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Cachimbo de Água

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Cartas

Francisco Luís Fontinha 7 Jan 18

Recebo cartas de amigos que não as leio,

Não me apetece ler cartas,

Desgraças,

Ambientes fumegantes nas ruas desertas do meu corpo,

Recebo cartas,

Lembranças,

Livros,

Papéis e velharias,

Cartas,

Cartas de amigos sonolentos,

Recebo cartas de amigos que não as leio,

Esqueletos de prata,

Póstumo o meu nome na tua mão,

As palavras que ardem na lareira,

Como todas as cartas,

Como todos os nomes da minha infância,

Recordações,

Recordações das cartas que recebo…

E não leio…

Não,

Não me apetece ler cartas,

Por favor…

Não me enviem cartas.

Cartas, não.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 7 de Janeiro de 2018

Falsa partida

Francisco Luís Fontinha 21 Ago 15

Partirei sem desenhar o meu nome na alvorada fantasma da vida,

Partirei sem deixar uma sombra deitada na manhã,

Partirei sem vontade de regressar,

Partirei como um sonâmbulo ambulante pernoitando de festa em festa,

Nos lábios do luar,

Partirei descendo a avenida

Que me levará até ao esconderijo da agonia,

Partirei apaticamente para o outro lado da rua,

Sentar-me-ei até que o meu corpo desfaleça,

Tudo esqueça,

A doença,

A amargura

E a tristeza,

Partirei deixando um prato de sopa dormindo em cima da mesa,

Falarei baixinho,

Dócil…

Para ele não me ouvir,

Só me faltava a mim

Levar comigo um prato de sopa,

Uma colher…

E um pedaço de pão

Para alimentar a solidão,

Assim… não saberei partir…

Partirei sem levar os livros,

As músicas mais desejadas,

Partirei deixando na fogueira todas as cartas,

Todas as palavras,

Que nunca deveria ter escrito…

Partirei,

Partirei vestido de pedinte,

Cambaleando contra os candeeiros da saudade,

Não, não vou levar comigo a felicidade…

Porque partirei de livre vontade,

Ao amanhecer,

Sem ninguém saber,

Partirei,

Partirei e deixar-me-ei envelhecer…

Até morrer.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sexta-feira, 21 de Agosto de 2015

As cartas não lidas

Francisco Luís Fontinha 4 Nov 14

Este machimbombo rabugento subindo a calçada,

cá dentro, algumas insignificantes malas sem destino,

uma guitarra,

e um chapéu de palha...

partilhamos os abraços nos cadeirões ensonados,

algures... ouvem-se os pergaminhos nomes das cidades perdidas,

faltam-me os cigarros e os livros que deixei no apeadeiro da solidão,

um lenço de papel chega-me para escrever qualquer coisa parva,

como todas as coisas parvas que faço...

evito abrir os olhos porque do outro lado da rua, uma roda dentada,

sobrevoa as árvores cansadas do Outono,

e este machimbombo que não anda...

 

E este relógio que não pára...

sufocam-me as tuas palavras de viajante que sobejaram de uma carta não lida,

nunca leio as cartas que me escrevem...

também... deixei de escrever cartas,

porque são apenas pedaços de papel,

com... com falsas sílabas,

e prometidas aventuras,

amo apaixonadamente a noite,

a noite travestida de cinzento alento...

amo as pedras acabadas de tomar banho,

quando em finais de tarde...

acorda o moliceiro... e o meu corpo se transforma em machimbombo rabugento.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 4 de Novembro de 2014

acordar

Francisco Luís Fontinha 28 Abr 14

trazes no peito o peso da madrugada

as sílabas cansadas do amanhecer

trazes na mão a velha enxada...

e ao pescoço

o silêncio da alvorada

trazes no peito a mágoa do alicerce invisível

e os fios de luz

em pergaminhos agrestes com odor a limão

trazes a solidão

e as cartas esquecidas na gaveta da lareira...

e hoje

hoje nada acorda de ti que se entranhe em mim...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 28 de Abril de 2014

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