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Cachimbo de Água

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A fuga

Francisco Luís Fontinha 8 Jul 18

Navego no teu sorriso como um louco pássaro,

O sal mistura-se na tua mão com a areia fina da saudade,

E perco-me no teu olhar…

Depois do pôr-do-sol.

 

Descalço-me,

Lanço-me ao rio…

E sinto o meu corpo em fuga em viagem até à morte.

 

Sou apenas uma serpente envenenada pela escuridão…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 08/07/2018

...

Francisco Luís Fontinha 1 Jul 18

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Todas as tardes te encontro

Nesta desassossegada tarde de Inverno,

Invento a chuva que humedece os teus lábios,

Abraço-te como se fosses a última árvore da floresta…

Na tempestade dos sonhos.

 

 

Francisco Luís Fontinha

1/07/2018

206 ossos

Francisco Luís Fontinha 26 Mai 18

A colmeia de ossos perdida na montanha,

As flores florescentes que iluminam a noite,

E escrevem no meu corpo o poema,

Palavras,

Malditas palavras na boca do inferno,

A ribeira, simples lareira junto ao mar,

Descem as caravelas,

Sobem os braços dos náufragos,

Marinheiros dos esqueletos putrificados,

As candeias nocturnas do Adeus,

O amor,

Amo-te?

Nunca o saberei,

O que é o amor?

Uma vaca que voa…

Ao cair a noite!

O papel amarrotado do teu olhar,

Quando as estrelas se suicidam nos teus lábios,

Nunca amarei uma pedra…

Quando ela me abraça,

Beija…

Nas sombras dos holofotes de néon,

O dia límpido,

A neblina dos teus seios iluminados na floresta,

Ouves-me?

Amas-me?

Como uma pedra,

Descalça,

Sem palavras,

Ao final da tarde.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26 de Maio de 2018

Sinfonia

Francisco Luís Fontinha 5 Mai 18

Sentia-me obtuso com a tua simplicidade dos jardins adormecidos; uma flor poisa ruidosamente no teu rosto. O acordar!

Sentia-me confuso com o silêncio dos teus lábios, flácidos, cansados das minhas pobres mãos,

O sono.

Sentia-me perdido na seara da solidão,

Quando os pássaros escreviam palavras na eira, era Verão, e a candeia perdia-se sobre a mesa do esquecimento,

Me levanto,

E pego no Sol.

Me levanto,

E pego no silêncio que traz o Sol,

Sentia-me uma pomba quando o teu corpo desleixado aterrava no meu olhar,

Uma réstia de alegria,

Uma sinfonia para brincar…

E ouvia desenfreadamente os sons da alvorada.

Como eu queria ser criança…

 

 

 

Alijó, 5 de Maio de 2018

Francisco Luís Fontinha

Sem ti

Francisco Luís Fontinha 1 Mai 18

O fogo, sem ti, não é fogo.

É cansaço que se apodera dos braços,

É flor que morre na tua mão,

É avenida deserta, nesta cidade, sem pão.

O fogo, dos beijos baços,

É jardim de árvores caquécticas,

Adormecidas,

Tortas.

O fogo, sem ti, não é fogo.

É noite mal dormida,

Sorriso na parada do sofrimento,

De olhar distante,

É sirene da alvorada,

Muro em xisto,

Que atormenta minha amada…

Ai, meu amor, o fogo, sem ti…

Atormenta tanta gente.

O fogo, sem ti, meu amor,

É a luz das esplanadas de Verão,

São ruas,

Casas…

São barcos encostados ao portão,

Quando o meu quintal dança nos teus lábios de algodão,

O fogo, sem ti, meu amor,

Não é nada, nem pão, nem pedras poisadas no coração.

Amanhã, se o fogo, sem ti, não for fogo,

A minha vida é um pequeno conto,

Palavras…

Palavras, meu amor, sem ti!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 1 de Maio de 2018

Alvorada da tristeza

Francisco Luís Fontinha 29 Abr 18

Em redor dos teus cabelos,

A fragrância alvorada da tristeza; como é feio o meu jardim!

As flores de papel que alimentam o teu desejo,

Quando um caquéctico relógio de pulso se suicida na madrugada,

Fico triste, pois claro,

Aborrecido,

Cansado das canções dos teus lábios apaixonados,

Quem me dera que fossem por mim!

Quem me dera…

Quem me dera ser o teu jardim!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 29 de Abril de 2018

Sonâmbulo das cavernas

Francisco Luís Fontinha 24 Mar 18

Esta melancolia, aprisionada na tua mão, meu amor,

Esta triste despedida,

Na calçada sofrida,

Quando o beijo esvoaça na fogueira prometida.

O sangue frio do massacre, lá longe, na sanzala, os perdidos cabelos de Primavera,

Quando a fala,

Quando o silêncio do teu sorriso,

Perde o juízo,

Sonâmbulo das cavernas, no limiar da pobreza,

A bela,

A bala na cabeça de um canhão,

E tu, meu amor,

E tu meu amor procurando a sombra do coração,

Desisto.

Insisto,

Desisto da tua fotografia esbranquiçada,

Na sala malvada,

Insisto no pôr-do-sol ao final da tarde,

Saio de casa,

Procuro-te no arrozal,

E finjo ser um poeta, e finjo ser a fogueira que arde…

Sobre ti, meu amor, sobre ti.

O miúdo com a fralda de fora,

Da praia regressa o secreto amor,

Aqui mora,

Habita a mais bela flor,

Que o meu quintal acolhe,

A sede,

O molhe,

As rochas envenenadas pela madrugada,

Sofre, descansa, abraço-te minha amada,

Que toda a vida teve.

Eu vi, quando acordei,

A esplanada do amanhecer,

Sabes, meu amor,

Chorei,

Cansei da vida sem prazer,

Respirar,

E morrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Março de 2018

...

Francisco Luís Fontinha 14 Out 17

(…)

 

 

E...

Tão belo como as sandálias da infância... sonhadoras,

As tristes viagens ao cacimbo da infância, o sombreado rosto no pavimento térreo e sem nome, as mangueiras no retracto do meu avô, de machimbombo na mão, abria-se o portão de entrada, um beijo, infinitos abraços... e o sentar numa cadeira de vime,

O cansaço disfarçado de saudade, a tela do silêncio em pequenos suspiros de amor, o sexo mergulhado nas frestas do passado, a morte e a loucura, e uma equação irresolúvel, menstruada nas sílabas da madrugada, não sei o significado desta noite,

Faltam-me as palavras,

E os desenhos,

Faltam-me as palavras certas para a tua boca de verniz, e quanto aos desenhos

Uma porcaria,

Sem nexo, abstractos como o teu sorriso, e tristes como o final da tarde junto ao rio, O Tejo embriagado nos meus lábios, os esqueletos de palha ardendo na maré, e uma porcaria

Os meus desenhos?

E tu,

Uma porcaria como todas as porcarias da minha vida,

E tu,

A “Divina Comédia” ...

Entre as minhas pálpebras de arroz,

Nasce o poema no teu olhar, recomeçam as sagradas lâmpadas do fugitivo sem destino, imagino-me um transeunte sem identificação, Pátria... nasce o poema no teu olhar cambaleando lâminas de azoto e perpétuas flores em papel, as lágrimas da inocência impregnadas no teu rosto, sangrento, fulminantes palavras inscritas na alvorada,

Amanhã regressarei aos teus braços,

Não, não quero Deus nas minhas mãos, não...

Braços,

A alvorada inseminada na fala dos desassossegados orgasmos de plástico, a claridade sideral poisa sobre os teus seios, meu amor,

E o amor?

Braços,

Palavras,

O corredor embriagado de flores e árvores caducas, na algibeira um beijo e algumas migalhas de suor que só o teu corpo sabe desenhar em mim, abri a janela, puxei de um velho cigarro, a tosse, a idade da tosse... sobre os meus ombros,

Tens de deixar de fumar...!

Nunca,

(Navegas na morte, habitam em ti as saudades da partida, o regresso sem saída, absorto, infinitesimal adormecido numa lápide de sonho, partimos, chegamos, o frio entranhou-se-nos nos ossos, esquecemos as palavras, e todos os momentos, a loucura imaginária dos vinhedos escrevia nos rochedos... o xisto disfarçado de “Alimento para Cães”, as ruas inúteis, fúteis, onde ”putas e drogados” dormiam para fugirem ao vicio, a emigração dos corações de areia, a sedução, o prazer quando o teu corpo balançava na alegria, o sótão vazio, o telhado encravado nas ombreiras da paixão,

Amo-te, escreve ela todos os dias no espelho embaciado,

Amas-me?

O que é o amor, meu amor...

Palavras, poemas, poetas... & mortos sem cabeça, Amas-me? O que é o amor, meu amor...

Pedra, madeira...ou papel quadriculado,

Oiço

“Foda-se o amor”)

Nunca oiço, as tuas exclamações do prazer, e quando o teu corpo se desfaz em cinza, eu, sou absorvido pelos teus olhos, navego desde que cheguei, dentro de um caixote em madeira,

Alguns tarecos, fotografias e fios de sémen ainda por descobrir, os calções emagrecidos na madrugada, o desejo desenhado nas montanhas do “Adeus” ...

Até logo, meu amor...

E nunca,

O que é o amor, meu amor...

Os meus desenhos?

E tu,

Uma porcaria como todas as porcarias da minha vida,

Estes desenhos sem sentido, abstractos, doentes, malditos... sinto-o e finjo que ele não existe, não o quero ver, não me apetece falar com ele, amanhece nos teus braços e não me dou conta da liberdade das tuas mãos, das palavras dos teus lábios... e dos teus beijos geométricos,

A rima é de quem a trabalha,

Geométricas cintilações de cianeto, o azoto e os cigarros,

E tu?

Amanhã amar-me-ás como hoje?

Mas hoje... não existe, um caixote em madeira, alguns tarecos e meia dúzia de fotografias,

Todas,

Todas a preto e branco...

Partiram, levaram o miúdo dos calões e o caixote em madeira,

Alguns tarecos, pouca coisa e fotocópias de fotografias envenenadas pelo silêncio, na algibeira, o amor, o desejo do mar, dos barcos e das coisas

Simples?

 

 

 

(…)

 

 

(não revisto)

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Carta aos pássaros

Francisco Luís Fontinha 30 Set 17

O invisível sono nas pálpebras tua dor, os beijos inventados pelos teus lábios nas gélidas noites de Inverno, o latido de um cão, solitário, na rua das traseiras, os teus lençóis suspensos na madrugada, enquanto nas minhas mãos crescem pedacinhos de esperança, serei capaz de cuidar de ti?

A serpente da dor…

As lágrimas envenenadas do teu sangue, as límpidas madrugadas sem destino camuflada pelo sofrimento, os ossos rangem, o cabelo voa em direcção ao mar, e longos silêncios de pequenos muros de xisto nos separam, o dia, a longínqua noite, a claridade das sombras dispersas no teu corpo,

Serei capaz? As nuvens desencontradas nas frestas do cansaço, as pequeninas sílabas de dor comestíveis nas nocturnas avenidas do sonho, e o maldito sono embriagado saltitando de casa em casa, e tu, e tu aconchegada ao meu ombro, sempre sonâmbula, e embrulhada num cobertor de medo…

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 30 de Setembro de 2017

O homem invisível

Francisco Luís Fontinha 26 Ago 17

Dizem que sou o homem invisível,

Sentado numa mesa invisível,

Desenhando na sombra quatro cadeiras invisíveis…

Estou numa esplanada invisível,

Num bar “Mercado” … também ele… invisível,

 

Solto-me das amarras de vento,

Liberto-me das searas perpendiculares ao quadrado da hipotenusa…

Brinco com um velho copo de uísque,

E o invisível homem cresce na praia da areia branca,

Está noite, meu amor,

Tenho nas mãos os três livros invisíveis que me ofereceste pelo Natal…

E sinto que todos os Natais são invisíveis…

 

Tenho saudades do meu pai,

Abraço a minha mãe durante a tempestade, somos fortes, e vamos resistir a este caos invisível…

 

Sabes, meu amor…

 

Nunca poderás beijar este homem invisível,

 

Filho das cavernas,

Homem dos barcos de papel navegando no Oceanos invisível da madrugada risível,

Agacho-me, sento-me no teu colo, meu amor, e tenho medo dos furacões com olhos de serpente, e tenho medo de perder-te neste bar invisível.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26 de Agosto de 2017

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