Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

25
Set 15

desenho_23_09_2-015.jpg

(Fontinha – Setembro/2015)

 

Deixei de sonhar com as tuas sombras sem sorriso,

Sufocam-me as tuas palavras amargas…

Sofridas e falsas,

Deixei de olhar o mar

E os barcos embriagados pela sonolência da noite,

Agora pareço um Cacilheiro amarrado às folhas ténues dos Plátanos,

Escrevo-te,

Mas não sonho com as tuas sombras,

Sem sorriso,

Agora,

Ontem…

A alegria de estar só.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:10

24
Jun 15

Não tenho pressa de voar nos teus olhos,

Meu amor,

Sei que nas tuas lágrimas existem diamantes invisíveis,

Um silêncio de noite

Cobre a tua pele,

Não tinha tempo para o amor,

Amar,

Ser amado,

Escrever no teu corpo os meus frágeis dedos,

Amo-te,

Amo-te sem perceber porque amo a noite,

Amo-te sem perceber porque hoje é noite,

Construída num quadrado de vidro,

Hoje ouvi os primeiros dos últimos sussurros dos pássaros daquele jardim envenenado,

Não sei, meu amor, escrevo-te sem saber se existes nesta Galáxia de alegria,

Amar,

Ser amado,

Amo-te sem perceber as palavras do teu corpo,

O poema,

A paixão,

A caricia das tuas mãos escondidas num caixote de sonhos,

Os desenhos, também eles te amam,

Meu amor,

Os barcos,

Os livros,

Cobrem a tua pele…

Sentado em ti,

Embrulhado nos teus beijos,

E mesmo assim,

Não quero regressar a uma Lisboa iluminada por Cacilheiros

E soldados de papel,

Ouvíamos os comboios em direcção a Cascais,

Belém brincava nos nossos braços,

E havia sempre uma esplanada para aportarmos,

Éramos âncoras de luz

Olhando as geométricas quadrículas do sexo,

Gemias,

Meu amor,

Entre poemas e poemas de ninguém,

Éramos odiados pelas serpentes dos eléctricos,

E pelos insectos da madrugada,

Fumávamos todos as estrelas,

Ignorávamos todas as pontes

E todos os abutres de aço,

Felizes eles,

E elas,

E eles,

Meu amor,

Fugíamos das noites com cortinados de desejo,

Tínhamos na nossa cama a solidão,

Os barcos de há pouco recordados,

Os acentos acorrentados à maré inseminada pelo pôr-do-sol.

Não o quero,

Meu amor,

Não o quero no meu corpo,

Na minha alma,

E nas minhas raízes…

Só elas conseguem aprisionar-me ao amanhecer,

E só tu consegues libertar-me desta cidade a arder…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 24 de Junho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:15

14
Jun 15

Não sei onde habita a navalha de sombra

Que espetaste no meu peito,

Era noite,

Criança melancólica em pedaços de luar,

A vida parece uma roldana,

Sem tempo,

Horário,

Alimentando-se das horas,

Gritando as palavras dos teus lábios,

Em milhões de grãos de areia,

A fogueira no teu cabelo,

A caricia nas tuas mãos que só a madrugada sabe desenhar,

Não sei,

Porque me olha este jardim sem olhar,

Sem corpo,

Imune ao peso,

E ao vento,

Voa,

Sobre os Cacilheiros de prata,

Suicidando-se no Tejo…

Não tenho corpo também,

Sou um rochedo de xisto

Sem destino

Descendo a montanha até ao rio,

Morri…

Oiço-o nas catacumbas da prisão,

Encerraram-lhe as janelas

E o mar

E as árvores com janelas,

E um dia acordará no vazio cubo de vidro…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 14 de Junho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 17:40

06
Nov 14

Quando as algemas do silêncio poisam no meu finíssimo pulso de fugitivo,

ando em viagem há quarenta e dois anos,

sonhei dentro de um paquete,

que hoje...

hoje apenas sucata,

voei sobre a cidade do beijo,

e...

e do Tejo,

cansei-me dos apeadeiros sem transeuntes,

desertos,

sós... como os pedintes,

só... como o desejo,

 

Fui vagabundo nocturno,

magala desalinhado,

obstruído nas catacumbas da solidão,

drogado de profissão...

embriagado das sanzalas de granito,

com fotografias para o obscuro corpo de uma bailarina,

quando as algemas do silêncio poisam...

e eu, e eu longínquo como os pássaros em cartão,

dormi na rua,

vagueei pela cidade à procura de nada,

apenas caminhava...

e não acreditava,

 

E não acreditava na ausência,

e...

e no amor eterno,

amor de “merda”

só a cidade me alimentava...

e acolhia,

apaixonei-me por cacilheiros e marinheiros invisíveis,

fui trapezista junto à Torre de Belém...

e sentava-me no pavimento cansado dos fins de tarde,

imaginava-te num caderno de desenho Cavalinho,

escrevia nas páginas adormecidas do “Doutor Jivago”...

e hoje pertenço às “Almas Mortas” do Nikolai Gogol.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:46

21
Jul 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Uma,

Apenas uma palavra, uma só...

Pensa numa palavra e escreve-a na minha mão,

Vou... vou escrever rui, é isso, RIO,

Una única palavra à janela dos teus lábios misturando-se no teu olhar o apaixonado rio, barcos e filhos, em círculos como crianças em volta de uma lareira imaginária, lágrimas de cacimbo engolindo sombras de mangueira, barcos e filhos, Cacilheiros e pontes, atravessávamos e do outro lado, o Seixal, e rumávamos a sul, paragem em Silêncios de Nada, uma pequena aldeia minúscula encalhada entre a poesia e um reles texto de ficção

(não revisto)

Claro que sim, não revisto, não aprovado, não

Vês, apenas uma palavra, RIO... e nas tuas mãos sei que habitam sorrisos, Louco, eu?

Claro, louco tu, porque

(não revisto)

Porque de uma palavra é impossível construir um texto, porque de um RIO é impossível viverem barcos e filhos e Cacilheiros, e dormirem pontes, e caminharem sobre ele

Comboios,

Filhos e filhas, e os pais, os barcos de braço dado em frente a um espelho, bâton nos lábios, desejos na boca, sigilo profissional, e tudo o que disser será usado contra a sua defesa...

(Foda-se)

Já o sabia, estes cabrões destes barcos novos... mal começam a navegar e já deixam entrar água e outros objectos indesejáveis aos habitantes portuários das Ilhas dos Pássaros Adormecidos, lembras-te amor?

Amor, eu? Qual amor seu parvalhão? Vai chamar amor ao...

Uma, vês, apenas uma

Parabéns ao vencedor!

Apenas uma e tu ficavas a perceber como se constroem os muros nocturnos das cinzentas escadas de acesso ao céu..., enrolavas-te numa toalha de linho

Eu? Deves ser malucos..., eu nunca, nunca...

E punhas-te à varanda a desenhar marés nas gaivotas com boca de Cacilheiro, ouvíamos os apitos, ouvíamos os muitos gemidos do pôr-do-sol, e ouvíamos o maldito som do Cuco do relógio de sala, sempre desgovernado, tu,

Amor, são quatro horas,

Eu,

Vai chamar amor ao...

Olhava a parede sonolenta e ele parado, estacionado ao lado do crucifixo em madeira, não sei muito bem porquê..., mas sempre

Eu? Porquê?

Tive, mas sempre tive a sensação que ele me espiava, quando entrava em casa madrugada dentro, embriagado, fazia-me de invisível e sabia que tu...

Porquê?

Amor, és tu?

Vai chamar amor...

Não, não sou eu, sinto muito, deve ser o Cacilheiro do quarto esquerdo, a brincar no ascensor, subindo, descendo, parando..., subindo, descendo, descendo, descendo,

Amor?

Olhava a parede sonolenta e ele parado, estacionado ao lado do crucifixo em madeira, não sei muito bem porquê..., mas sempre

Eu? Porquê?

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:39

27
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Sentia os rosnares engasgados dos automóveis ensanguentados pela paixão que em noites de escuridão, descia, solenemente, tristemente, às vezes, digo-o, alegremente, Porque não? Se o meu peito era o porto de abrigo dos teus braços de arame fingindo fileiras de madrugadas sobre as sobrancelhas antes de acordarem as manhãs, depois, o mesmo de sempre, a tempestade de sempre, a vida, sempre a vida em vida, completa, complexa, imunda, desperta como as flores do teus olhos, meu amor, meu amor das árvores envelhecidas, e do mostrador de um relógio, tu, a tua pele, os teus ossos em plasmas de fim de tarde, as rugas, os teus medos, o aço do teu peito quando o poisavas em mim, entre nós, réstias de insónia, angústias que provocavam os cigarros depois de fumados, havia no tecto do desejo, uma linda colorida lâmina de luz, camuflada, como tu, escondido entre o zero e o mil novecentos e oitenta e oito, nove vezes nove, atravessávamos o rio, olhávamos a ponte enferrujada pelos beijos das gaivotas sobrepostas nas rimas que sobejavam dos loucos poemas que tu inventavas, e sentias-me dentro de mim, e sentia-te deitado no perfume que atravessava a ruela entre gemidos e assobios do amolador de tesouras,

Eras tu?

O sangue, o teu, o meu, sabia-nos a poemas envenenados pela neblina de uma cidade flutuante, cacilheiros de ossos procuravam lânguidas línguas de prazer, comíamos coisas esquisitas, frágeis, como corpos acabados de nascer, tínhamos o prazer guardado dentro da gaveta da mesa-de-cabeceira, sobre nós, uma pilha de livros, e nervos, e plantas que eu, tu, que nós nunca percebemos para que serviam, apenas viviam, como nós, simples sombras, complexas manhãs de iodo, a areia fundia-se e filmava-nos como um espelho de luz a absorver os orgasmos das palavras esquecidas na ardósia que havíamos suspendido na parede da sala de jantar, amar-me-ias?

E eu sentia, as plumas do teu peito deambularem nas janelas gradeadas que escondiam o sofrimento das nossas almas, não, não consigo recordar os Sábados entre feiras de velharias e as idas à feira da ladra, ouvia-te numa roleta de casino clandestino, apostava-te todo, e saía-me um par de ases, porra, fico teso, uma semana, um mês, dois, três meses de miserabilidade, e no entanto, sabia-me feliz, subia cambaleando as escadas que me levavam aos teus braços de roseira bravia, indomável, e trazia na boca as sombras do hálito do vodka misturado com sumo de laranja, deixa-te sobre a mesa um bilhete de despedida, “regresso dia 23”, e sabias que eu, jamais regressaria, porque a minha vida é como uma roleta do casino clandestino,

Sempre, sempre saem asses, e sempre que eu perco, e no entanto

Contente, feliz, ausente, sou uma roleta em círculos em busca de uma par de ases, apenas um, um só,

Tinhas a certeza que era eu?

Diziam-me que sim, e no entanto, tu, e no entanto, eu, e no entanto, nós, dois corpos misturados na penumbra solidão procurando uma, apenas um, par de ases,

Pouca, coisa, a nossa triste história,

Tinhas a certeza que era eu?

Nem eu, nem eu,

Regressamos a nós.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:53

10
Jan 13

Dos dias supérfluos mergulhados na fome orgânica vêm as palavras azedas fel que depois de acordar a manhã morrem contra os rochedos de espuma desenhados pelas mãos de uma mulher imaginada por um cego, húmidas flores palpáveis que os lábios do sonho deixam ficar dentro dos lençóis de maré em cada final do dia, acorda a noite, e despede-se o louco da razão misturando as drageias nas palavras sem sentido, escritas nas paredes vadias de uma casa de banho pública, o urinol agarrado à parede invisível que o homem pequeno transporta nas algibeiras juntamente com os cigarros, os beijos e todos os desejos,

Desaparecem,

Morrem,

Fingem-se cansados depois de um fluido misturar-se com o olhar do vizinho do lado saboreando mentalmente o pénis alheio, o cego, sentia-o como se sentem as picadas no peito quando o verdadeiro amor tomba no pavimento de areia de um quarto de pensão, quinto andar, águas-furtadas, e lá fora, todas as abelhas

Desaparecem,

Morrem,

Sem saberem que dividíamos os pedaços de prazer em pequenos punhados de sombra saltitando sobre as colmeias de voo das gaivotas parvas que junto ao mar brincavam, as árvores despiam-se com o calor incandescente das lâmpadas de néon habitando as ruas da cidade sem perceberem, sem saberem

Dividíamos os sonhos, deviríamos os desejos, e todos os beijos

Fingiam-se cansados depois de um fluido misturar-se com o olhar do vizinho do lado saboreando mentalmente as clarabóias suspensas no tecto da paixão, vivíamos devidamente sem sabermos, sem percebermos

Os raios de sol das tardes de Agosto quando o Tejo vestia-se de cacilheiro, e os cacilheiros passavam a ser homens com cabeças de abobora, e elas

Dividíamos os sonhos, deviríamos os desejos, e todos os beijos

E elas desapareciam, morriam,

Todos,

Todas,

Como morrem as flores que amamos.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:55

29
Jul 12

Falta-me tudo... e a noite

longínqua esconde-se dentro da caixa do silêncio

oiço as vozes que sobejam do caixão do sorriso...

e deixei de ter vontade de sorrir

e deixei de acreditar

nas luzes e nas estrelas e no rio onde brincavam cacilheiros

no final do dia

a ponte

gente louca travestida de insónia

falta-me tudo...

as janelas

e as portas de saída para a noite.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:38

05
Ago 11

Adormeço os meus lábios na doce almofada da noite,

 

A minguada sombra do meu corpo projetada na parede, Estou tão magro, mãe!, pergunta-me porquê, e que nem eu sei, segredo-lhe com um beijo na face amarrotada dos anos e das canseiras da vida,

 

Provavelmente das geadas de inverno, provavelmente dos socalcos do Douro, provavelmente da idade, provavelmente porque envelheço duas vezes ao ano, adormeço várias vezes por noite, e caminho diversas vezes durante o dia em círculos à volta da fogueira, a cinza do cigarro dilata-se na minha mão que não serve para nada, nem para acariciar o rosto de uma flor, nem para poisar sobre o vento,

 

E ficas tão bonito quando desfazes a barba!, e digo-lhe que não sei, Não sei mãe, nunca me olho no espelho do quarto, tenho medo, e possivelmente deixe de desfazer a barba e cortar o cabelo,

 

Ser livre como as árvores de ramos ao vento, voar como os pássaros e poisar onde me apetecer, ser livre enquanto o meu rosto adormece na doce almofada da noite, e as minhas mãos chapinham nas ondas do mar, Fiquei desiludido, mãe!, a voz dela cansada Porquê, meu filho?, e as minhas palavras colam-se no silêncio da ténue luz do candeeiro, Li um poema de AL Berto em que ele dizia  “o mar entra pela janela”, e noite após noite, Mãe!, nem o mar nem notícia boa,

 

Porquê, Mãe?,

 

Adormeço os meus lábios na doce almofada da noite, em vez de o mar entrar pela janela entram-me as ruas de Lisboa, o Tejo e os cacilheiros, Belém e o comboio para Cascais, os jardins e a ponte, os carros estacionados na peugada do engate e mangalas que faltam pela janela e se suicidam à porta de armas, e o sargento em pedacinhos de enjoo apanha os desperdícios que vacilam pela calçada, ao fundo o rio, E adormeço, mãe!, e quando acordo, Quando acordo, mãe, não existe Tejo, não existem cacilheiros, não existe Lisboa, O que existe, mãe?, apenas o cheiro dos bares de Cais de Sodré às cinco da manhã, e a pé até Belém acredito que amanhã está sol, E sabes, mãe?, vou à janela e não sol,

 

Nuvens penduradas no céu e vontade de fugir.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 16:56

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