Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

01
Dez 19

Habito neste labirinto de lata.

Desta pobre sanzala abandonada.

Habito neste corpo de ossos,

Alicerçado às muralhas dessa pobre calçada.

Habito neste corpo de chapa,

Cansado da tristeza.

Vejo-me no espelho da beleza…

E apenas observo sombras, linhas rectas envergonhadas.

Habito neste poeirento cansaço,

Nas tardes infinitas,

Que os meus lábios vomitam…

Palavras malvadas.

Palavras bonitas.

Habito no teu cabelo desgovernado pela doença,

Entre gemidos e demência,

Habito na tua boca engasgada na madrugada,

Quando o silêncio não é nada,

Quando a vergonha,

Envenenada,

Dorme na tua mão calcinada.

Habito, meu amor, neste palácio assombrado,

Dentro de livros com personagens moribundas,

Entre xisto e calçado,

Nas montanhas fundas.

Habito.

Habito nos duzentos e seis ossos Outono,

Quando as árvores se despem, e o teu corpo, longe do mar,

Enaltece a maré de chorar.

Habito sem parar,

Neste labirinto do sono.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

01/12/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:27

05
Abr 14

lia no teu o olhar o cansado abismo

aquele homem vestido de naftalina com odor a solidão

eras um livro sem palavras, um livro só, descalço... um livro que todos apelidavam de saudade

lia no teu olhar o silêncio da sanzala de prata

meninos que inventavam amanheceres

e meninas que dormiam fingindo o cacimbo da dor

 

lia e não queria acreditar

que havia sofrimento nos teus desejados ombros

lia e não queria acreditar

que existia no teu rosto lágrimas de chorar

 

rochas embalsamadas, pilares de areia, zinco, zinco que embrulhava a tua mágoa

e eu, eu acreditava que eras em porcelana

pintada de rosa adormecida

e eu, eu acreditava que no teu jardim viviam fantasmas..., fantasmas... meu amor

podia lá ser

podia lá ser..., no teu jardim... fantasmas...

 

lia no teu olhar o triângulo equilátero da tua paixão

pegava nos teus ângulos, calculava o seno e o cosseno do teu mesmo olhar

aquele que eu lia

lia... e deixei de ler

fiquei cego, ou... simplesmente voaste em direcção à ponte sem treliças

e deixei de olhar

 

e deixei de viver

lia no teu olhar o poema envenenado pelo ciume

lia e não mais quero ler

ler... o que diz o teu olhar... meu amor

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 5 de Março de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:48

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