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Cachimbo de Água

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Finos gemidos de orvalho

Francisco Luís Fontinha 1 Jan 13

Depois, vi o sol desaparecer do cubículo de trapos onde nos escondíamos, depois, vi as nuvens transformarem-se em pedaços de papel, alguns com rugas no rosto, outros, de faces límpidas, absorvidos pela miudinha chuva que horas antes tinha começado a descer do tecto, viam-se os barrotes e as traves e o soalho dos vizinhos do andar superior, esquisitos, sonolentos, raramente saiam de casa, e quando saiam vestiam-se com folhas de árvores e não tinham cabelo, e não tinham pele, sim, tinham mas não era igual à nossa, pareciam-me

Escamas, pareciam peixes com pernas, peixes com braços, peixes com uma cabeça de xisto, grande, muito grande, peixes com mãos semelhantes a um alicate de corte, escamas, pareciam-me e não eram, montanhas vestidas com caixas de cartão que sobejaram das últimas compras em Paris, peixes

Pareciam-me

Sim, tinham mas não era igual à nossa, pareciam-me,

Tínhamos vizinhos no piso inferior, um casal sem filhos, quase nunca se ouviam, e quando acordava um som, era sempre o mesmo, igual, a todas as horas, a todos os minutos, a todos os segundos, pareciam-me

Gemidos,

Finos gemidos de orvalho sobre as superfícies transparentes do primeiro dia do ano, ontem, quase não se ouviram

Gemidos,

Flores, finos, gemidos? Não se ouviram, ontem, silenciosamente sós dentro do cubículo de trapos onde se escondiam, dormiam, um casal sem filhos, e quase nunca se ouviam sons, palavras, nada, muito, flores, finos gemidos, os lados de um triângulo equilátero, burros, burras, elas, as gaivotas do primeiro dia do ano, e

Quando lhe perguntavam a quantos graus ferve um ângulo recto, ela respondia A noventa graus senhora professora, e

Gemidos,

Finos gemidos, burros, e burras,

Asnos, asnas, metálicas, treliças, treliças isostáticas, e muitas, muitas

Flores, gemidos, finos burros, e burras, depois, vi o sol desaparecer do cubículo de trapos onde nos escondíamos, depois, vi as nuvens transformarem-se em pedaços de papel, alguns com rugas no rosto, outros, de faces límpidas, absorvidos pela miudinha chuva

Pareciam-me

Sim, tinham mas não era igual à nossa, pareciam-me, peixes com olhos verdes, peixes de cebolada, peixes de escabeche, peixes, peixes, e

Peixes,

Desciam, e subiam, as escadas, sobre nós, esquisitos, com pele não igual à nossa, diferente, com a pele igual a

Peixes,

Asnos, asnas, metálicas, treliças, treliças isostáticas, e muitas, muitas mãos com sabor a amêndoa torrada, regressava o chocolate, regressavas com os miúdos, subias, descias, as finas

Escadas

Gemidos,

As finas vozes que mal se ouviam, ele, ela, os dois pareciam um telhado sem telhas, ele, ela, os dois pareciam uma árvore sem ramos, uma árvore sem folhas, um comboio

Fantasma entre os socalcos do Douro,

Obrigado pela recordação, gemidos, ele, ela, os dois pareciam a avenida Almirante Reis em discussões incompletas, ele, ela, os dois pareciam

Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos,

E subiam as escadas, desciam, escondíamos-nos dentro dos travesseiros da insónia, peixes, quase sempre, peixes com braços, quase sempre, peixes com pernas, quase sempre

Gemidos,

Peixes,

Quase sempre

Eu faço por menos carinho, Sim Sim, Você me ama amor?

Peixes, quase sempre, com braços, quase sempre, com pernas, quase sempre, apaixonados, quase sempre

Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos, e sobre nós eles esquisitos, e sobre nós escamas, pareciam peixes com pernas, peixes com braços, peixes com uma cabeça de xisto, grande, muito grande, peixes com mãos semelhantes a um alicate de corte, escamas, pareciam-me e não eram, montanhas vestidas com caixas de cartão que sobejaram das últimas compras em Paris, peixes

Pareciam-me

E não eram,

Pareciam-me

E não eram,

Peixes, quase sempre, com braços, quase sempre, com pernas, quase sempre, apaixonados, quase sempre

Eu levo trinta, ai filho, eu faço por menos,

E não eram, obrigado pela recordação, gemidos, ele, ela, os dois pareciam a avenida Almirante Reis em discussões incompletas, ele, ela, os dois pareciam

E não eram

Peixes.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

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