Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

20
Fev 16

O silêncio dos livros adormecidos

Que se alicerçam ao meu cadáver

O perfume das palavras que envolvem o meu cadáver…

A viagem sem destino percorrida pelo meu cadáver

O silêncio dos livros…

Sabendo-os mortos

Esquecidos nas prateleiras da luz

Regressa a manhã

Traz no olhar a simplicidade do abismo

Das crateras da solidão

E das loucas avenidas

Que habitam a cidade dos livros

Não me ouves, meu amor,

Adormeceste no passado longínquo

Como adormecem as montanhas de insónia

No meu leito desfigurado

Complexo

Amargo

Como o marfim do amanhecer

Perdes-te no labirinto da morte

Querendo levar-me contigo

Sou um pedaço de sono

Mergulhado nos teus braços

Sem saber que lá fora

Não há cidade dos livros

Sem saber que lá fora

Todas as nossas fotografias são tons de paixão

Pincelados de marés de inferno

E barcos de aço encalhados no cais da despedida

Abraço-te, meu amor,

Pego na tua mão

E finjo ser um casebre em ruínas

Com poucas janelas

E porta alguma…

O silêncio, meu amor,

Dos livros

Todos mortos

Como eu, meu amor,

Habitante da cidade dos livros

Transeunte camuflado pelos alicerces do desejo

Habito-te

E permaneço em silêncio…

 

Francisco Luís Fontinha

sábado, 20 de Fevereiro de 2016

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:16

19
Abr 12

Qualquer coisa estranha à janela

olho as árvores imaginadas

por um miúdo em calções

olho-lhe os braços suspensos no cacimbo

e ele acena-me com um sorriso ténue

antes de adormecer a tarde

 

e enquanto me acena

vai imaginando árvores enormes quase a tocarem o céu

árvores que rompem a montanha

árvores que alguém esqueceu

num jardim de aldeia

ou perdidas numa cidade

sem janelas

sem portas

sem casas

uma cidade construída em papel

e com muitas palavras

a cidade dos livros

 

a cidade dos livros

com gajas poeticamente desejadas

e poeticamente amadas

como as flores dos jardins de Belém

 

uma cidade sem cigarros

e sem rimas

e todas as personagens

 

coisas estranhas à janela.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:12

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