Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

10
Ago 14

Esta cidade de mendigos,

sem porto para aportar,

estes esqueletos vivos...

sem corpo para transportar,

esta nudez das árvores silenciosas,

que brincam na areia límpida dos cigarros de arder,

esta lua, este luar... esperando o amanhecer,

esta cidade de mendigos,

estes rochedos que servem de abrigos...

sem porto para aportar,

esta noite ventosa,

fria..., amarga... sem lábios para beijar,

 

Esta cidade moribunda,

quando o poeta espera o regresso do amor,

estas correntes de luz sem sabor...

que me aprisionam ao teu olhar,

este cansaço, estas montanhas de abraçar...

que se escondem nos teus seios de triste madrugada,

esta cidade,

esta cidade amaldiçoada...

vestida de rosa sem odor,

triste, febril... esta cidade imunda,

onde passeiam os peixes, e as algas... e os corações sem cor,

esta cidade, esta cidade que vive nas lâminas da saudade.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 10 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:19

23
Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Parecíamos cascatas de papel mergulhadas nas pequenas gotículas de suor que o corpo dele absorvia quando terminava o dia, escondia-se em nós a claridade do desejo, sobressaltava-se como uma serpente enrolada no pescoço de uma Lady, parecíamos cascatas em flor, sem jeito, desfeito, parecíamos o orvalho na mão de um transeunte vestido de fato-macaco e luvas transparentes onde escondia os poucos dedos que lhe restaram da explosão de sémen quando da noite envergonhada porque uma janela indesejada

Transtornada,

Vomitou pequenas lâminas de aço e uma lâmpada de néon, escondida no espelho do quarto, masturbava-se sentindo-se voar sobre os alfinetes dos rochedos como pronomes envenenados em esquinas de areia, as palavras suicidavam-se contra os poucos raios de Sol acabados de nascer,

Detesto nascer, e cada vez que nasço... fico triste, fico... fico ausente como livros esquecidos na paragem do eléctrico, ela chamava-se Etelvina, usava cabelo curto, às vezes aparecia no bairro com calções muito justos, tinha nos olhos a tela das imagens de uma máquina de slides inventada por dois loucos, e de uma caixa de sapatos e uma lanterna

Transtornada, transtornávamos a parede em granito puro, húmido e frio, saboroso no Verão, transeunte passeando na avenida dos Cristais de Iodo e Etelvina seguia sabendo que estava a ser fotografada por um par de olhos verdes, os sapatos rasos chapinhavam no soalho um melódico som comparável apenas quando a lareira se encontrava em orgias de calor no interior de um recuperador de calor, muitas vezes eu

Quis ser o teu corpo, muitas vezes

Habitar em ti,

Muitas vezes sentei-me com o pretexto de me sentir cansado, mas na verdade, fazia-o apenas para te ver passar, finíssimas pernas sentia-as submersas no meu peito, e quis ser o teu corpo, muitas vezes, habitar em ti, ser o que tu nunca foste, fazer o que nunca foste capaz de fazer, muitas vezes

Sentava-me com o pretexto de

Cansado,

E no entanto,

Vivíamos paredes meias com a argamassa solidão das noites em construção, o carpinteiro semeava pregos nas clarabóias em vidro duplo para que os pássaros não entrassem em nós, e o nosso erro

Não deixarmos os pássaros serem como nós,

Vivos, fingindo-se cansado, sentava-me e via-a passar como pernas alimentadas por cogumelos acabados de escrever

Escrever?

Acabados de colher, ainda mexiam, ainda lhe palpitava o coração e só nesse dia é que descobri que a Etelvina fazia com que os corações dos cogumelos palpitassem mesmo depois de morrerem, e ainda há quem não acredite que

Os cogumelos apaixonam como as árvores?

As mulheres,

Os homens,

E também eles, e também nós, e

Enfim,

O dilema de sempre, as questões insignificantes de sempre,

Que

A

Solidão...

É uma coisa engraçada quando existe uma lareira e uma Etelvina que faz com que os corações dos cogumelos,

Que têm os corações dos cogumelos?

Palpitam, palpitam quando ela lhes toca,

E eu também palpitava... se ela me tocasse, e eu também palpitava.

 

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 23 de Outubro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:32

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