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Cachimbo de Água

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“O Senhor Anónimo”

Francisco Luís Fontinha 24 Jul 14

O teu corpo quando absorvido pela perspectiva cavaleira do desejo,

a tua pele tracejada nas ruelas da minha solidão,

sinto-te porque existe à minha volta uma lanterna de silêncios,

sinto-te porque em ti crescem as héderas nocturnas da cidade das sílabas,

e cruzam-se as palavras nos comboios que descem a montanha do amor,

há rochedos enfeitados com pálpebras de papel amarrotado,

olhares que me aprisionam e me transformam em apitos de suor,

na areia da insónia alguém desenha beijos,

e o sonho os leva, leva-os... até deixarem de ser beijos,

depois, depois os beijos ressuscitam a aparecem como algas imperfeitas que o medo alimenta,

o corpo flutua na morte clandestina do homem com rosto de triângulo,

e um dos catetos abra-se à hipotenusa,

 

Na lapela, um nome, ilegível, gatafunhos...

apelidei-o de “o senhor anónimo”,

cerca de quarenta anos, apátrida, e marinheiro de profissão,

 

O teu corpo, pouco ou nada me interessa,

embrulhado em geometria... apenas sobressaem os segmentos de recta do cansaço,

o barco onde trabalho e habito... há muito deixou de ter flores e cartas com corações...

a palavra “amo-te” não faz sentido, não pertence ás marés por onde navego,

peço que regresse o vento,

e vem a tempestade,

peço a tua pele tracejada... e sou apedrejado por crianças em fúria, como se eu fosse o culpado pela tristeza das lâminas da madrugada,

e não tenho onde me esconder,

precisava apenas de um pedaço de pano,

um cortinado envenenado,

o teu corpo, pouco ou nada me interessa,

comparado com a multidão de sombras que me acorrentam ao cais dos tentáculos de néon.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 24 de Julho de 2014

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