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Cachimbo de Água

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Francisco Luís Fontinha 24 Nov 18

Podia desenhar-te o Céu.

A vida é um suspiro, a casa vazia, triste e a tremer de frio…, o cansaço do amanhecer perdeu-se no teu olhar, respiras, sofres por mim, e não o queres demonstrar.

Sabes, tenho medo dos pássaros, que deixem de voar, que fiquem estonteantes, como eu, ao ver-te aí deitada, tenho medo da madrugada, porque amanhã não sei se vou ler nos teus olhos a palavra amo-te…

E é tão triste, e é tão belo, todo este silêncio que nos abraça.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Novembro de 2018

Estrelas sem coração

Francisco Luís Fontinha 14 Ago 12

Este meu destino

de sobriamente abandonado pelas aves das trevas

quando do relógio das pálpebras

emergem as candeias e

e deus desce pelas escadas de cartão

e o meu corpo transforma-se em vento ensanguentado

entre papeis

e mulheres de porcelana

 

amores risíveis

mas não

ou então

 

das ruas miseráveis da plenitude madrugada

um homem sem cabeça

apaixonadamente ama

ama verdadeiramente o quê?

Se o céu é de fogo

e da terra

oiço as frestas cansadas das estrelas sem coração

o amor?

 

E da terra

se o céu é de fogo

ama verdadeiramente o quê?

o amor?

Duzentos e cinquenta degraus

Francisco Luís Fontinha 15 Nov 11

Subo as escadas

E desço as escadas

A minha vida são duzentos e cinquenta degraus

Um corrimão

E subo

E desço

As escadas

E subo até ao céu

 

Cansado

De subir até às nuvens

E à noite

E à noite regressar ao rés-do-chão

 

Abrir a porta

Fechar a porta

Corredor e corredor

Desvio-me dos petroleiros

 

Abrir a porta

Fechar a porta…

Abro os bracinhos

E zás… aterrar sobre os lençóis da noite

 

Duzentos e cinquenta degraus

Uma vida de merda

A subir escadas até ao céu…

E deus sempre ocupado ou ausente

 

E oiço a voz de deus

SÓ PARA A SEMANA!

E desço os degraus

Os malditos duzentos e cinquenta degraus…

 

E espero

E espero que o calendário pendurado na cozinha…

Que o calendário caminhe apressadamente uma semana

E que finalmente deus me receba

O milho saboroso da madrugada

Francisco Luís Fontinha 9 Out 11

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,

Que o mar só tem ondas porque existe o vento, que se uma borboleta bater as asas na Indonésia um tufão nos Estados Unidos da América acorda e começa a cuspir silêncios de água suspensa nas manhã de solidão,

E que deus está sentado à direita do pai,

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,

Que as nuvens são pedacinhos de algodão e as mulheres têm nos lábios sorrisos de mel,

- É tudo uma aldrabice pegada Confessava ele na esplanada do café onde quatro amigos invisíveis o acompanhavam,

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam e que o amor quando verdadeiro é como as estrelas do céu, cintilam e prendem-se às janelas das árvores deitadas na praia,

- É tudo uma aldrabice pegada os quatro amigos invisíveis e a lua e Luanda e o mar,

Nunca existiram,

O parvo acreditava em tudo o que lhe diziam,

E que os beijos são o pôr-do-sol antes de cair a noite sobre o rio que corre apressadamente para o mar,

- E que nunca existiu,

Belém,

- E que nunca existiu,

Calçada da Ajuda,

- E que nunca existiram,

Putas a pedincharem cigarrinhos junto à estação de Cais de Sodré,

- E que nunca existiu,

Um menino debaixo das mangueiras a espetar pregos na sombra da tarde e sobre o triciclo o chapelhudo em queda livre até aterrar junto à capoeira, e as galinhas fingiam que acreditavam em tudo, dava-lhes grãozinhos de areia trazidos propositadamente da ilha do Mussulo e elas que acreditavam em tudo agradeciam-me,

- O milho saboroso da madrugada,

Um menino que corria entre o néon dos musseques e as lágrimas do céu, um menino que acreditava em tudo,

- O milho saboroso da madrugada,

Que tombava como pétalas de dor das mãos do menino que acreditava que os barcos tinham mãos, e que os aviões quando lá no alto encolhiam e adormeciam junto a deus sentado à direita do pai,

- E que nunca existiu,

E que nunca existiram mangueiras no meu quintal,

- E que nunca existiu,

Calçada da Ajuda,

- E que nunca existiram,

Cacilheiros enrolados ao cacimbo,

Porque o parvo que acreditava em tudo o que lhe diziam,

Um dia,

Deixou de acreditar,

E as galinhas deixaram de comer os grãozinhos de areia trazidos propositadamente da ilha do Mussulo,

- O milho saboroso da madrugada,

Nas ruas de Luanda.

 

(texto de ficção)

Os dias embrulhados nas coxas da noite

Francisco Luís Fontinha 27 Jun 11

Não faço nada... imagino que está frio,

E às vezes sinto frio de não fazer nada... e que bom, eu mergulhar no Douro lentamente como se fosse uma pétala a descer o corpo de uma mulher, uma qualquer, ou homem, um qualquer, prender-me ao fundo e esperar que a minha respiração cesse, e que da noite desçam até mim as estrelas, FIM, e no teste de História o doutor Morais com a caneta vermelha,

- FIM da brincadeira, princípio do estudo,

REPROVADO,

E ainda não é desta e desço e desço e desço até ao fundo do rio e toco e toco e toco com a mãozinha no lodo, e não e não e não cessa a minha respiração, e não e não e não estrelas vindas da noite, CONTINUAÇÃO,

Do dia de ontem igual ao dia de hoje, o mesmo sol, o mesmo calor, as mesmas nuvens e a mesma noite,

Tudo igual,

- Escreve-me um poema!,

Não e não e não, não,

O coitadinho de mim, e ela com uma pedra de gelo desde o meu pescoço até… e apanha-a com os lábios como se fosse um silêncio de nada, o coitadinho de mim suspenso na continuação do dia de ontem, e irritam-me os dias sempre iguais, nem morro nem mato nem dou seguimento à minha existência medíocre, o pacóvio adormecido nas noites milagrosas de Agosto, o vendedor de sonhos na feira da ladra,

- Baratinho só cinco euros,

Peço desculpa, onde se lê cinco euros deve ler-se mil escudos,

Embrulhados na algibeira para as noites tórridas de verão e sobre a mesa da esplanada sílabas de cerveja e vogais de tremoços, e o estômago incha, e o liquido derrama-se no escuro muro de vedação da noite, e estrelas?,

- Estrelas?, quais estrelas?,

No fundo do Douro,

Não desceram estrelas do céu, o céu não existe, o Douro não existe, as estrelas não existem, o mar não existe, e, e o poema não existe,

- O poema és tu PARVALHÃO,

Os dias embrulhados nas coxas da noite,

 

Da pele de silêncio as gotinhas pétalas das tuas mãos

Os sorrisos seios do teu peito

As finíssimas nuvens dos teus lábios

Na entrada húmida e cintilante boca de esmeraldas,

 

- Olha… passou-se,

Os dias embrulhados nas coxas da noite, CONTINUAÇÃO,

 

As tuas cristalinas palavras que escreves

Quando a madrugada se despede na ópera da noite

E o teu púbis mergulha no meu corpo de silício…

Do meu corpo na combustão da tua sombra,

 

Da pele de silêncio as gotinhas…

A mão que deixa cair-se lentamente em ti

Como se fosses um pedacinho de neve

E a minha mão aos poucos na tua solidão.

 

- Não faço nada... imagino que está frio,

E às vezes sinto frio de não fazer nada... e que bom,

Quando as estrelas descem até ao fundo do rio, e um corpo cessou de respirar, e que bom perceber que esse corpo não é o meu, o meu, o meu corpo pendurado no espelho do guarda-fato e batem-me à porta; vamos jantar.

Porquê se escondem as flores

Francisco Luís Fontinha 8 Mai 11

Porquê se escondem as flores

Na minha mão,

Porquê nos meus olhos

Lágrimas em construção,

Porquê no meu quintal gaivotas,

E eu, eu tão longe do mar…

 

Porquê este aperto no peito

Na angustia de adormecer,

Porquê, porquê o meu corpo sem jeito

Encalhado no amanhecer,

 

Porquê viver…

Se posso morrer,

 

Olhar as estrelas

E pintar o céu de encarnado,

Porquê a minha mão na algibeira

A procurar o que não é encontrado…

E no ramo de uma macieira

 

O meu corpo pendurado,

 

Emagrecido

Decadente

Velho e cansado…

Esquecido

Em fogo ardente…

Com um cigarro apagado.

 

 

Luís Fontinha

8 de Maio de 2011

Alijó

Pertinho de ti pertinho do céu

Francisco Luís Fontinha 7 Abr 11

Pertinho de ti

Pertinho do céu

Ai tarde que vi partir

Sem uma lágrima

Sem se despedir

Pertinho de ti

Pertinho do céu

Sem uma lágrima

Para me fazer sorrir

Sem se despedir

Pertinho de ti

Pertinho do céu

Ao teu lado

Simplesmente encantado

Simplesmente enamorado

Pertinho de ti

Pertinho do céu

E os teus olhos são luzinhas que me iluminam

Luzinhas, luzinhas… de encantar

Um semi-circulo mecânico no teu peito

Sim um pêndulo gigante

E o nosso tempo está a esgotar-se ausente

Sem jeito

Sem espaço-tempo

Sem deixar de sonhar

Sonhar vento.

 

Saltar de arbusto em arbusto

Uma vezes de pé

Outras sentado

E nenhumas deitado

Saltar de silêncio em silêncio parece justo

Parece defeito

Feitiço

Poeta desencontrado.

 

 

Luís Fontinha

Alijó

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