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Cachimbo de Água

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Menino sem destino

Francisco Luís Fontinha 17 Dez 17

Conheci-te na plenitude da vida,

Eras uma árvore sem destino,

Cansada de habitar o meu jardim,

Parti e ficaste suspensa no cacimbo, e, até hoje, vives na clandestina noite,

Ausente,

Permanentemente sofrida com os corpos que abraçaste,

Longínqua tarde de despedida,

Nada a fazer, meu amor,

A saudade alicerça-se ao olhar dos flamingos,

Saltitando na tua sombra,

A morte, a sofrida morte entre parêntesis,

Numa pequena folha de papel…

 

Conheci-te era eu criança, menino sem destino,

Brincava nos teus braços,

Como se fosse uma andorinha na Primavera,

Alegre, agachava-me debaixo de ti, meu amor,

E, alegremente sonhava com os teus frutos,

As mangas, as folhas caiam derradeiramente sobre o meu cabelo,

E dos calções, as primeiras palavras escritas no teu tronco,

 

Amo-te!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 17 de Dezembro de 2017

A última ceia

Francisco Luís Fontinha 16 Fev 17

Nesta cidade me suicido

Com a lâmina de barbear

Que sobejou da última ceia…

As árvores acompanham-me até ao túmulo

Onde dormirei até ao amanhecer,

Depois, depois serei levado por uma jangada de solidão,

Levo na algibeira as amarras,

A pequena bagagem, o indispensável,

Alguns livros,

Papel, caneta… e pincéis,

Nesta cidade me suicido

Como um cão raivoso,

Revoltado com as notícias do jornal,

Vende-se,

Compra-se oiro,

Aluga-se apartamento junto ao mar…

E do meu corpo nem conseguem falar,

Apenas que o silêncio deixou de habitar as minhas tristes mãos de porcelana,

O cansaço,

O cansaço de escrever sem perceber onde nasci,

O que faço aqui? O que faço nesta cidade pintada a preto-e-branco,

Os muros dormem enquanto desenho um sorriso na terra queimada pelo vento,

Sinto o azoto do amor descer a calçada e alicerçar-se no rio,

Sinto a alvorada a comer-me…

Nesta cidade onde me suicido,

Com a lâmina de barbear…

Da última ceia… o perigo de acordar antes do sono,

O ultimato lançado pelo desejo para que eu seja depositado num aterro sanitário…

Não, não me agrada a ideia de ser comido por coisas simples

Que alguém deitou fora…

E morre o poema sem que o poeta se levante do chão ensanguentado pelos beijos da madrugada,

O papel arde,

A caneta sonolenta, tomba no pavimento encharcado de sémen…

Apagam-se todas as luzes,

Apagam-se todos os silêncios…

E apenas eu, só, nesta cidade enraivecida pelo cacimbo.

 

 

Francisco Luís Fontinha

16/02/17

A morte da verdade

Francisco Luís Fontinha 14 Out 15

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Fontinha – Outubro/2015

 

A estátua que habitava no teu peito

Esta sentada, hoje, numa cadeira sem jeito,

Brinca, hoje, num jardim amarrotado por mãos inanimadas,

Como são tristes todas as madrugadas

E todos os versos do poeta,

Como são tristes todas as manhãs embriagadas

À mesa com um qualquer pateta,

Um imbecil encurralado na noite

Esperando o acordar de um relógio sem alma,

Chora, acredita nas lágrimas do sofrimento,

Chora, e inventa o inferno

No corpo do vento…

 

A estátua… não se cansa de dançar

Sobre a tua pele grená…

Os lábios manchados de sangue,

Os braços entranhados na face de um inocente,

Chora, acredita na liberdade,

Chora, acredita na saudade

Dos ausentes corpos de esferovite,

Grita, grita contra o muro invisível da prisão,

Morre a verdade,

Morre o ditador em pedacinhos de cacimbo…

Rasga o convite

E fica esquecido no tédio limbo…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

As espingardas do coração abandonado

Francisco Luís Fontinha 29 Ago 15

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(desenho Francisco Luís Fontinha – Agosto/2015)

 

Deixou de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,

Deixaram de escrever as palavras do vento estas mãos esfarrapadas,

Longínquas do olhar da madrugada,

O medo alicerça-se ao peito, as facas do silêncio grunham como as serpentes envenenadas pela noite,

O tédio quando esqueço a solidão e construo círculos de luz nos teus seios…

O teu corpo desabitado, encurralado nas cordas de nylon dos Oceanos mendigados,

E não consigo perceber o amor das flores desenhadas nos teus lábios perfumados,

Como nunca percebi o desejo em mim do estranho luar…

E este mar, meu amor,

Crucificado nas espingardas do coração abandonado,

Semeado nas searas do cansaço…

É triste, meu amor…

Deixar de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,

É triste, meu amor…

Cair sobre mim o tecto do sofrimento junto ao Tejo,

E os Cacilheiros na minha boca… sufocando-me com o relógio enforcado nas pontes do Cacimbo fugindo do pôr-do-sol…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 29 de Agosto de 2015

 

O menino da preia-mar

Francisco Luís Fontinha 6 Dez 14

Há feridas invisíveis no teu sorriso

que nem o espelho da saudade consegue desenhar,

pareces uma fotografia embalsamada,

sem alma...

esquecida num qualquer lugar,

há feridas invisíveis...

e crateras de espuma

que só as tuas pálpebras alicerçam às meticulosas palavras sem destino,

 

em ti o menino vestido de preia-mar

que corre e correr... e corre sem se cansar,

em ti e de ti...

as feridas entristecidas dos biombos nocturnos da vaidade,

 

esta cidade,

o teu corpo vagueando no sexo da paixão

como um cadáver enraivecido... fundeado no rio sombreado pelo incenso...

uma carta sem destino que te bate à porta,

um carro preguiçoso em tristes aventuras,

há feridas invisíveis no teu sorriso

que os cigarros da despedida alimentam,

mas... mas no teu olhar cessaram as lágrimas de chocolate,

 

em ti

e de ti...

 

a mentira do silêncio embrulhada na portaria

de pequeníssimos fios de luz,

o teu livro preferido que arde... enquanto se extingue o dia,

dentro dos teus seios,

 

em ti

e de ti...

 

o cansaço abstracto das montanhas de papel,

os rochedos envenenados pela noite dos marinheiros

e que tu não entendes os seus medos

e inquietações,

não me ouves... porque a minha voz pertence ao cacimbo

e do cacimbo emerge como uma lâmina de sangue,

em veias de nylon

ao deitar.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 6 de Dezembro de 2014

Triciclos de luz

Francisco Luís Fontinha 23 Nov 14

Sinto a falta do fumo do teu cigarro,

não percebo a ausência das tuas mãos...

quando poisavam no meu rosto,

e dos teus lábios sobejavam palavras que não me cansava de ouvir...

sinto a falta do teu olhar embrulhado no cacimbo,

e das mangueiras que brincavam no nosso quintal,

desenhando bonecos de sombra no meu peito,

sinto a tua falta...

e imagino-te a galgar o portão de entrada com um brinquedo debaixo do braço,

e eu...

e eu adormecia no teu colo,

sonhando com barcos de papel e triciclos de luz...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Novembro de 2014

madrugadas de azoto

Francisco Luís Fontinha 1 Mai 14

não queiras ser como eu

não o desejes sabendo que o desejar não existe

é um fantasma vestido de saudade

é uma estrela embrulhada em madrugadas de azoto

como os nossos braços

abraçados à árvore do desgosto

 

não tenhas medo do vazio

dos buracos negros que existem no teu corpo

não o queiras

desiste

viaja para o cimo da montanha

e acredita no Luar

 

não chores

não adormeças...

não queiras ser como eu

um baobá esquecido no cacimbo

um cigarro imaginário em pedaços de suor sobre a tua pele de cortinado amanhecer

não não queiras ser como eu... um desejo com sabor a envelhecer.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 1 de Maio de 2014

sonhos com sabor a papel...

Francisco Luís Fontinha 15 Abr 14

nos teus lábios habita o solstício da paixão

sinto o odor cansado do teu cabelo voando sobre as sombras da solidão

há lágrimas no teu sorriso

há insónia na tua noite construída de trapos e cortinados negros

e dos teus olhos

o silêncio das caricias desenhadas pela mão de um coração

sinto-o

e oiço-o

como os sonhos que vivem dentro de mim

nos teus lábios habita o sofrimento envenenado

e lá fora alguém grita o teu nome

sons metálicos cambaleando sobre a dor

traços

triângulos

círculos com olhos verdes

nos teus lábios a imagem da criança em pequenas viagens

espera pelo machimbombo

um homem puxa-o com um cordel imaginário

e de rua em rua

e de casa em casa

leva mangas e cacimbo e capim

tem nas mãos a dócil fotografia de uma cidade perdida

o mar alicerça-se às pernas do menino...

a criança vê nos zincos telhados outros meninos

meninas

e sonhos como os dele...

sonhos com sabor a papel...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 15 de Abril de 2014

Bocas famintas

Francisco Luís Fontinha 30 Mar 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Sou absorvido pelos tentáculos da insónia,

dou-me conta da noite triste,

confusa, e só...

pertenço às paredes límpidas da solidão fantasma, às vezes, ela, veste-se de livro,

e dorme na minha mão disfarçada de rocha ensanguentada com dentes de leão,

outras, ela parece o cortinado inanimado da minha janela sem fotografia para o mar,

 

Sou absorvido por barcos longínquos das tardes de cacimbo,

sou o portão de entrada do quintal imaginário rodeado de mangueiras e sombras,

oiço o sorriso do embondeiro a sobrevoar o meu olhar, e sei que estou vivo porque alguém pega na minha mão de menino e diz-me que sou filho do Oceano,

sou absorvido por tudo e por nada,

pelas palavras, e pelas montanhas, e pelas ardósias envergonhadas do desejo,

sou... pelos tentáculos da insónia,

 

E.. e dos beijos,

sou um cadáver sem nome,

e enquanto era absorvido... sei lá por quem eu era absorvido!

mãos, pernas, braços, caricias, loucas caricias de mãos desconhecidas,

e no entanto, ainda pertenço aos indefinidos corações de incenso com borboletas cinzentas...

e bocas, absorvido por bocas famintas.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 30 de Março de 2014

Os pobres esqueletos de vento

Francisco Luís Fontinha 20 Fev 14

foto de: A&M ART and Photos

 

O corpo roda e sofre

morre

evapora-se dentro das graníticas rochas do coração de água

límpida solidão caminha nas mãos da mulher apaixonada

ela vive

ela ama

ela... ela é a própria madrugada

e não sabe que dentro de mim habita uma triste palavra,

 

O corpo é como um livro disperso no cacimbo

e alicerça-se ao cais dos mendigos envergonhados

ela senta-se no dorso cansado que todas as quintas-feiras submerge na penumbra noite dos pobres esqueletos de vento

morre

ela vive

ela ama

ela... sente o pólen mergulhado no soalho da insónia

e dos lençóis do desejo... ela absorve o sémen do poema acabado de nascer...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

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