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Cachimbo de Água

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Trigonometria

Francisco Luís Fontinha 16 Abr 19

O amor é uma merda.

No coração não temos nada,

Nem melodia, nem palavras, nem uma simples canção…

Quando acorda a madrugada.

O coração não ama, não chora,

O coração é uma máquina, uma bomba, nada mais do que isso.

Ninguém está no coração de ninguém,

Nem as palavras, nem as almas penadas…

O amor é uma merda,

Complexa,

Como os rochedos da floresta.

Será o amor uma equação diferencial?

O esforço transverso?

O momento flector?

Ou será o amor apenas uma pequena flor,

Na lapela de um qualquer caderno quadriculado…

Tudo isso, é nada.

A paixão é como a sombra das minhas bananeiras,

Ou como o sumo das minhas tâmaras…

Azedas,

Tristes,

Como a alvorada.

Poderá um petroleiro ser amor?

Uma jangada sem destino,

Em direcção ao abismo?

E o coração?

Uma máquina, apenas, nada mais do que isso.

O amor é uma merda,

Como todas as flores do teu jardim,

Feias,

Raquíticas…

Anormais.

Será o amor uma equação trigonométrica?

Do tipo:

O co-seno ao quadrado do amor mais o seno ao quadrado do amor é igual a um…

Pronto.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

16/04/2019

Noites de desassossego

Francisco Luís Fontinha 15 Abr 19

Flor do meu jardim,

Palavras do meu verso,

Página do meu livro,

Vento que amachuca o meu corpo,

E folheia o livro que és tu…

Nuvem minha paixão,

Tempestade do deserto,

Pôr-do-Sol do meu sonhar,

Nos finais de tarde junto ao mar.

Papel onde escrevo,

Retracto do meu espelho…

Flor do meu jardim,

Nas noites de desassossego.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

15/04/2019

A enxada da vida

Francisco Luís Fontinha 14 Abr 19

Trago nas mãos a enxada da vida,

Tenho nas mãos o silêncio da vida,

Tenho no meu corpo o círculo da vida,

Sem viver, esta vida de sofrer.

Trago nos lábios o sofrimento de respirar,

O ar purificado das planícies perpendiculares ao quadrado…

Quando durmo, e não consigo sonhar.

Trago em mim todas as flores do teu jardim,

Todas as árvores do teu cabelo…

Caminhando pela cidade.

Trago em mim todos os barcos, todas as marés do teu sorriso…

Dançando na chuva,

Brincando na chuva,

Como uma criança sem nome.

Trago em mim todas as palavras que te vou dizer,

Numa tarde de vento,

Junto ao rio a correr…

Trago em mim todos os socalcos do Douro,

Todas as sombras do Douro…

Quando nasce o Sol, quando nasce a saudade de te beijar.

Trago em mim os livros que vamos ler,

À lareira,

Enquanto pego na tua mão…

E nela, semeio as palavras que não tenho coragem de te dizer,

Apenas escrevo,

Que trago em mim todo o meu saber.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

14/04/2019

Menina do meu saber

Francisco Luís Fontinha 13 Abr 19

Menina do meu saber,

Endiabrada e a correr,

Menina do Douro encurvado,

Que chora sem querer…

Menina mimada, menina das tardes a chover,

Menina cansada,

A chorar,

Neste rio deitada,

A correr para o mar.

Menina da ribeira,

Dançando sobre o amor,

Palavras escritas no vento,

Deste corpo suicidado,

Menina das flores e do amar…

No pensamento,

A mão lançando a espada,

Dos livros, de nada…

Menina em flor,

Meninada apaixonada.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

13/04/2019

O fogo da paixão

Francisco Luís Fontinha 12 Abr 19

Sento-me no patamar e lanço pedras socalco abaixo,

Ao fundo, o rio, encurvado, entre rochas e rochedos,

Vinhas e vinhedos,

Como o paraíso da minha infância.

Deitava-me debaixo das mangueiras e sonhava com palavras,

Desenhava na terra o silêncio de um menino, apaixonado pela Lua…

Adormecia,

Dormia até que a tarde se levantava e fugia.

Como eu era feliz naquela altura.

Hoje, sou carrancudo, embrulhado na solidão,

Sou mendigo,

Triângulo,

Foguetão.

O mar vinha visitar-me todas as tardes,

Construía papagaios em papel colorido…

E em frente ao quintal, na rua deserta, corria,

Corria, até que o papagaio se elevava no Céu de Luanda e desaparecia,

Morria, pensava eu…

Com o cordel na mão.

Depois veio a paixão,

Apaixonei-me pelas palmeiras da Baía…

Por aviões e barcos,

Apaixonei-me pela saudade,

Que hoje bate em mim.

O fogo,

A água que adormece o fogo…

Na laranja da loucura.

Durmo, não durmo, durmo, não durmo…

Como o amor,

Encurralado no deserto, recheado de areia branca que só conheci no Mussulo,

E era feliz.

Hoje, hoje sou um fantasma, um mendigo à procura das palavras da infância…

Que nunca mais as encontrei,

Apenas fotografias,

Apenas, pai…

Fotografias.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

12/04/2019

O jardim

Francisco Luís Fontinha 10 Abr 19

Suspensa nos teus lábios, a fotografia do amanhecer.

Chove no meu corpo,

Piso o deserto da saudade,

Enquanto a serpente do teu cabelo rasteja no meu olhar,

É noite, meu amor.

Suspensa nos teus lábios, a inocência da infância,

As correntes marítimas dos oceanos embriagados,

Vai,

Não regresses mais, tempestade oncológica das tardes perdidas…

Até que o vento te leve,

Para longe,

Em pequenas lâminas de aço,

Pobre.

Rico.

Sem-abrigo, é tudo o que eu sou…

Meia dúzia de ovos, um café e uma torrada,

Ao final da tarde.

Mendigo.

Perigo.

Suspensa, em ti, as palavras minhas,

Desajeitadas,

Sem nexo,

O beijo da serpente.

Abro a janela da paixão,

Finalmente há amanhecer,

Porque a tua fotografia,

Pertence aos teus lábios.

Estou alegre.

Apaixonado pelos socalcos da geada…

Mendigo.

Perigo.

Aventuras, telegramas sem remetente…

Nos braços,

O ausente,

Da morte,

Que há-de regressar ao teu peito.

 

A cidade, toda a cidade arde,

Nos teus seios,

O jardim dos gladíolos…

 

Sem nexo.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

10/04/2019

O círculo

Francisco Luís Fontinha 9 Abr 19

Desenho o círculo, o quadrado e o triângulo, nos teus lábios de papel quadriculado,

Escrevo-te enquanto brincas na chuva, como uma criança mimada,

Tenho pena dos jardins e das flores,

Quando me sinto abandonado,

Pela tempestade, quando acorda a madrugada,

Na sanzala dos amores.

Leio-te.

Todas as palavras escritas no teu corpo de cerâmica, e na tua pele, o perfume do silêncio amargurado,

Leio-te, como se fosses um livro de poesia,

Quando o poeta está triste,

Com heresia,

Na chuvinha que não resiste,

Ao beijo da alvorada.

Sinto a paixão das palavras no meu corpo cansado.

Desenho o círculo, o quadrado e o triângulo, nos teus lábios de papel quadriculado,

Percorro socalcos,

Pego no xisto,

Sei que existo,

Porque dos teus lábios, brotam a neblina da loucura,

Na cidade, encontro-me encurralado,

Como uma arma de fogo, uma navalha… apontada ao Sol,

E, no entanto, gosto das nuvens de algodão.

Tenho na mão o fogo do amor,

As luvas da paixão,

Tenho na mão a dor,

Quando a espada se entranha no chão.

O círculo,

O quadrado,

O triângulo…

Todos.

Apaixonados.

Todos.

Cansados.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

09/04/2019

As gaivotas de Luanda

Francisco Luís Fontinha 7 Abr 19

O chão semeado de sombras,

Dentro de mim, o mar,

Descalço,

A convidar-me para brincar.

O cheiro da terra húmida,

As palmeiras envenenadas pelo silêncio,

Quando as gaivotas de Luanda, dormem na Baía…

Oiço-as.

O chão semeado de sombras,

O capim molhado com cheiro a sonho,

Sobre a terra,

Os barcos de papel da infância.

O som dos transeuntes mabecos perto da sanzala,

As crianças brincando com a tarde salgada,

Que um velho sábio trouxe do mar.

Abraço-me às mangueiras, deito-me no chão semeado de sombras,

Sonho com uma Lisboa desconhecida, onde se passeiam putas e bêbados…

Pelas avenidas escurecidas.

E, no entanto, ainda hoje, desenho no teu corpo, gaivotas.

Uma Lisboa embrulhada em cheiros e sabores,

As tasquinhas, nas paredes, o peixe frito com sabor a cebola,

O vinho misturado com a água salgada,

E as pipas parecem esconderijos de marinheiros.

As gaivotas, meu amor,

As gaivotas que desenhei nos teus seios,

Dos incêndios da minha infância…

Alucinações,

Eu, eu brincando com as galinhas da minha avó,

De calções,

Sandálias…

E sonhos.

 

E hoje, sou apenas um velho esperando a morte.

 

 

Querida Lisboa,

 

Dos enfartes que as guloseimas de uma criança, deixa sobre a terra,

 

Querida Luanda; as gaivotas dos teus braços.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

07/04/2019

Suspenso no teu olhar.

Francisco Luís Fontinha 6 Abr 19

Vou assassinar todos os meus livros,

Dar-me como culpado,

E durante a noite, enquanto as estrelas dormem, ser incinerado.

Vou assassinar o teu corpo, apenas o teu corpo,

E fugir para a Lua,

Vou beijar os teus lábios,

Antes de assassinar todos os meus livros,

Dar-me como culpado,

E deitar-me nas tuas cinzas,

Eu, cremado,

Como os meus livros,

Como o meu corpo…

Incinerado.

Vou queimar os teus seios,

Antes de escrever neles, amo-te,

Vou assassinar todos os meus livros,

Quando começar a madrugada.

Quando eu morrer,

E, os meus livros,

E, o teu corpo,

Vou,

Talvez,

Ser feliz.

Como os meus livros,

Como o teu corpo,

Como o meu corpo.

Vou assassinar todos os meus livros,

Dar-me como culpado,

E durante a noite, enquanto as estrelas dormem, ser incinerado…

Como a vida é complexa…

 

Como o teu corpo, suspenso no teu olhar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

06/04/2019

Morre-se de quê?

Francisco Luís Fontinha 5 Abr 19

Das lágrimas do mar de rosas,

Nasceram os teus olhos de Primavera.

Dançam as andorinhas sobre a poeira tarde,

Como palavras brincando com o vento.

Das lágrimas do mar de rosas,

Obtenho o silêncio dos teus lábios,

Tão belos, no chão desenhados,

Na eira brinco com o papagaio de papel,

Corro, corro, corro sem parar,

E abraçar,

O teu corpo,

De silício.

Grito pelo mar,

Sempre ausente de mim,

Eu que vivi,

Sobre o mar,

Sobre o vento,

E hoje, pareço um transatlântico traumatizado pelas ondas melódicas da noite,

O profano,

O homem da paixão,

Que por engano,

Que por medo,

Diz não,

Diz não.

Das lágrimas do mar de rosas,

Nasceram os teus olhos de Primavera.

Pego na tua mão de porcelana,

Acaricio o teu rosto de cristal,

E no final da tarde,

À hora do lanche,

Ofereço-te um beijo,

Sem perceber,

Que habita em mim o Oceano teu desejo,

São os livros, meu amor,

São os livros que que alimentam a paixão.

 

Morre-se de quê?

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

05/04/2019

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