Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

seara negra

Francisco Luís Fontinha 28 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro

aquele que deambula pela cidade

de pêndulo suspenso na alvorada

dá-lhe corda

fá-lo correr quando se ouve a maré dos silvados xistosos nas encostas íngremes do Douro...

há um leve apito de um novo marinheiro

o cachimbo geosmina como serpentinas voando sobre os candeeiros da saudade

o velho relojoeiro engata uma nova carvoeira

decidem os dois romperem os lençóis do desejo quando os segundos ficam suspensos nas ardósias tardes de literatura

há uma cama estonteante com tonturas e pequenos enjoos...

coisa de loucos

 

drogas dizem logo os transeuntes da rua dos abismos...

cansaço... sussurra o Psiquiatra Manel...

 

o homem do homem esconde-se nas ventosas térreas das searas negras

o velho relojoeiro dá a sua mão milagrosa à menina acabada de engatar

ouvem-se as sílabas castanhas borbulhando sobre uma prata de alumínio

chovem as lágrimas da menina engatada

se é a carvoeira ou a mendiga empregada da livraria... eu não o sei...

o homem chove

desculpem... os homens não chovem

choram

não choram

se fodem ou não fodem...

o silêncio sabe-o como sabe o cinzento eléctrico das noites que ejaculam migalhas de pão

sobre uma mesa... uma mesa sem vaidade

 

uma mesa sem...

sentido

pratos

húmidas abstractas colectâneas

toalhas bordadas...

comida pouca

serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro

aquele que deambula pela cidade?

 

uma mesa vestida de eléctrico palmilhando medos

voando sobre a cidade das searas negras

parte de Cais do Sodré e adormece sobre a lápide encarnada do cemitério da Ajuda

não...

não AJUDA nada

pertenceres aos mosquitos de prata que brincam nos relógios de cacimbo

procurando a menina engatada pelo velho relojoeiro

carvoeiro... ejaculam

toalhas bordadas...

comida pouca

serei o velho relojoeiro com olhos de carvoeiro

aquele que deambula pela cidade?

 

- que horas tens meu querido?

 

uma mesa sem...

sentido

pratos

húmidas abstractas colectâneas

toalhas bordadas...

 

… fá-lo correr quando se ouve a maré dos silvados xistosos nas encostas íngremes do Douro...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 28 de Novembro de 2013

Sobre o autor

foto do autor

Feedback