as nuvens do amanhecer que tapam os meus olhos, deixei de ver, deixei de observar as coisas belas e não belas, e há pedras tão belas, e belas tão flores, e mulheres incandescentes no limiar da conservação da massa, na aceleração gravítica, nos protões e electrões, e no infinito…

 

 

Luís Fontinha

10 de Maio de 2011

Alijó

Pedacinhos de tristeza

Francisco Luís Fontinha 2 Mai 11

Que algas são estas que se enrolam no meu corpo

Prendem-me os braços ao cansaço da noite

E na minha mão em desespero

Desenham silêncios ao amanhecer

 

Serei eu um rio

Ribeira perdida na montanha?

Que algas são estas que se enrolam no meu corpo

E não me deixam voar

 

Eu uma gaivota em morte lenta

Cortada em pedacinhos de tristeza

Que algas são estas

Que não me deixam caminhar

 

Que me proíbem de sonhar…

 

 

Luís Fontinha

2 de Maio de 2011

Alijó

Sobre o autor

foto do autor

Feedback