Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

17
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

levaria comigo as recordações

e alguns cachos de uva moscatel

desisto de “O medo – AL Berto” porque no paraíso não existe medo

amor

ou paixão

porque no paraíso apenas existem recordações

e a saudade

levávamos os cheiros de uma cidade em ruínas...

 

levávamos os sonhos desfeitos

e os desenhos para pintarmos quando chegasse a noite

levaria uma caneta de tinta permanente? lápis de cor?

não

talvez

as recordações adormeçam na mão da insónia

disfarçando-se de solidão

como árvores tombando sobre os velhos bancos em madeira

 

sonho connosco sentados a uma lareira

invento dentro de mim Invernos

e livros que poisarão nas nossas trémulas mãos

sonho com as conversas de dois velhos rabugentos

sempre discordando por tudo e por nada

sempre

sempre com uma mantinha sobre os joelhos

e com a esperança de que um dia o mar entre pela janela

 

(o leite e as bolachas)

 

sonho

levaria comigo as recordações

e alguns cachos de uva moscatel

 

e esperava infinitamente que se extinguisse a lareira

que cessassem todas as luzes do Universo

que morresse a Lua e o Sol

e que em todas as flores com coração de chocolate...

uma rosa absorvesse os teus molhados lábios

e te erguesses das cinzas cíclicas e sinusoidais do cosseno do desejo...

os teus seios fungiformes mergulhariam no “momento fletor” das tuas coxas

e uma viga regressada das lágrimas tangenciais do silêncio... a cor dos teus olhos

 

sonho

levaria comigo as recordações

e alguns cachos de uva moscatel

 

a cor dos teus olhos

verdes? castanhos? negros? desculpa-me... esqueci-me e nunca soube as cores

e nunca percebi os túneis de vento

ou... os buracos de minhoca

ou a tão afamada partícula de deus

eu sei eu sei

eu sei que para nós isso não tem importância...

porque levaríamos apenas as recordações e alguns cachos de uva moscatel

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 17 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:45

29
Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

És a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo sobre uma deserta cama com lençóis de Pôr-do-Sol e finas tiras do adormecido miolo que o pão em molho de beijos vagabundos que dos lábios teus saltitavam até de encontro aos vidros da pequena janela

Embaterem e destruírem-se como bolas de sabão,

Ouvíamos o ruído em cacos vidros caírem sobre a ruela com a garganta apertada, sentia-se na respiração o ofegante grito do cansaço, caírem como pedaços de papel em colorida cinza, e confesso que

Não gosto, e detesto,

Que entre em mim a noite mendiga, travestida, enfeitada com cartão e velhos cobertores que antigamente alimentavam lindos cortinados suspensos na janela da sala onde habitava o piano da tia Adosinda, onde permanecia ainda, penso eu que

Não gosto, e detesto,

Que me digam o que tenho ou não de fazer, que os espelhos me olhem e me ordenem

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

Penso que sobrevivia sozinho, e não precisavas de esconder debaixo da mesa as chaves do sótão da rua das flores, e não precisavas de trazer no rosto as minhas pobres telas, e não precisavas de retirar todos os cortinados e oferece-los aos mendigos da rua contígua que agora utilizam como cobertores

Cantigas, lérias... olha agora cobertores...

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

Não, não gosto, e detesto,

(és a única bagagem que sobejou da viagem ao teu meu corpo gourmet embebido em pequenas framboesas e gotas de champanhe, trazíamos no rosto as telas do louco pintor que habitava na rua onde passeávamos todas as noites antes de deitarmos o mar no leito da saudade, eu pegava nele ao colo, em poucos metro de viagem, deitávamos-lo)

Lembras-te de mim, miúda?

Provavelmente já não te lembras do pintor que trazia no rosto as sujas telas e os tristes papeis como argamassa do muro da solidão, eras tão nova, que

Não, não gosto,

Que confesso,

Que

Lembras?

Que foi a última vez que tive na mão o beijo da cidade dos embebidos marinheiros que chegavam em pequenos grupos aos teus braços, ainda pensei plantar-me junto ao rio, ainda pensei

Ainda gostas de mim?

Gostar, o que é gostar?

Que ainda pensei transformar-me em ponte, em aço de preferência, esticava os braços, juntava as duas margens, ou

Cantigas, lérias... olha agora cobertores...

Olha lá pá... tens de desfazer essa barba,

Olha lá pá... tens de cortar esse cabelo,

Olha lá pá...

… ou

É triste

É triste ser peixe e viver dentro de um minúsculo aquário de peneirento vidro com perfume made in China, depois chegavas a casa, corrias os cortinados, entrava em nós a luz ténue da madrugada, abrias o piano, e começavas a tocar para mim...

Ou...

Tão triste, tão, ser peixe em trinta e seis suaves prestações... e sem juros.

 

 

(Não revisto . Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:44

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