Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

08
Jul 11

No vazio da manhã os meus olhos fecham-se

Como o portão da noite,

Das árvores em mim os ramos decadentes

As raízes penduradas no almoço,

 

Sento-me e canso-me,

Olho o mar

No prato vazio de sopa

Como a manhã

 

Quando se recusa entrar pela janela,

Os meus braços poisam sobre a tolha despida

E nua, os seios dos azulejos da cozinha,

E a minha boca esconde-se na sombra do cortinado…

 

Abro a janela e o mar foge

Levanta-se do prato de sopa

Corre pavimento em maré

E extingue-se nas nuvens da tarde.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:27

09
Mai 11

Ele de cabeça suspensa no prato de sopa, à volta da mesa dez zumbis prisioneiros às cadeiras adormecidas no pavimento, e a sopa fugia-lhe e escondia-se junto ao armário, levantava ao de leve a cabeça, e novamente ele em deambulações deixando aos poucos de sentir o corpo,

- não tenho braços,

Ele sentado e lá fora as suas mãos brincavam junto aos pinheiros, a porta de entrada cerrada, a janelas cerradas e com grades, o prato de sopa à espera de mais uma cabeçada, e ele, ele adormeceu fixando os olhos num ponto imaginário da mesa, ele sem braços, e os braços pendurados junto ao corpo e fora do corpo, no jardim juntamente com as mãos,

- já sei voar, e voava em redor das janelas onde os zumbis passaram a ser sombras, e as sombras aos berros em redor da mesa, pratos são lançados contra as frestas da parede e o silêncio não silêncio, o silêncio…

O silêncio despedia-se do almoço, o almoço aos soluços, e ele, ele com a focinheira metida dentro de um prato de sopa, ele dentro do refeitório, e as mãos e os braços,

- não tenho braços, já sei voar, e voava em redor das janelas junto aos pinheiros, e as mãos e os braços em brincadeiras escrevendo frases na terra, as flores sorriam e chovia, o corredor começava a encolher, carris em aço e eu um comboio pendurado no começo da tarde,

Ele de cabeça suspensa no prato de sopa e esqueceu-se que um prato e uma mesa à sua frente, adormeceu, as mãos e os braços lá fora, e à sua volta dez zumbis que acreditavam ser possível atravessar a parede e irem brincar no jardim,

- com as minhas mãos e com os meus braços,

Não tenho braços, já sei voar, e voava em redor das janelas…

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

9 de Maio de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:38

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