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Cachimbo de Água

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Olhar suspenso nas cerejas do amanhecer

Francisco Luís Fontinha 14 Jul 14

Há um olhar suspenso nas cerejas do amanhecer,

não existem em mim palavras para o descrever, desenhar…

observar como se ele fosse o silêncio do luar,

mas esse terno olhar... existe, tem um corpo, tem uma alma… e tem asas de voar,

sinto-o todas as manhãs, todas as noites quando habitadas pela insónia,

ele grita pela solidão, e ela, e ela aparece-me vestida de branco,

sei que a loucura não só pertence aos humanos,

conheço árvores loucas, pedras ainda mais loucas, e flores… tão loucas como eu…

sinceramente, este olhar, o olhar que está suspenso nas cerejas do amanhecer…, não,

nunca me pertencerá,

talvez…

talvez seja a ténue luz do desejo, talvez tenha um nome, um apelido,

 

Um beijo para me presentear,

 

Talvez,

gritar por ele,

gritarei, gritarei sem o saber,

e talvez, e talvez o venha a desejar…

o querer,

 

Há um olhar que pertence aos sonhos de sonhar,

um círculo, um quadrado… um triângulo no rosto da música mais bela da floresta…

talvez,

talvez esse olhar, o olhar suspenso nas cerejas do amanhecer…

me diga,

me diga o que fazer.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Cerejas de papel

Francisco Luís Fontinha 11 Mai 14

O corpo é de espuma verde,

cintilam nela as cerejas de papel,

o corpo incendeia-se quando cresce a noite nas mãos do desejo,

e ouve-se o beijo,

deambulando nas orgias marés de Inverno,

o corpo em chamas, o corpo Inferno,

como lábios de mel...

a cidade desamarra-se do cais da liberdade,

 

O corpo é de espuma verde,

erva daninha nas encostas da montanha sem amanhecer,

o corpo brinca na lareira inventada dos olhos em verniz envelhecer,

o corpo ginga como uma moeda a morrer,

sei que vês os Oceanos marginais que a cidade embarca,

o corpo diminui, o corpo procura a sílaba tonta com perfume de naftalina, e há uma arca,

e há uma sombra, apenas com uma palavra e que não quero escrever...

o corpo é uma bala com nome de cidade,

 

A cidade a arder.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 11 de Maio de 2014

cerejas

Francisco Luís Fontinha 18 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

não oiço a tua voz desde que terminaram as manhãs de orvalho

abríamos a janela do sonho

e víamos as acrobacias tontas dos pássaros embriagados pelas nuvens de cerâmica encarnada

havia na nossa mão pedaços de desejo

beijos

e réstias dentadas no teu pescoço deliciosamente belo e doce

como as cerejas

não oiço a tua voz fotocopiada desde que percebi ser um ultraleve magoado

uma jangada envidraçada

uma porta mal fechada

não te oiço desde que tínhamos pequenos sons melódicos em vasos de cristal

e brincávamos como crianças à volta de uma lareira esfomeada

 

dizíamos que o Sol era nosso depois de fazermos amor debaixo do candeeiro abandonado

beijos

como as cerejas

os vidros

e as paredes

caquécticas

e às vezes

lá tínhamos de correr em direcção ao mar

 

versos ancorados

quando no cais de desembarque o murcho sexo do marinheiro escapulia-se pelas frestas da madrugada doentia

em cio

corríamos como loucos vestidos de versos

e palavras sobrepostas como posições de embarque

fodíamos sem saber que o fazíamos

em cio

versos camuflados depois das tempestades de areia

tombarem sobre o teu corpo húmido de alvorada

e beijos

e caquécticas amêndoas brilhavam no teu púbis de Segunda-feira à noite...

 

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013

Os cadernos de nós

Francisco Luís Fontinha 1 Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

As cerejas de Deus que nos teus lábios comem as minhas palavras

que das tuas mãos Deus colocou sobre o meu rosto de pergaminho

as sílabas transparentes dos degraus impossíveis de transpor

pelos teus sonhos em silêncios azuis

como as pétalas da rosa esquecida no muro em frente à tua alegre casa,

 

Tínhamos um telhado

onde nos escondíamos nas tardes de solidão

e depois de alicerçares nos teus braços os cadernos de nós

ficávamos assim livres a olhar as nuvens

e a inventar histórias que um jornal de província nos comprava,

 

Tínhamos dinheiro para o pão

e para comprarmos novos cadernos

tinta

e às vezes

sobrava-nos algumas moedas para fingirmos que fumávamos flores enroladas em marés de Inverno,

 

Víamos os barcos a morrer como gente desesperada

cansada de trabalhar

cansada... de viver

as cerejas de Deus... comem as minhas palavras

e deixam os caroços sobre a terra semeada,

 

Víamos os barcos em círculo na janela da solidão

barcos que escreviam histórias

nos corpos amarrotados como o papel higiénico da pastelaria

entre migalhas de torradas e o cheiro a chá de hortelã...

vivíamos felizes sem percebermos que éramos miseráveis.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

O silêncio dos navios

Francisco Luís Fontinha 12 Jun 11

O cansaço da noite

Abraça-se ao meu peito

Milímetros de sol poisam na minha mão

E sou observado pelo sorriso das cerejas,

 

O perfume alicerça-se-me nas narinas entupidas pelos cigarros

Retiro-a desajeitadamente da árvore suspensa na manhã

E nos meus lábios sinto a sua pele gostosa e macia

Perco-me em minutos, saboreio-a na minha boca,

 

Trinco-a e atiro o caroço contra as nuvens

Penso no rio quando me sentava a contar petroleiros na tarde

E agora percebo que o meu quintal

É um silêncio de navios rumo ao mar…

 

 

Luís Fontinha

12 de Junho de 2011

Alijó

Mãe, as dálias emagrecem, porquê mãe

Francisco Luís Fontinha 5 Jun 11

Mãe, as dálias emagrecem, porquê mãe, e o senhor cansado de olho no rapaz que se pendurava na cerejeira, espreitava-o pelos buraquinhos dos ramos, o miúdo mais parecido com um primata, galgava até ao céu os braços da árvore aprisionada ao chão do quintal. Um cão corpulento suspirava na sombra de uma bananeira, e o senhor cansado de enxada na mão gritava com o miúdo, a professora de cana-da-índia em vergastas nas orelhas dos desatentos, o miúdo empoleirado no telhado, e das cerejas acordavam silêncios, tremiam-lhe as pernas, as mãos começavam a descansar e os ramos aos poucos ficavam esquecidos, o miúdo na rua da frente e os ramos na retaguarda, o senhor cansado enfurecido com os óculos e de cigarro ao canto do lábio,

 

- Desce já malvado

 

Malvado seja Deus, e o miúdo em dois passos a trás, toma balanço, e num salto de lince começa a voar e aterra precisamente junto ao cão corpulento, estou safo diz ele, aqui o velho nunca me vai fazer mal,

 

- E agora apanhei-te seu malandro

 

Era o apanhas, deu corda às sapatilhas e nunca mais ninguém o viu, as dálias emagrecem, e porquê mãe, e o velho enraivecido começa a perseguir a sombra do miúdo, mas a distância começa a envolver-se com a tarde, as calças começam a descer-lhe até aos tornozelos, e a enxada agarra-se aos torrões espalhados pelo quintal, suspira,

 

- Desisto… não consigo correr mais

 

O cigarro desfaz-se e um dos dentes sorrateiramente trinca o lábio, as dálias olham-no e conforme o movimento dos ponteiros do relógio de braços abertos na parede da cozinha, as dálias diminuem e tornam-se invisíveis, escondem-se nos calções do miúdo em fuga, e porquê mãe, porque emagrecem as dálias, o corpulento cão faz troça da figura do velho, calças descidas e pernas a afagar o senhor cansado, e pensava, maldito miúdo, grande malandro,

 

- A terra é de quem a trabalha, mas o fruto, o fruto é de quem o colhe,

 

Maldito miúdo.

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

5 de Junho de 2011

Alijó

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