Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

16
Fev 13

As diurnas caixa dos sonhos (esmolas?) que de estabelecimento comercial em estabelecimento comercial, de jardim em jardim, de cave em cave, escondem, semeiam, gratificam, as poucas moedas e notas que o homem dos gelados de chocolate foi deixando pelo chão, hoje sei que no Baleizão uma casa fantasma andava sempre de mão dada comigo, hoje sei que quando olhava a estátua da Maria da Fonte um petroleiro com bandeira da República Popular da China voava entre os meus cabelos e a incensa luz dos olhos agrafados aos pedaços de papel que sobejaram das tardes debaixo das mangueiras, hoje sei que

Deixei de saber, os anos atracam-se-me como correntes de aço, roubam-me os poucos sonhos que ainda restavam ao meu cadáver corpo de madeira prensada, e também existe o problema das asas de alumínio, os parafusos roucos devido às noites que passei sentado nos bancos de jardim à espera da menina do circo, e nunca mais chegava, chega, até que o arame que ligava as duas margens partiu-se em bocadinhos, centímetros de arame que aconchegadamente podem eternamente viver dentro da minha algibeira,

Tens saudades minhas? Respondia-te que não fingindo, porque sempre tive saudades dos caixotes de madeira, das moscas com muitas patas e asas transparentes, porque sempre tive saudades das pontes, dos teus cabelos de fio doirado e corpo magríssimo quando sobre o arame atravessavas as duas margens e desaparecias na neblina de Almada, claro

Que tenho saudades tuas sua tonta,

E depois do espectáculo, descias, construías uma vénia ao teu sorridente público e ias esconder-te na caravana estacionada a poucos metros do palco invisível, que o teu pai, empresário, ilusionista e palhaço, demorou um inteiro dia a montar sobre o pavimento térreo do voo nocturno dos pássaros embebidos na vodka dos miúdos à porta do cabaré, e quando lhes perguntavam se tinham factura?

Em uníssono respondiam

Tinhas corpo de bailarina, como as abelhas em busca do pólen que dos rochedos da insónia agrediam verbalmente os homens que no Baleizão semeavam gelados de chocolate junto à esplanada recheada de cadeiras e mesas e pessoas

De chapa zincada,

Em uníssono respondiam que com a fome comeram a (fatura) e com um pouco de sorte, durante a noite, ela, debaixo do (teto) das amendoeiras em flore, certamente era expedida através das entranhas do rabo ensanguentado devido à grossura do papel que tapava as fendas das paredes da caravana, ela

Esplanada recheada de cadeiras e mesas e pessoas adormecia nos meus braços e pela janela da caravana eu, eu via a luz mergulhada nos Cacilheiros em corridas como círculos em volta de uma árvores de sombra

Ela gritava,

E ouviam-se-lhe os gemidos dos motores a diesel engasgados com os rebuçados de mentol e recheados com sonhos, os mesmos que a gaveta durante anos, e anos, e anos,

Guardou como objectos valiosos, como ainda tenho todos os pedaços de arame que ela utilizava para atravessar as duas margens, e quando poisava em Almada, ouviam-se-lhes os gemidos

Dos motores a diesel que da caravana uma janela imprimia o rosto de um menino abraçado a uma menina, que procuravam, em busca, das asas de vidro das noites voadoras sobre o rio circunflexo dos alguidares de alumínio, e na verdade, deixei, deixamos, perdemos-nos

Antes do espectáculo começar e ela se transformar em nuvem de algodão, e hoje sinto saudades das inocentes (diurnas caixa dos sonhos (esmolas?) que de estabelecimento comercial em estabelecimento comercial, de jardim em jardim, de cave em cave, escondem, semeiam, gratificam, as poucas moedas e notas que o homem dos gelados de chocolate foi deixando pelo chão, hoje sei que no Baleizão uma casa fantasma andava sempre de mão dada comigo, hoje sei que quando olhava a estátua da Maria da Fonte um petroleiro com bandeira da República Popular da China voava entre os meus cabelos e a incensa luz dos olhos agrafados aos pedaços de papel que sobejaram das tardes debaixo das mangueiras, hoje sei que), que desciam do céu, e silenciosamente se sentavam nas cadeiras do Baleizão, aos poucos, um miúdo de seis anos apaixonava-se por uma trapezista com asas e que usava na cabeça fios, mas muito mínimos, de oiro, como as gajas que muitos anos depois eu via nas caves dos bares em Cais do Sodré,

Ela gritava,

Aos poucos, um miúdo de seis anos apaixonava-se por uma trapezista com asas e que usava na cabeça fios, mas muito mínimos, de oiro, que o vento levou como leva todas as palavras de amor.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:19

30
Out 11

“Da vida nada espero,

Querem que eu seja um boneco de palha com cabeça de abobora, querem que eu seja um roberto, um fantoche, um palhaço,

Vejam senhores; queriam que eu fosse um travesti e vivesse nas catacumbas de Cais de Sodré”,

E foram estas as últimas palavras que ouvi da boca do senhor de avançada idade e que acabava de finar-se nos meus braços curvados devido à sombra do candeeiro que na rua atrapalhava o andamento dos peões, e aos mais distraídos o choque iminente, truz, a chapa platinada da cabeça amachucada contra o poeste de iluminação,

- Vê por onde andas seu palerma,

Pediu-me um cigarro, e enquanto desço a mão à algibeira e procuro os cigarros e tiro os cigarros e o isqueiro,

Fechou os olhos hermeticamente e com os cortinados da vida cerrados começou a voar, atravessa o rio e perdeu-se nos céus de Almada,

E ainda oiço os murmúrios nada simpáticos do velhote,

- O que faz com que um palhaço mande plantar um poste de iluminação no centro do passeio que serve exclusivamente para os peões?,

Talvez porque é estético respondo-lhe eu,

- Talvez por ser estético,

“Da vida nada espero,

Querem que eu seja um boneco de palha com cabeça de abobora, querem que eu seja um roberto, um fantoche, um palhaço,

Vejam senhores; queriam que eu fosse um travesti e vivesse nas catacumbas de Cais de Sodré”,

E o rio dançava entre as acácias da noite, e quando introduzo os cigarros e o isqueiro na algibeira vejo o velhote com uma minissaia encarnada, saltos altos e os seios de silicone pendurados ao peito, e fumava e caminhava às voltas do Cristo Rei,

- Querem que eu seja um boneco de palha com cabeça de abobora, querem que eu seja um roberto, um fantoche, um palhaço,

Da vida nada espero. Sentar-me junto ao tejo e contar as gaivotas de sorrisos amarelo…

 

(texto de ficção)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:56

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