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Cachimbo de Água

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Amar sem vento

Francisco Luís Fontinha 31 Mar 18

Amar sem vento, enquanto a Lua adormece o corpo cansado,

A viagem entre parêntesis, distante da sombreada escuridão,

O passo apressado,

Ofegante,

Que caminha na tua mão.

 

Amar sem vento,

Saltar as amarras do sofrimento,

Há gente, com lamento,

Enquanto os ossos fornecem o alimento,

 

A Paz sagrada, imune predicado,

Uns shots no mercado,

Um poema poeirento…

Que poisa no livro sangrento.

 

Amar.

 

Amar sem vento,

Correr as avenidas da tempestade,

Amar,

Amar-te sabendo que a saudade,

Vira gente,

Como o mar,

Ou um barco afundado.

 

Eu sento.

 

Eu sento no amar sem vento…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 31 de Março de 2018

O silêncio amanhecer

Francisco Luís Fontinha 25 Mar 18

Podia ser o mar,

Suspenso no teu corpo amanhecer,

Na palavra escrita, o silêncio amar,

Que grita,

Após a partida da alvorada.

O poeta embrulhado no escrever,

Como uma amante,

Que das lágrimas de chorar…

Não consegue ver,

Nem sente,

O silêncio escurecer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 25 de Março de 2018

Nascer no tempo… no tempo de sofrer

Francisco Luís Fontinha 23 Jun 17

Não vou ter tempo para desenhar o tempo no silêncio da noite teu corpo,

Não vou ter tempo para semear nas tuas cochas o mais belo poema de amor…

Porque não sou poeta,

Porque não sou desenhador,

 

Não vou ter tempo para ver o nosso filho escrever no pavimento térreo do quintal,

Porque nem sequer temos um filho,

Porque nem sequer temos um quintal,

 

Não vou ter tempo para acariciar a chuva miudinha que se entranha no teu cabelo,

Não vou ter tempo para ir à lua e trazer-te um beijo…

Porque sendo astronauta não tenho esse desejo,

 

Não, não vou ter tempo!

 

Não vou ter tempo para te desejar,

Não vou ter tempo para no teu corpo brincar…

E juntos, sem tempo, olharmos o mar,

 

Não vou ter tempo para muito viver,

Já muito vi sem querer…

 

Não, não vou ter tempo!

 

Não vou ter tempo para escrever,

Tempo para amar,

Tempo para ver nascer…

Nascer no tempo… no tempo de sofrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Junho de 2017

Tudo o que não sinto

Francisco Luís Fontinha 23 Set 16

Não sinto o odor

das pedras onde te deitas

e dormes,

não sinto a dor

quando as tuas mãos melódicas

me tocam e envenenam,

não sinto o amor

que habita no teu peito

rompendo a alegria da madrugada,

não sinto a cor

do teu olhar

quando desce a noite nos teus lábios…

e uma película de mar,

não sinto o suor

das plantas do meu abismo

quando o silêncio envelhece no teu corpo…

e um poema morre no veleiro sem navegar.

 

 

Francisco Luís Fontinha

sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Ausento-me de ti na noite

Francisco Luís Fontinha 7 Mai 16

Era forçado pela pressa das coisas. O silêncio imaginário da manhã quando pegavas na minha mão ao desaparecer no meio dos transeuntes da cidade perdida,

Escondia-me das sombras dos aciprestes,

Porque assim, pensava eu, estaria mais protegido das estrelas, mas não estava.

A noite era uma aventura,

Eu preferia ler, e tu, e tu preferias passear, que confesso, que confesso não me apetece nada caminhar apenas por caminhar,

Se ao menos caminhasse em direcção ao Luar… era forçado pela pressa das coisas,

Tens de fazer isto, amanhã tens de fazer aquilo…

Chega. Detesto receber ordens de arbustos e munto menos de ti.

Sou feliz assim, confesso.

Não dou nem recebo ordens,

Sou livre, voo na companhia das gaivotas ao final da tarde junto ao Tejo,

Depois poiso em Belém,

Acorrento-me às amarras invisíveis da maré,

Olho os veleiros em atropelos sem que ninguém lhes valha…

Como a mim,

Nem palavras nem poesia,

Nem os livros me deixam adormecer quando tu, depois de caminhares em círculos, cansada, dormes, eu olho-te e finjo não te ouvir, prefiro ausentar-me na noite, e regressar quando já o dia bate na janela do nosso quarto,

Descerro a lápide do desassossego, não encontro nela o meu nome…

Deixei de pertencer aos humanos visíveis das avenidas laminadas pela escuridão,

Tenho no peito um fantasma, um falso coração que em vez de amar…

Bate, bate sem parar…

E um dia vai parar,

E nesse instante serei o homem mais feliz do Universo,

A minha morte; as coisas cessam, e deixam de ter pressa,

E deixam de ter graça.

E eu, e eu serei apenas eu…

Uma carcaça.

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 7 de Maio de 2016

janela amar

Francisco Luís Fontinha 23 Mar 16

o relógio nunca cessa de chorar

as lágrimas do mar parecem pálpebras envenenadas

nos socalcos da saudade

o rio esconde-se nas umbreiras do silêncio

como se fosse a fera amestrada do vento

sem sorrisos de vida

nas espalmadas marés do sono

o relógio vive

escuta os meus lamentos

enquanto lá fora alguém sofre

levemente andando pela cidade de algodão

e inventa sonhos

e pede-me pão

nunca se cansa de chorar

este triste relógio de corda

não sente a dor

não sente a morte

daqueles que partem e deixam de ouvir a Primavera…

e levam no coração uma pedra

do infinito abismo de habitar uma calçada

um corpo estranho

imbecil

e velho

o relógio nunca cessa de chorar

alegre

nas noites sem dormir

abre a janela amar

toca no cortinado amor

e envelhece esperando que o tempo o venha buscar

até que uma qualquer tempestade o obriga a parar…

 

Francisco Luís Fontinha

quarta-feira, 23 de Março de 2016

Recordar

Francisco Luís Fontinha 13 Mar 16

Recordo o sono levado nos teus braços

Quando a manhã terminava de acordar

Recordo o cansaço

E a sinfonia do Adeus

Que escondeste no mar…

Recordo-te sem me recordar

O teu nome

Recordo-me sem me recordar

O teu sorriso

Do amar

Do amor

Enraizado no esplendor altar

As abóbodas do silêncio

Quando prisioneiras dos teus lábios

E um pedacinho de Paz

Leva o teu corpo para o abismo

Entre rochedos de medo

E beijos de nada

Recordo

O sono

Levado

Os teus braços nas trincheiras amarguradas…

Sem tempo para me abraçar

Ou uma fingida despedida.

 

Francisco Luís Fontinha

domingo, 13 de Março de 2016

Sinfonia da loucura

Francisco Luís Fontinha 10 Jan 16

Não acredito,

Meu amor,

Que as tuas noites ingrimes

Sejam o teu desejo,

Porque não tens desejo,

Porque desejo-te não me desejando,

Como as obscuras noites de Inverno,

Como as tristes planícies do Alentejo,

Camufladas pelos teus beijos,

Não acredito, meu amor,

Na geometria,

Na física

E na sinfonia da loucura,

Pareço-te um prisioneiro,

Na cancela do adeus,

Esperando os circunflexos odores da madrugada,

Perdi a alma,

Perdia a minha amada,

Não,

Não acredito na minha infância,

Nunca tive infância,

Amor,

Amar,

Desamar…

A flor,

O guindaste da solidão

Submerso na minha mão,

Só e só…

Não acredito,

Meu amor,

Nas jangadas de vidro

Que se deitam na nossa cama,

Que nunca a tivemos,

Imaginária

Dentro da cabeça de um louco,

Tu,

Eu,

Nós…

Na loucura das sílabas amordaçadas,

O pedestre menino enrolado nas finas folhas do prazer,

Os vigaristas poetas

Roubam-me a poesia,

Roubam-me as palavras,

E eu,

Eu… acorrentado aos teus lábios,

Em papel crepe,

Vermelho,

O cansado abutre

Vestido de alegria,

O cansado abutre

Vestido de dia,

Não,

Não meu amor,

Não acredito nos teus lençóis

Nem nas tuas mãos à volta do meu pescoço,

Fingida manhã,

Triste manhã do meu acordar,

E morrer,

Sem saber a amar…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

domingo, 10 de Janeiro de 2016

Simplifiquei o cansaço,

Libertei-me das tuas garras e hoje consigo voar…

Sou livre de amar,

Sou livre de ser amado,

Ou nada das duas, é-me indiferente,

Simplifiquei o desejo,

E hoje é muito mais fácil desejar…

Ser desejado,

Ou nenhuma das duas,

É-me igual,

Indiferente,

Mortal,

O salto para os teus longínquos e proibidos braços,

Estou só, alguns livros e nada mais,

Simplifiquei tudo…

Só não consigo simplificar o amor,

Tão difícil amar…

Amar aquele que nos ama,

Tão difícil amar…

Aquela que nos ama…

Simplifiquei o cansaço,

As noites mal dormidas

Por motivos de preguiça,

O abraço,

Mortal

O salto para o teu olhar,

Fico cego,

Absorvido pelas insígnias do destino

E afins,

Simplifiquei o cansaço,

Libertei-me das tuas garras e hoje consigo voar…

 

Só.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

segunda-feira, 28 de Novembro de 2015

mulher do meu saber

Francisco Luís Fontinha 11 Nov 15

sofrer

morrer na vaidade da vida

quando a vida é uma vaidade desmedida

sofrer

sonhar e sofrer

mergulhar o corpo na clandestinidade da saudade

vivida

sonhada

sofrida

sofrer e morrer

na vaidade da vida

quando o sonho pertence à saudade

ser

não sendo o ser perfeito

aquele que todos querem que eu seja

um tonto

um desnorteado

sem o saber

absorto

mergulhado no sofrer

sofrendo

não ser

a abelha amestrada do silêncio

a gaivota da solidão sobrevoando a montanha

não o tenho

o amor

e a paixão

de amar

e ser amado

pelos pássaros da madrugada

ao amanhecer

o prazer

de fundir o meu corpo no teu

um só

um corpo

dois destinos

e três maços de cigarros

amanhã

não sendo

sendo o dia da despedida

a carta sem remetente

à deriva

a diva

mulher do meu saber

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

quarta-feira, 11 de Novembro de 2015

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