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Cachimbo de Água

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Alegria

Francisco Luís Fontinha 11 Fev 15

Desenho_A1_16.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Hoje há festa

nas paredes da minha biblioteca oiço baixinho os sorrisos invisíveis da alegria

pela primeira vez ouvi o metro do Porto como se fosse uma orquestra

... imaginava-o uma lagarta

feia

triste...

e hoje

tão belo

e hoje

tinha poesia

e canções

e... e alegria.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015

 

O amor das pedras cinzentas...

Francisco Luís Fontinha 30 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Ofereceu a bala inseminada com as impressões digitais do poema em construção, poisou os cotovelos sobre a iluminada folha de papel com meia dúzia de palavras, leu e releu e puxou o gatilho da caneta de tinta permanente sobre a secretária em pinho, voaram sobre a biblioteca todas as gaivotas de porcelana que permaneciam entre os livros e outras bugigangas, aos poucos, como silêncios de um pêndulo cansado, foram cessando as agonias do homem poeta da caneta de prata, uma bala silenciada adormecia-se como flores numa jarra, dentro dele apenas se ouviam as esquina de luz do espelho prateado,

A saudade submergiu do corpo caído sobre a secretária, ouvias as minhas preces como quem escreve um livro infinito, uma estória que só termina quando duas rectas tristes e sós se encontram

No infinito,

Dizem-me, eles,

A saudade é filha da balda da caneta de prata, as palavras morreram como morreram os teus sorrisos e como morreram as tuas caricias e como morreram as tuas mãos sobre o meu peito em feitiço... e como morreram

Quem quem morreu?

Como morreram os fantasmas dos roseirais de Luanda, e há uma filme escondido nas paredes de um casebre, na parede traseira uma placa com a inscrição de “FIM” aparece

Desaparece

E morreram os teus lábios nos meus lábios quando entrelaçados nos meus cabelos as lições de piano, o som melódico das teclas borbulham nos alicerces da madrugada, ofereceu a bala e suicidou-se com a caneta de prata

Sentia o cheiro intenso da tinta derramada nas alvenarias como desenhos abstractos que os teus olhos inventaram nas prateleiras velhas, nas prateleiras caducas, morreram os teu seios nos meus lábios, morreram as tuas cintilantes pálpebras nos cadeados de estanho, e ouvia-te das lágrimas os aplausos nas cantigas dos rabugentos e enferrujados barcos,

O aço é um corpo só, velho, flácido... o aço vive cambaleando suaves beijos em desleais palavras em mendigas sílabas de verdes olhos procurando a noite reconstruída e morreram os teus dedos que procuravam em mim

Quem quem morreu?

A bala, procuravam em mim a caneta de prata o suicídio fictício das palavras,

Quem quem morreu?

A bala, procuravam em mim as sombras desnorteadas das tardes de Segunda-feira, e eu, eu sabia-o, admitia-o... que um dia, tu, a bala e a caneta de prata... invadiriam o meu silêncio, um dia, tu, eu, que um dia, tu, a bala e a caneta de prata... invadiriam o meu sofrimento de lírio apaixonado, deitado sobre a secretária da

Saudade?

Que morreram as tuas peugadas absorvidas pelo meu pesadíssimo corpo em aço, só, velho, flácido... o aço vive cambaleando suaves beijos em desleais palavras em mendigas sílabas de verdes olhos procurando a noite reconstruída e morreram os teus dedos que procuravam em mim

Quem quem morreu?

A saudade,

(só, velho, flácido... o aço vive cambaleando suaves beijos em desleais palavras em mendigas sílabas de verdes olhos procurando a noite reconstruída e morreram os teus dedos que procuravam em mim)

Quem quem morreu?

Quem quem morreu?

O amor das pedras cinzentas...

FIM.

 

 

(não revisto – ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 30 de Novembro de 2013

A chuva não existe

Francisco Luís Fontinha 1 Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Se chove, não a sinto, se chove, se chove... que fará a chuva a um corpo nu, despido, vagueando entre dedos, vagueando entre fotões, electrões, se chove... não a sinto mas oiço-a na minha pele como pequenos pontos de luz, como... como a lua procurando as tuas mãos sabendo ela, que as tuas mãos são um pêndulo, suspensas por um longo fio de nylon e suspenso no tecto da paixão,

Um corpo em repouso, estaticamente só, um corpo longínquo e transformado em ponto de luz, mergulha, e dorme, e alimenta-se das lâminas transparentes dos apitos marinheiros com vista para o mar... um corpo só, suspenso no pêndulo da noite, adormece, sonha, vive, esquece... e saltita como marés cinzentas depois dos velhos suspiros em peixes voando sobre a cidade, este corpo, este pequeno ponto de luz... ele mesmo, a própria cidade, a cidade mergulhada nas camisas madrugadas ornamentadas de pequenas dentadas, e em dentes de marfim, o teu corpo aparece transvasado dentro das minhas tristes mãos, como um vagabundo silencioso perdidamente esquecido nos bolos de chocolate e das fatias laminadas que sobejavam da luz vizinha em arbustos envenenado pela solidão dos finais e tarde, um corpo, o teu, um pequeno ponto de luz, procurando, procurando verdadeiramente o movimento circular uniformemente acelerado, serve-te, este?

Não sou eu que procuro a luz dos teus olhos, mas ela persegue-me, embrulha-se nos meus braços, e não me deixa escrever, às vezes, sinto-a longínqua em redor do meu pescoço, quase não respiro, quase não vivo, e mesmo assim, o teu corpo, minúsculo, o teu corpo transparente das tardes de Setembro... voa, e navega como uma caravela nos lençóis de espuma que o desejo abandona depois de acariciá-lo, depois de...

Não percebi!

Se chove, não a sinto, se chove, se chove... que fará a chuva a um corpo nu, despido, vagueando entre dedos, vagueando entre fotões, electrões, se chove... não a sinto mas oiço-a na minha pele como pequenos pontos de luz, como... imagino-a sobre o piano, imagino-a enrolada ao cortinado carmim da janela da biblioteca, entre mortas personagens e vivas paixões de areia, o mar, nua, sinto-a como a se fosse filha da chuva e mergulhada nas sandálias da manhã por acabar, sinto-a vaguear nas sílabas do meu corpo, e depois

Não percebi, não percebo porque chove em ti,

Depois, qualquer coisa de estranho na tua voz, um simples e medíocre círculo com olhos verdes, e escrevi-o sem saber porque o fiz, ou se vivesse eternamente, acreditava na morte dele depois de o escrever, e não percebi e não percebo que ainda vive em mim e só morrerá quando eu morrer, quando as minhas mãos deixarem de escrever e o espelho

Não percebi...

E o espelho vestido de grená espera-me



(não revisto – Ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 1 de Setembro de 2013

 

P.S.

 

Deixei de ser eu quando a chuva me roubou os sonhos de papel que e guardava religiosamente no meu peito, deixei de ser eu, e mesmo assim, corria devagar para adormecer nos teus braços de aço, âncora mórbida, só, sentada no Cais das Colunas, só como as nuvens quando desciam as escadas dos velhos e rabugentos guindastes e entravam no teu sorriso, embebias-te em algodão e açúcar refinado, e tão finas que eram as noites em ti que deixei de existir, deixei de ser

Eu?

Tu?

Deixamos de viver, de comer, deixamos de correr em volta de um círculo com olhos verdes, ele, vive, ele pertence ao livro ainda não terminado, vive, come, vive e oiço-o diversas vezes nas ranhuras clandestinas dos veleiros invisíveis,

E ainda há quem diga

“A chuva não existe”,

E ainda há quem diga que o teu corpo é de espuma e que os teus olhos são...

Pequenos pontos de luz?

Electrões, fotões, positrões, neutrões, partículas de Deus... e afins, limitada, com sede na rua dos desgostos, número vinte, Lisboa,

E ainda há quem diga que o teu corpo é como a espuma, e desaparece todas as sextas-feiras à meia-noite, rés-do-chão, direito.

solidão nocturna

Francisco Luís Fontinha 23 Ago 13

foto de: A&M ART and Photos

 

canso-me das palavras que não posso gritar

aquelas palavras que ficam guardadas

aprisionadas dentro do espelho que alimenta o teu olhar

canso-me dos livros que leio e li

e daqueles que dormem sobre mim invisivelmente

sós...

e é tão triste ser um livro

que ninguém acaricia

e lê e só...

deitado sobre a prateleira número quatro

ao lado da solidão nocturna

das personagens envenenadas que se suicidam depois de terminar a estória...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 23 de Agosto de 2013

A saliva do amor

Francisco Luís Fontinha 4 Jul 12

A alma encontrou

trabalho

finalmente

 

nas muralhas curvas do sexo

a saliva do amor

misturada na noite de flor queimada

em papelinhos de néon

 

a rua entupida de chulos

e beatas tontas e ratazanas voadoras e espantalhos barrigudos

comedores de palha seca e erva doirada

da lezíria

a erva levemente enfeitada

alimentando a beleza das mamas da tia Margarida

“que deus a tenha em descanso debaixo das tábuas da insónia”

nas curvas sinuosas do sexo

 

A alma encontrou

trabalho

finalmente

 

(não é sexta-feira e já estou teso)

nas muralhas curvas do sexo

ressequidos pelas valetas dos vapores de iodo

e do prato de enxofre que não se cansa de arder

enquanto a noite dentro da estrada sinuosa da vida

distrai-se abrindo e fechando janelas de brincar

finalmente

finalmente encontrei trabalho

numa montra da rua do Alecrim

um balcão de chocolate

com mesas de algodão doce

eu vi

eu via a noite travestida de lua cheia

 

saltar para o interior

de um buraco inoxidável

filho da cidade dos desejos

de danças e telegramas e palavras de mandioca

e oiço a voz da morte

à lareira da poesia com pequenos goles de incenso

 

deixei de ouvir-te

obedecer aos teus caprichos e imposições

deixei de de ser eu

e fui

e transfigurei-me num edifício em ruínas

livremente entre o ácido e o aço

e quatro paredes de vidro

sem fotografias

sem literatura

de água docemente uiva de dor

sem braços sem pernas

sem cabeça

 

o espelho da fechadura

recorda-se da morte quando beija as agulhas sibiladas do silêncio

os cigarros deixaram de passear na biblioteca

e vou alimentando de palavras embebidas em vodka os meus pulmões de cetim

adormecidos à beira-mar

um passeio entre duas páginas

e o poema malcriado fica de castigo

“cabeça para baixo e as rimas estão proibidas de irem à janela”

 

e curiosamente

hoje mergulhei nos rochedos

quando ouvi as doze badaladas insípidas

das marés envenenadas pelas facas de vidro

 

(A alma encontrou

trabalho

finalmente).

...

Francisco Luís Fontinha 20 Abr 12

Porque ler livros não enche o estomago…

Francisco Luís Fontinha 18 Set 11

Pergunto-me para que serve toda esta porcaria, pergunto-me porque li imenso e ao longo de trinta anos fui guardando os livros que lia e leio, e questiono-me, e pergunto-me porquê;

 

Não seria melhor à medida que ia lendo queimar os livros numa fogueira?

 

E porque guardo as porcarias que escrevo, sem nexo e que a maioria das pessoas não percebe e porque não faço como Nikolai Gogol que queimou a segunda parte do manuscrito de “Almas Mortas”…

 

Hoje percebo que não valho nada e que não me adiantou ter lido tanto, hoje percebo que os livros só servem para eu lhes limpar o pó, e enquanto lhes limpo o pó esqueço-me que nas ruas circulam animais mamíferos prontinhos a engolir-me,

 

E será que vão ter esse real prazer?

 

Porque ler livros não enche o estomago…

 

 

 

O banco de jardim

Francisco Luís Fontinha 4 Ago 11

Saboreia na manhã o cachimbo em espuma do mar,

O fumo dilacera-se contra os ponteiros do relógio esquecido sobre a prateleira onde se abraçam livros, um barco rabelo em estanho, uma gaivota em marfim, e uma bola de cristal onde consulta os oráculos da vida, um cinzeiro de madeira encosta-se ao velho dicionário que há muito deixou de ter significado, e uma peça de louça representa uma batalha perdida com cavalos sonâmbulos e espadas de plástico, mais abaixo a bandeira de Angola e o cachecol do F. C. Porto, um busto Egípcio na sombra das pirâmides na procura das curvas do Nilo, e um crocodilo em pau-preto desembarcado em Lisboa e domesticado na paisagem do Douro,

 

O cheiro aromático do tabaco entranha-se-lhe nas mãos desgostosas de Agosto e uma tela suspensa na parede olha-o sem perceber que as acácias deixaram de florir e as árvores quando nasce o vento fincam os braços à tarde e não sorriem aos pássaros vindos das nuvens na busca de asilo,

 

Os barcos do Tejo passeiam-se dentro do minúsculo cubículo da saudade e na cidade acabada de acordar poisa levemente a manhã, sento-me nas ripas de madeira do banco de jardim e finjo olhar o rio engasgado nos detritos das gaivotas, crianças de sorriso esquecido brincam na relva incendiada pelo sol e na minha mão uma erva enfeitada de cordéis e lacinhos de seda mistura-se com o cachimbo em espuma do mar, e extingue-se nas manobras complexas de um cacilheiro,

 

No chão alguns livros aguardam o visto para a viagem até as prateleiras e enquanto a embaixada da literatura e o embaixador da minha pessoa não decidem, porque estas coisas têm o seu tempo, a mãe dele na pregação diária Quando arrumas os livros?, explico-lhe que não os posso arrumar sem ter toda a documentação necessária, passaporte, visto de entrada na prateleira e respetiva passagem de barco, e ouço o cacilheiro nas manobras complexas a atropelar um peão bêbado e com um saco de pétalas na mão,

 

Levanto-me do banco de jardim e corro até ao rio, o homem encolhido no suor da manhã está inconsciente e o saco de pétalas que com o embate se tinha rasgado padecia em pedacinhos de algodão, e as pétalas perdiam-se na água, do cacilheiro a voz do capitão Este gajos não sabem andar no rio!, e explicava-me que o semáforo estava verde e que o bêbado é que tinha de parar, e respondo ao capitão Parar se o homem é daltónico?,

O velhote em gemidos e ais Sei lá eu distinguir o verde do vermelho, a manhã da tarde, a noite do dia…

Os dias de inferno

Francisco Luís Fontinha 28 Jun 11

Ou fofinha como as espigas de milho hummmmm,

O poema é lindo,

Quando a voz que o constrói é um sorriso de vento no silêncio da noite nas mãos de uma flor adormecida no soalho da terra húmida depois de regada e as palavras fluem como sons musicais nas árvores da casa, na biblioteca os pássaros sentem o poema a entranhar-se nas penas transparentes e o candeeiro desce lentamente até adormecer no pavimento, os tacos de madeira ranhosos pingam liquido mucoso e no inverno incham e aumentam de volume, a água solidifica e rompe as ligações químicas, o poema acorda, o poema esfrega os pequeníssimos olhos de botão de rosa, olha os pássaros e deita-se sobre a secretária de madeira onde eu poiso os meus braços, onde eu prego murros com o martelo das mãos, e bato com a cabeça, é dura como cornos, a cabeça, a secretária, os cornos,

- O poema,

Rija como as pedras, três filhos,

Olha os pássaros e no vidro da janela escrevem O poema é lindo, as pessoas alimentam-se de poemas?, ele a ler livros antes de adormecer, não adormece, os intestinos ficcionados na noite e diarreia e sílabas e vogais e a merda que se espalha nos lençóis de mar da cama, o cheiro intenso a papel, o cheiro intenso a tinta, e a voz que o constrói rouca e a voz que o constrói suicida-se janela abaixo, e a cabeça da voz rola como uma formiga de asas vermelhas no tecto das rochas envenenadas pela fome, e o poema,

- Fode-se,

Três filhos rija como as pedras desbotados no fim de tarde,

O poema morre.

As palavras dentro da sanita afogam-se no mijo dos pássaros,

FIM DA FICÇÃO E PRINCÍPIO DA REALIDADE,

Qualificação superior à média, educado, maluco, doido, e às vezes, às vezes revoltado, que vive num país, num país de merda que lhe diz que aos quarenta e cinco anos não serve para nada, lixo, e está na hora de partir, partir e cagar-me para a troika e para a puta que os pariu, e que no desespero, e que no desespero está disponível para trabalhar com TRAFICANTES DE DROGA, REDES BOMBISTAS OU OUTRA MERDA QUALQUER, desde que tenha um salário para viver; EU.

Pedimos desculpa pela interrupção e voltamos à FICÇÃO,

Roda o coisinho do autoclismo e as palavras dispersam-se no cacimbo junto ao rio, no musseque o sol começa a esconder-se na sombra dos miúdos que desenham círculos na terra, o capim cobre-lhes as pernas queimadas de tristeza, é dura como cornos a noite, é dura como cornos a vida, é dura como cornos a cabeça que me mantém em equilíbrio como um poste de electricidade, os candeeiros dos meus olhos fundidos, e o escuro sobe pelo meu corpo e entra-me pelo nariz, e dou-me conta que sai fumo das minhas orelhas; curto-circuito interno, o indicador pisca-pisca do lado direito com um ataque cardíaco, e os médios, os médios com fractura do fémur,

- Acorda e durante a noite uma espiga de milho entra-lhe no olho esquerdo,

Ou fofinha,

Como a seda que alimenta o meu peito,

Os dias de inferno.

Biblioteca de Luís Fontinha

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 11

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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