Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

23
Jan 15

Desenho_A1_111.jpg

 

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

preciso das tuas asas para sorrir

vivi numa casa que apelidaram de “borboleta”

nada tinha

às janelas faltavam os vidros

os cobertores tinham partido em viagem silenciosa

e nunca mais regressaram

quando ia à janela via o mar

e a Baía de Luanda

não mar

não asas para sorrir...

a “borboleta” tinha medo das minhas mãos

e quando encostava a cabeça às frestas do gesso cansado

sentia um barco atrapalhado descendo as escadas

correndo

como uma gaivota

que nunca

nunca... quis entrar dentro da “borboleta”...

porque ela era filha de um papagaio imaginado pela criança de porcelana.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:48

15
Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Inventas o prazer nas folhas pergaminho do desejo,

há uma caneta de tinta permanente pronta em ti a escrever,

sombrear o teu corpo de espuma em finíssimos traços de madrugada,

há silêncio nas tuas pálpebras enquanto imagino o poema que vou declamar no teu olhar,

e a cidade adormece sobre o travesseiro da paixão,

inventas o amor, inventas-me na escuridão,

simplesmente... me inventas, fazes de mim uma triste flor, a palavra que teimo em não pronunciar,

inventas na minha boca as caricias infinitas dos círculos do amanhecer,

e depois,

e depois... e depois desapareces nos carris que o aço alimenta, e desenhas na parede do medo o ciume,

amar, não amar, ser amado... não ser amado, … sou eu,

inventas o prazer e o meu corpo é um esqueleto de veludo...

 

Um barco em esferovite das brincadeiras de menino,

inventas o prazer disfarçado de naftalina, dentro do armário apodrecido,

dás-me cigarros para eu fumar e fumo-os como se precisasse de fugir,

correr, subir a montanha... e voar em ti,

sorrir... dou-me conta que deixei de sorrir, de viver... como viviam os pássaros na aldeia,

inventas as bonecas que dormem nos musseques, e dos zincos telhados... a solidão,

há entre nós a melódica canção, o corpo mergulhado em lençóis de linho,

a janela de onde é impossível olhar o mar, o Mussulo... e a Baía,

Inventas-me nos quadriculados cadernos, fazes de mim uma equação trigonométrica,

sem resolução,

um barco, dizes-me que sou um barco...

que inventaste para te divertires enquanto não regressa a ti o sonho e a noite e a insónia toma conta dos teus lábios...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 15 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:54

31
Dez 12

Sábado, e uma casa abandonada, escura, fria, sábia e doce, sábado, ela vem buscar-me, pegar-me-ás sem que ele perceba o que é o amor, sem que tu percebas

A fina escória neblina que o soalho de vidro provoca em nós, mulheres, esposas sem marido e filhas de um Deus esquisito, às vezes, Ateu, outras vezes, malfadado, hirto, sujo, eu, quando te encontro em frente à rua onde vive a tua mãe, e tu

E eu sem que tu percebas as fotografias a preto e branco que dormem no álbum do teu pai, fotografias antigas, dos tempos de

E tu

Luanda, as gaivotas atravessavam a Baía e deitavam-se nas mãos dos mabecos enfurecidos pela escuridão das palavras mortas, murmuradas por cadáveres estonteantes, embriagados, às vezes, outras vezes

E tu

Desgovernada sem saber o que fazer, corrias pela cidade, batias às portas, e ninguém, ninguém dobre o zinco da noite a abraçar-te, ninguém para ti

Deita-te sobre mim, meu amor, e deitavam-se as nuvens sobre as mangueiras que os pássaros deixavam ficar nos quintais abandonados, deita-te sobre mim

Meu amor...

Ninguém para ti, ninguém para mim, de candeeiro em candeeiro, uma corda de aço prendia um petroleiro, homens maus com um chicote

Não me bata por favor, gritavas quando ele acendias os cigarros nas janelas da lareira, e que a morte nos trazia todas as noites nos finos cobertores que o inverno construía, e nós

Não sabíamos o que era o Inverno,

Imaginavas a neve como sendo areia dentro de uma caixa de sapatos, pesadíssimas botas mordiam-te os pés lilases de pétala amordaçada, e não sorrias, escondias-te no sótão, e choravas, e gritavas

Não gosto desta terra maldita, maldita extinta imunda, e

Adormecias agarrada a uma boneca de trapos que nasceu e cresceu no primeiro andar com janelas e vidros envelhecidos, alguns deles em perfeita decomposição, o cheiro imundo a vidro putrefacto, em pedaços, suspensos nos peitoris de madeira apodrecida, e suja

Repetição

Não gosto desta terra maldita, maldita extinta imunda, e

E suja

Minha amordaçada menina de porcelana,

Sábado,

E tu

Luanda, as gaivotas atravessavam a Baía e deitavam-se nas mãos dos mabecos enfurecidos pela escuridão das palavras mortas, murmuradas por cadáveres estonteantes, embriagados, às vezes, outras vezes, vezes a mais, aparecias em casa numa lástima, perdias as calças, perdias as mãos, perdias os braços, regressavas, entravas, não falavas, e deitavam-se elas sobre os muitos lençóis que o cacimbo deixava ficar pelas ruas, outras vezes, às vezes, um carro zumbia, rosnava entre cães e mabecos e cavalos que tinham fugido de um carrossel estacionado junto aos Coqueiros, mostravas-me os treinos de hóquei em patins, inserias a moeda na ranhura

E os barcos começam em círculos longos voos sobre os telhados poeirentos que pertenciam às nádegas húmidas do ciume, e as fotografias do teu pai

A Preto e branco, mortas, esquecidas no fundo de um caixote de madeira, em viés um seta pintada apressadamente e letras que mal se percebia

CUIDADO PARA CIMA,

E um tipo com os dentes virados para o céu, e esperava, CUIDADO PARA CIMA

A Preto e branco, mortas, esquecidas no fundo de um caixote de madeira, em viés um seta pintada apressadamente e letras que mal se percebia que sábado, e uma casa abandonada, escura, fria, sábia e doce, sábado, ela vem buscar-me, pegar-me-ás sem que ele perceba o que é o amor, sem que tu percebas, a fina escória neblina que o soalho de vidro provoca em nós, mulheres, esposas sem marido e filhas de um Deus esquisito, às vezes, Ateu, outras vezes, malfadado, hirto, sujo, eu, quando te encontro em frente à rua onde vive a tua mãe, e tu, e eu sem que tu percebas as fotografias a preto e branco que dormem no álbum do teu pai, fotografias antigas, dos tempos de

CUIDADO PARA CIMA,

Repetição

Não gosto desta terra maldita, maldita extinta imunda, e

E suja

Minha amordaçada menina de porcelana,

Sábado,

E tu

Luanda,

E eu

Não Luanda.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:59

07
Jun 11

Cacimbo

Ao longe a sanzala iluminada de sonhos

As minhas pernas arquejam na sombra das palancas

E nas ondas da tempestade

 

Cansa-se a manhã acabada de nascer

Deito-me enrolado ao capim

Coloco as mãozinhas no peito

E em sorrisos intemporais

 

Oiço o mar que me chama

O mar que me ama

Cacimbo

Escondo-me nas árvores que dormem junto à Baía

 

E sentado numa cadeira

Conto religiosamente todos os carros que me olham

Sinto o cheiro impregnado na pele da ilha do Mussulo…

E nos meus lábios prende-se um cigarro

 

O cigarro que me dá vida e ilumina

Quando chega a noite

As luzes da cidade abrem em pequenos silêncios os olhos

E o cacimbo entra-me no corpo e amolece-me os ossos…

 

 

Luís Fontinha

7 de Junho de 2011

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:10

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