Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

16
Jun 19

Constrói o teu tumulo no silêncio da noite.

Alicerça no teu sorriso todas as palavras da tarde,

Como se fossem cadáveres…

Suspensos nas arcadas da solidão.

Grita.

Corre.

Desce os socalcos até ao rio, senta-te, e, dorme.

Constrói o poema na tua mão,

Abraça-o e foge.

Leva contigo os lábios da madrugada,

Todas as lâmpadas da cidade,

Esconde-te na face oculta da montanha,

Para que ninguém te veja,

Observe,

Absorve,

Os telegramas das ruelas sem saída…

Todas as noites.

Todos os dias.

Constrói em ti os livros não lidos,

Os lidos,

E aqueles que não tens vontade de ler,

Porque são cansativos,

Monótonos…

Ou sorrisos de sofrer.

E nunca te esqueças que o amor,

Todo o amor,

É um espelho cansado,

Perdido na cidade….

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

16-06-2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:49

02
Mai 19

O teu sorriso é uma rosa de pétalas encarnadas,

A sombra do plátano,

Na Primavera encantada,

O teu sorriso é o mar em cio,

A madrugada atrapalhada,

Quando regressa o frio.

O teu sorriso é uma jangada,

O silêncio da alvorada,

Junto ao rio.

O teu sorriso é um livro de poesia,

Palavras voando sobre a cidade dos pássaros…

No final do dia.

O teu sorriso,

O esplendor da floresta virgem,

As marés,

E os barcos de papel,

O teu sorriso,

Um batel,

Sonâmbulo das noites intermináveis…

Como uma jarra de flores,

Sobre a mesa,

Sobre a secretária…

Recheada de livros.

O teu sorriso é o luar,

Marinheiros enfurecidos nas asas do embriagado mar,

O teu sorriso é oiro,

Incenso,

Mirra…

Ai, menina, o teu sorriso!

O teu sorriso é literatura,

Ternura,

Nas tardes de xisto.

O teu sorriso é feitiço,

Nas caravelas,

No cais da despedida…

O teu sorriso é a sanzala,

O capim,

Jardim,

Que nunca se cala.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

02/05/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:45

23
Abr 19

As rosas são como o amor.

As de papel, claro,

Secam,

Folheio cada pétala,

E em pedacinhos de nada,

Fumo-as.

O amor arde,

Será que depois fico apaixonado?

Ou louco?

Será a loucura clonagem da saudade?

Ou será a saudade apenas o fingir que se ama…

Fico estonteante,

As rosas, em papel, depois de fumadas… enlouquecem as mãos do poeta.

A caneta de tinta permanente começa a lançar borrões sobre as palavras,

O resto das pétalas das rosas, como-as…

Como se fossem uvas,

Ou laranjas,

Ou tâmaras…

(fofam-se as tâmaras)

O amor é fumo, pedaços de cinza, morrão, papel queimado.

E no fim do dia, acabará o amor?

E se eu fumar o poema?

A cidade comer-me-á?

As rosas são como o amor.

As de papel, claro,

Secam,

Emagrecem,

E morrem.

Se as rosas morrem! O que acontecerá ao amor que é uma rosa em papel?

Os cromossomas,

As células loucas no pulmão da minha mãe…

Mas o amor… esse… vive… está lá…

Sentado sobre a mesa-de-cabeceira.

Ao lado tenho um livro de AL Berto…

Que mais poderia ser…

AL Berto.

O Pacheco é mais livro de secretária, de café,

Adoro tomar café com o Pacheco.

Sabes… puta que os pariu.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

23/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:52

21
Abr 19

Roubo as palavras aos meus poemas.

Nem assim ficas contente,

Pareces o vento,

Na cama sorridente.

Roubo as palavras aos meus poemas,

Vejo-te em sofrimento

Como um gladíolo camuflado,

Vai haver uma revolução…

Todos as flores,

Serão todas as espingardas,

Que vão tomar conta da cidade.

Roubo as palavras aos meus poemas,

Roubo os versos,

Os livros,

E fujo de ti.

O cansaço levo-o,

E a enxada da tristeza, também,

Roubo todos os desenhos nas paredes envernizadas da minha casa,

Um casebre ambulante,

Numa qualquer cidade,

Disfarçada de aldeia,

Entranhada nas montanhas do sangue…

Abruptamente, sofro com a tua partida.

Roubo as palavras aos meus poemas,

Batem-me à porta,

O carteiro não será,

Hoje é Domingo

Páscoa,

Dia Santo…

Santo não o sou,

Se o fosse queria ser o santo das esquinas,

Onde habitam os meus amigos,

Parentes e familiares…

O fim de tarde,

O fim dos livros, nos fins de tarde;

O domingo fatídico…

Abstracto,

Como sempre foram os meus Domingos.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

21/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:35

18
Abr 19

Atravesso a cidade da escuridão.

Poiso as palavras no jardim das pilas mortas,

Jogando às cartas,

Entretendo o estômago com a saudade.

Sento-me na tua algibeira,

Escrevo palavras na tua mão,

Como os livros da madrugada,

Antes de acordar o dia do suicídio.

Batem à porta,

Não espero ninguém,

Não abro porque pode ser a morte,

E eu ainda não quero morrer…

Como os homens,

Como as mulheres,

Deixando a vida desenhada na areia do rio.

Atravesso a cidade,

Sento-me na tua algibeira,

Fumo um cigarro,

Acaricio o teu cabelo de Pôr-do-Sol…

Como é lindo o teu cabelo,

Solto ao vento,

Travestido de lágrimas.

Atravesso a cidade da escuridão,

Como fazem as serpentes na Primavera,

Rastejando,

Dançando…

No teu ventre,

A minha mão que te escreve; amo-te.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

18/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:51

08
Abr 19

Parem todos os imbecis.

Parem todos os ignorantes,

Energúmenos e os ausentes.

Parem todos os automóveis,

Parem todos os loucos,

Parasitas e poucos.

Parem todas as campainhas,

A minha,

A do vizinho.

Parem a Terra,

O silêncio,

E as mulheres belas.

Parem o trânsito,

As ruelas,

Ruas,

Cadelas.

Parem as putas,

Os putos…

E as naus encarceradas nas tuas mamas.

Parem.

Por favor, parem.

Parem as flores,

Os jardins,

Os amores.

Parem.

(Parem todos os imbecis.

Parem todos os ignorantes,

Energúmenos e os ausentes).

Parem os chulos,

Prostitutos,

Afins…

Parem tudo. Dói-me a cabeça.

 

Parem.

 

E, respeitem os ciganos!

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

08/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:59

03
Abr 19

Enquanto ela dormia,

Sob as nuvens de iodo,

O poeta desenhava palavras nos seios da serpente.

Era noite,

Tinha sobre a secretária, todas as cartas recebidas e não respondidas…

O espelho pertencia-lhe, e, via o seu corpo embrulhado nos meus braços.

Naquele momento, nada queria ver,

Nem o mar,

Nem o carteiro que todos os dias me trazias as cartas…

Apenas queria acariciar-lhe os lábios,

Desenhar-lhe nas coxas a cidade efervescente dos dias de loucura,

E mesmo assim,

Quando abria os olhos,

Dizia-me que eu era o mar.

Talvez,

Porque hoje percebo as dores nas costas,

O peso dos petroleiros,

Veleiros,

E outros…

Começava a tremer de frio,

Era Verão,

Mas tinha sempre frio…

Tremiam-me as mãos de cerâmica que o meu pai comprou em Luanda,

Às vezes, poucas, transportava no meu peito o sofrimento,

A dor,

Os vómitos,

A ressaca das noites sem dormir,

E, ela, deitada nos meus cabelos.

Enquanto ela dormia,

Eu, eu sentia,

Não vivia…

E sabia…

Que um dia queimaria todas as cartas.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

03/04/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:12

10
Mar 19

As volúpias palavras descendo a calçada, junto ao rio, o mendigo assassina o último cigarro do dia, senta-se junto às escadas do prédio esquelético e com fome, uma brisa sobe até ele, e a vida parece-lhe contente com o aproximar da madrugada,

Todas as pedras à sua volta, choram,

Adormecem as acácias.

Choram com lágrimas de papel amarrotado que o merceeiro deitou no lixo, cobre-se, inventa o calor com lâmpadas de néon…

E dorme.

O néon embriagado pelo silêncio, os dias parecem-lhe horas tardias, doentes, com a mentira debaixo da língua,

E dorme,

As palavras dilaceradas, os livros incendiados pelo teu perfume, e tens no olhar a solidão das flores envenenadas,

E dorme, e dorme, o coração abandonado, por ti, por eles, pela melancolia do dia, e vê em todas as rochas, mesmo as mais pequenas, o sorriso do lobo.

Não estará o mendigo, louco?

E o poeta?

E se a loucura for a sanidade melódicas das palavras ditas?!

Dorme.

O sorriso do lobo, a alegria do mendigo por conversar com o lobo, pois, só este, e mais ninguém, consegue conversar com o mendigo…

É Domingo, dizem eles. Não o sei…

Não o sei, como desenhador de palavras, e, poucas, apenas sei que amanhã nos teus lábios vão acordar as amendoeiras em flores, todas, lindas, belas, elas,

E dorme.

Cansado da viagem.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 10/03/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:56

23
Fev 19

Francisco Luís Fontinha, Poeta, Nasceu em Luanda, perdido na infância, ainda hoje não foi encontrado.

 

A pedra

 

 

Que me sento.

Folheio a tua boca no silêncio do capim,

As ruas dentadas no sonâmbulo entardecer, desce o beijo, poisa na minha mão e dorme lentamente na fogueira da noite,

Me canso.

Que me sento.

Na pedra emagrecida dos teus lábios, dizem-me em gritos de fumo que não amas…

Nunca saberás o que é o amor.

Amanhã.

As palavras rasuradas dos meus textos incompreendidos, falsas estrelas povoam a madrugada, olhas-me, e foges para as montanhas.

Sou tão feliz, meu amor, por saber que nunca me amarás,

O amor é como o mar, olha-se, toca-se, e desparece na Calçada da Cidade.

Que me sento.

Que beijo loucamente esta pedra, que me sento, e canso…

As bocas da noite.

Os holofotes da miséria correndo até ao rio, ao longe um petroleiro de poemas encalhado no teu cabelo, sinto os teus olhos e perco-me na tua sombra,

Que me sento,

Nesta pedra,

E me canso.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23/02/2019

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:49

24
Mar 18

Esta melancolia, aprisionada na tua mão, meu amor,

Esta triste despedida,

Na calçada sofrida,

Quando o beijo esvoaça na fogueira prometida.

O sangue frio do massacre, lá longe, na sanzala, os perdidos cabelos de Primavera,

Quando a fala,

Quando o silêncio do teu sorriso,

Perde o juízo,

Sonâmbulo das cavernas, no limiar da pobreza,

A bela,

A bala na cabeça de um canhão,

E tu, meu amor,

E tu meu amor procurando a sombra do coração,

Desisto.

Insisto,

Desisto da tua fotografia esbranquiçada,

Na sala malvada,

Insisto no pôr-do-sol ao final da tarde,

Saio de casa,

Procuro-te no arrozal,

E finjo ser um poeta, e finjo ser a fogueira que arde…

Sobre ti, meu amor, sobre ti.

O miúdo com a fralda de fora,

Da praia regressa o secreto amor,

Aqui mora,

Habita a mais bela flor,

Que o meu quintal acolhe,

A sede,

O molhe,

As rochas envenenadas pela madrugada,

Sofre, descansa, abraço-te minha amada,

Que toda a vida teve.

Eu vi, quando acordei,

A esplanada do amanhecer,

Sabes, meu amor,

Chorei,

Cansei da vida sem prazer,

Respirar,

E morrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Março de 2018

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:14

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