Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

28
Jun 17

A casa desocupada e infestada de bichos marinhos,

Os ninhos do meu quintal estão recheados de pergaminhos,

Palavras soltas,

Palavras mortas,

Vivas palavras rompendo a madrugada,

Sem nada,

O infeliz meu corpo deitado na casa desocupada,

Escrevo no chão,

Minha mão estremece a cada sílaba adormecida,

Vomito poesia sobre a janela envidraçada,

E imagino a louca Calçada…

Ajuda, não ajuda,

O eléctrico dorme na minha cama esganiçada,

O comboio para Cais do Sodré engasga-se em Alcântara Mar,

E o sonâmbulo adormecido descarrilha ao passar pela minha sombra,

Uma tragédia, meu amor,

A casa,

Desocupada e infestada,

De livros,

Quadros,

Esqueletos…

E restos de ossos,

Poeira,

Alvorada fora até ao nascer do Sol,

Bebedeira, o esqueleto cambaleia…

Saltita,

E volta a adormecer no meu peito,

Nada me resta,

Nada tenho para te oferecer, meu amor,

A não ser, a não ser… algumas velhas flores,

Pedres,

Envelhecidas como nós.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 28 de Junho de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:04

29
Nov 15

Estou só

Neste labirinto de lágrimas salgadas

Sento-me e espero o regresso do teu olhar

Que vem do outro lado do Oceano

Trazes-me o sonho e a saudade dos musseques sombreados

Trazes-me a voz e o desejo

E eu sentado nas asas em papel que inventaste apenas para mim

Olho-as e vejo nelas a desfocada imagem do teu olhar entre os parêntesis da saudade

Uma criança entre baloiços e sobejantes sorrisos prateados

Espera-te junto a um portão imaginário

Entras

Ela abraça-te e afogas o cansaço do dia na minha face

 

Não tenhas medo do mar

Nem dos barcos invisíveis

Não tenhas medo das árvores

Nem dos pássaros amestrados que brincam nas mangueiras

Desenha na terra húmida os círculos os quadrados e os triângulos da alegria

Depois vais conhecer o amor

E a paixão de amar

E a solidão do amanhecer

Estou só

Neste labirinto de lágrimas salgadas

E pareço um marinheiro aportado em Cais do Sodré…

Vendendo insónia e coisas enigmáticas de chocolate.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

domingo, 29 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:22

31
Out 15

Tive um amigo que morreu de silêncio,

Paz à sua alma,

Tive um amigo que se cansou da melancolia dos dias, das noites, das noites sem noites depois das noites, vivia acorrentado a uma árvore, eu, acreditava na inocência dos seus lábios, encardidos pelo temporal, desgastos pela insignificante margem do rio onde brincavam gaivotas e marinheiros, e sucata de mim

Ontem fui a um bar em Cais do Sodré, sentei-me, viajei até mil novecentos e oitenta e sete, era dia, corríamos embriagados em direcção ao medo, havia conquilhas e cerveja à mistura, como sempre, este amigo, embriagado pelas minhas palavras,

Amo-te, dizia ele, quando percebia que a escuridão se entranhava nos meus ossos de veludo, que eu, semeado na seara do vento, tinha medo, sentia a solidão sobre o meu peito, havia noites de tortura, havia noites de desequilíbrio mental, a loucura, o Tejo no meu quintal,

E sucata de mim,

Que boiava nos teus cabelos, meu amor, e sucata de mim espalhada pelos sítios mais incógnitos da nossa casa, um palheiro, simples, e felizes, assim,

Acorrentado, tu, meu amor, nesta cidade de Cais sem destino, de barcos sem comandantes, ou cordas de nylon invisíveis, e mesmo assim, recordo-te, amar-te talvez, um dia, amanhã, depois de amanhã… ou ligo, talvez, talvez meu amor,

No meu quintal,

Uma sanduiche de sódio baloiçava nas minhas veias, sentia a morte, o fim, a despedida, não faz mal, meu amor, amanhã, talvez, no meu quintal, eu, em Cais do Sodré, abraçado a ti, sem ninguém, amanhã

Tive um amigo que morreu de silêncio, frequentava a minha poesia, uns dias aparecia outros…

Amanhã, não saberei se tu,

Outros… uma cancela de vidro,

Se tu me amas, se tu, se tu me recordas como recordas as tristes alvoradas em frente ao Tejo,

Outros, e mais outros, não sabiam que o amor é um cubo de chocolate, só, triste e só, como eu

Tejo?

Outros…

Amanhã, não saberei se tu,

Outros… uma cancela de vidro, um comboio em aço desgovernado subindo a Calçada da Ajuda, e

Ajuda nenhuma, sempre só, meu amor, sempre, sempre só nos teus braços, nos teus fantasmas, nas tuas coxas de silício mergulhadas na corrente eléctrica do sofrimento, Tejo?

Talvez, meu amor, talvez…

Tive um amigo.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:26

24
Jun 15

Dançavas-me entre sombras de prata

E nuvens de silêncio,

Snifávamos o sorriso do rio,

Fumávamos os barcos aportados num qualquer coração sem alma,

E éramos felizes,

Como são felizes todas as marés curvilíneas da saudade,

Como éramos felizes embrulhados no fumo do “Texas”… meia-noite em ti,

Uma da manhã em mim,

Bebíamos todas as palavras poisadas em cada mesa,

Amávamos todos os abutres da noite

Que deambulavam sobre nós,

Dançavas-me…

E nuvens de silêncio,

E beijos,

Líamos e inventávamos círculos de papel,

Escrevíamos em todos os corpos dos corpos sem corpos.,

E não sabia que existiam beijos de esperança

E cabelos de infância,

À nossa volta,

Gajas,

Gajos como nós,

Voando em direcção ao mar,

Desenhávamos o abraço numa qualquer lápide,

Uma fotografia tua…

Olhos verdes,

Olhos castanhos,

Olhos… olhos enfeitados de naftalina,

Dançavas-me,

E eu não sabia que o amor se escrevia na margem esquerda do teu peito,

Ouvia-o…

O teu coração de pedra,

Ouvia-as…

As tuas coxas suspensas na mão de um qualquer gajo,

Como nós,

Gajos como nós,

E gajas,

E gajas como tu…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 24 de Junho de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:46

30
Abr 15

O significado da paixão

De todas as noites

Encerrado entre cinco paredes

Um pavimento

E tecto

Aluga-se

Meu amor

Barato

Farto das palavras

E do sindicato

Todos os Domingos

Feriados…

E… Domingos

Lembro-me de ti

Meu amor

Da carroça de bois

Penhorada ao silêncio

Das ervas

E

Dos cheiros

A morte alimenta-me

Sinto-a perto de mim

Como sentia o cheiro a “puta”

Quando…

Lisboa

Cais do Sodré

Fome

Não fome

E literatura

Farto-me

De ti

De mim

E deles

O significado da paixão

Pintado na parede da solidão

As palavras reduzias ao pó da insónia

Cresce

A

Noite

Em ti

Meu amor

Das palavras

E palavras

Limitada

Angola à vista

Apenas no mapa da infância

Meu amor

As sílabas apaixonadas do teu corpo

No meu corpo

O inferno

A chuva

Outra vez…

A paixão

O ódio das tristes tardes no jardim

Outra vez o jardim

E o beijo

Outra vez a vida

E o desejo

Em ti

Das minhas tristes palavras…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 30 de Abril de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:33

22
Out 14

Vão morrendo as palavras de amar

quando desperta no amanhecer

o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar,

 

Faço-me à vida,

caminho sonâmbulo sobre a fogueira dos meus poemas

até que eles se transformem em nada,

olho-me no espelho da agonia, sinto na garganta a tempestade da paixão,

carrego nos ombros o peso do meu próprio caixão,

em vidro, e com fotografia a preto e branco para o mar,

saboreio o teu corpo nas pálpebras verdes dos livros não lidos,

perco-me em ti... sem saber se amo, sem saber se estou vivo nesta campânula de lágrimas,

e o desassossego inventa-me como se eu fosse um papagaio de papel,

de muitas cores,

como muitas cartas de amor

no tempo destruídas pelas suicidas lâminas da geometria,

 

Tenho saudades de ti...

minha Lisboa, meu amado Tejo... meu amante Cais do Sodré,

percebia nas paredes húmidas da noite um corpo em translação,

uma puta que procurava um ombro de gesso,

um gajo embriagado que cuspia finos fios de fogo...

e terminava quando a cidade acordava,

eu amava, eu não amava...

eu sentia nas amoreiras flores o beijo de ninguém,

o pavimento paralelepípedo da tristeza começava a transpirar,

ouviam-se os gemidos delas, ouviam-se os gemidos deles...

e ao longe,

um apito encurralado entre carris de aço em direcção a Belém,

 

(Vão morrendo as palavras de amar

quando desperta no amanhecer

o quadrado silêncio mergulhado no círculo lunar),

 

Esquecia as mãos na algibeira,

iluminava-me na fragrância madrugada quando um banco de jardim corria para o rio,

misturava-se com um velho Cacilheiro, às vezes... tossindo, às vezes... às vezes coxeando...

como um mendigo prisioneiro de um vão de escada,

como um marinheiro em busca de sexo, drogas... e um par de asas...

nunca voei,

e havia noites que sobrevoava a minha amada Lisboa,

como um louco,

como um prego de aço no barbear da manhã...

disfarçava-me de ponte metálica...

e desenhava sorrisos nos vidros pintados de negro embalsamado,

até morrerem todas as palavras de amar...!

 

 

Francisco Luís Fontinha

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:00

07
Mai 14

despertavas como um relógio sonolento

de ponteiros afiados

cansado

despertavas em mim a claridade do dia ainda por nascer

crescias

e... e desaparecias entre as velhas folhas da árvore do sótão envergonhado

despertavas e brincavas sobre o meu peito de Oceano anónimo

dizias-me que eu era uma rua sem saída

da cidade com néons de meninas coloridas

sentia-me um náufrago procurando lençóis de linho

sentia-me um sem-abrigo correndo para a tua cama...

desaparecias e despertavas,

 

eu sonhava com barquinhos em papel

papagaios de pálpebras dilatadas

pensava que o Luar era o teu olhar prisioneiro na calçada dos esqueletos de vidro

e...

despertavas

e...

desaparecias

a cidade misturava-se no meu corpo

absorvia-me

e apenas alguns pedaços de mim sobejaram em Cais do Sodré...

e tinha no meu coração uma caneta de tinta permanente

pronta para escrever nos alicerces dos teus beijos,

 

eu voava

enquanto um dos meus cachimbos se masturbava nos meus lábios

e sentia o fumo a invadir-me

e sentia-me foragido

perdido na montanha do amor

amava

era amado

e agora não sou nada...

desaparecias

e despertavas

e eu esquecido na calçada dos esqueletos de vidro...

eu... um transatlântico sem apito na boca.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 7 de Maio de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:16

27
Abr 14

no seu término o dia mistura-se com as sombras do prazer

o teu corpo mergulha sobre o meu peito flácido

quase a adormecer

lá fora há poemas por escrever

palavras vagabundas correndo junto ao Tejo

folheio as pequenas páginas dos teus seios

descubro o significado de “Amor”...

e sinto a paixão a entranhar-se nos meus ombros

 

há silêncios a descer a tua pele de doirado sémen

que acabam por morrer

semeiam-se nos límpidos lençóis de seda

como jangadas esquecidas em Cais do Sodré...

afinal... o sonho são as pequenas páginas dos teus seios

à janela do “Adeus”

simplesmente inventando soníferos de cartão

e livros a arder

 

há em ti um púbis construído de andorinhas

e flores de papel

e no seu término...

o dia... o dia cansado de viver

como se o teu corpo embrulhado nos meus braços de aço laminado

adormecesse vivesse amasse e morresse

e descubro o significado de “Amor”...

e de ser “amado”.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 27 de Abril de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:11

25
Mar 14

Aqui vou procurando as sílabas perdidas em ti,

aqui abraço o cansaço dos teus lábios,

aqui adormeço, aqui... aqui habito como um sonâmbulo embriagado,

uns dias olho o luar, outros... outros apetece-me chorar,

aqui não há mar,

gaivotas,

cacilheiros travestidos de neblina,

aqui, eu, percorro as cinzas do teu olhar,

e sonho, e penso, e quero partir como partem as andorinhas depois do término da Primavera,

aqui me esqueço, aqui...

aqui fundeio o meu cadáver de pano,

e grito, Aqui... Aqui a vida é um engano,

 

Aqui me amanho como um rebanho de desejo,

escondo-me na montanha do adeus, e nada, e nada,

aqui tenho livros que não quero ler,

odeio as palavras, odeio o querer...

querer que não tendo vou ter,

o quê?

 

Que aqui vou procurando as sílabas perdidas em ti,

os jardins sem flores,

as nuvens tão negras, tão negras... que é sempre noite,

sempre... sempre noite,

aqui não há Cais do Sodré,

machimbombos, mangueiras... papagaios em papel colorido,

aqui me enforco, aqui habito imaginando que tenho ossos, que tenho vida...

tecto com estrelas em chita, aqui... aqui nada me excita,

nem as palavras, nem as imagens das fotografias assassinadas,

aqui não há madrugada,

amanhecer,

aqui, aqui apenas existe dor, aqui, aqui apenas existe... engano.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 25 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:52

06
Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

A insignificante maré de desejo que a palavra deixa sobre o corpo envelhecido da morte

a espuma translúcida do abismo camuflado nas noites em delírio

o cigarro mal apagado

caminhando ruas pouco iluminadas

cadentes

velhas...

calçadas permitindo o sexo sobre os fantasmas das cortinas de fogo que saltitam do circo em miniatura

a insignificante maré que eu sinto na minha algibeira

fundeada em Cais do Sodré...

sem eira nem beira...

a terra não prometida

o deserto que te absorve e alimenta

e come em pedaços de açúcar misturados com azedos olhares

as árvores que sombreiam as tuas mãos de pérola emagrecida...

tão triste

e... e tão querida.

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:33

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