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Cachimbo de Água

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Rua dos Prazeres

Francisco Luís Fontinha 15 Dez 13

Foto de: A&M ART and Photos

 

Desprendem-se das nuvens os pregos negros da cidade dos cães, tinham-me dito que na rua dos Prazeres habitava uma janela com cortinados de areia, havia uma menina de cabelo doirado e no pulso..., sentíamos o vento dançar sobre a neblina madrugada,

No pulso as pulseiras das feridas cansadas,

A madrugada entretinha-se com um baralho de cartas, meia dúzia de azeitonas e algumas rodelas de linguiça..., havia chouriço assado e pão de centeio, música desgovernada que a menina com pulseiras das feridas cansadas deliciava-se a ouvir, encerrava os olhos e

Voava...

Sobre os plátanos maternos dos dias nublados o mar da saudade entrava-nos dentro da cabana com telhado de colmo, nunca vi a chuva dentro do corpo dela quando a roupa desaparecia do estendal e um emagrecido esqueleto de desejo deambulava em cima do cobertor de lã que alguém nos tinha oferecido, ainda muito antes de ela ser ela, ainda mesmo quando não tínhamos, ainda mesmo quando não usávamos...

Beijos, e margaridas nas jarras em porcelana,

E

Voava o cretino calendário com a fotografia do espantalho de palha, junto à eira uma pequena fogueira alimentava a canção dos grilos aflitos dentro da cratera terra onde brincavam espigas de milho, feijão e aqui e além...

O centeio vivia sufocado com as auroras boreais das latidas palavras caninas, o burro culminava a exuberante letra do poema abandonado, fotografias infinitas zurravam nas labaredas da fogueira que a eira gritava

São minhas, são minhas... são minhas as tontas palavras,

Ninguém se mexia, ninguém acreditava em fogueiras, círios e desenhos inscritos na docas árvores com espelhos de prata

Eu + Tu,

Dois parvos,

Amor de...

Outra parvoíce... amo-te... nunca mais...

(desprendem-se das nuvens os pregos negros da cidade dos cães, tinham-me dito que na rua dos Prazeres habitava uma janela com cortinados de areia, havia uma menina de cabelo doirado e no pulso)

Eu + Ele,

E

voava, e são minhas, são minhas... são minhas as tontas palavras, aquelas que escrevia no corpo dele enquanto o tempo morno

Morno?

Não, não morno...

Morto, matávamos o tempo escrevendo versos no corpo um do outro, ela dizia que as árvores estavam agoniadas com tantas

Tontas?

Não, não tontas, com tantas velhas inscrições...

Eu + Tu,

Será, não será, e uma seta aproveitava a esplanada da paixão e alojava-se no coração desenhado do velho tronco, a navalha entrava corpo adentro, a navalha recheava os telhados amaldiçoados das ruas com janelas...

E

Os cortinados

Da cidade

Da cidade dos cães, latidos, uivos, suspiros...

A paixão?

O amor morto depois de assassinado pela canção da menina com pulseiras... no pulso as pulseiras das feridas cansadas, e cansadas elas percebiam que éramos sombras à espera do desarrumado relógio de pulso, o mesmo que esteve presente na noite de núpcias, o mesmo que presenciou o primeiro “charro”, aquele que assistiu à primeira “chinesa”... aquele que acreditava na menina com pulseiras

Parvas,

Monas,

Tolices em palavras depois de mortas.

 

 

(não revisto - ficção)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 15 de Dezembro de 2013

a cidade dos cães

Francisco Luís Fontinha 24 Nov 13

foto de: A&M ART and Photos

 

sentia-me perdido dentro da cidade dos cães

ouvíamos os sofridos mendigos de prata

tactearem as paredes dos abandonados barcos de papel

sentia-me esquecido no teu corpo de porcelana

envidraçado e comido como os ossos do esqueleto negro

depois de partir o luar

sentia-me nos latidos embebidos nas palavras que jaziam no cobertor da lareira

e sobre a mesa

a tua fotografia parecendo uma montanha

um penedo monstruoso vagueando sobre as pedras ao aço envergonhado

de que se fazem estátuas

e homens com corpo musculado

 

(e sussurras-me à ardósia tarde que sou uma tábua que sobejou do caixão das merendas quando o cais abraçava comestíveis corações em molho de solidão

sentia-me parvamente só

como se devem sentir os restantes barcos da família dos pássaros

releio e leio e sinto

dentro de mim

“O Cais das Merendas”

e sentia-me embriagado com os cheiros das letras em flor)

[“O Cais das Merendas” de Lídia Jorge]

 

sentia-me perdido dentro dos contentores amovíveis dos sonhos nocturnos

tínhamos acabado de descobri os beijos e o perfume dos Plátanos do jardim

(em Alijó também há Plátanos)

bancos em madeira vagueavam na Baía e de longe regressavam as perdizes cinzentas

das imagens a preto-e-branco que o esqueleto negro trazia na lapela

sentia-me só na cidade dos cães

e percebia os vómitos angustiantes das canções que saltitavam num bar da rua das andorinhas

havia meninas

e livros disfarçados de meninas

e meninas comendo livros e livros

como as tuas palavras...

zangadas com o presente

procurando o inferno passado dos caixotes sonolentos

 

[não sei quem sou e como sou e tudo começou quando eu me sentia perdido na cidade dos cães]

 

 

(não revisto)

Domingo, 24 de Novembro de 2013

Francisco Luís Fontinha – Alijó

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