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Cachimbo de Água

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O comedor de imagens

Francisco Luís Fontinha 2 Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Havia no teu corpo crisântemos de esperança

como madrugadas incolores suspensas no estendal que esquecemos na varanda

procurávamos nas ruas os candeeiros de chumbo

para fugirmos à fome da cidade

e sabíamos que eles um dia regressavam para ajustarem contas connosco,

 

Depois esquecemos-nos das montanhas de azoto que nos invadiam

como moscas envenenadas ou como cadáveres de gesso

pendurados por um fio finíssimo de sémen na árvore do desespero

conversávamos com Deus e era como se estivéssemos a falar com uma parede de aço

insensível e distante e fria,

 

Chovíamos das nuvens emagrecidas em cidades de areia

e comíamos as imagens que trouxemos de África

e as pequenas recordações que só aparecem noite dentro

quando lá fora cessam as músicas do desassossego

e cá dentro revoltam-se as lágrimas de tristeza,

 

Um muro covarde arde docemente na lareira da idiotice

como aconteceu com as palavras do livro negro

com dentes de marfim

e cansei-me dos bons costumes

da pontuação e de regras de boa educação,

 

Sou um “filho da puta” mal-educado

que vive num País inventado

não sei se sou humano ou em pedra torneada e ornamentada com flores selvagens

sou um “filho da puta” cansado

de mendigar migalhas e sonhar com viagens...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Evasão de Privacidade

Francisco Luís Fontinha 2 Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

A demolição do meu corpo dentro do cubo de silêncio que as andorinhas constroem nas triangulares janelas da casa dos fantasmas-sombra que desde a infância vivem no quarto ao fundo do corredor, sem portas, o tecto descia até não caberem mais os medos entre o pavimento e o candeeiro retrovisor do quarto das traseiras,

Chamavas-me durante a noite para beber o leite, eu recusava-me a acordar, eu recusava-me a abrir a boca, ele recusava-se a levitar sobre o jardim das flores de corpo-doirado, durante o processo de construção, levantava-me pensando que não me levantava, por exemplo, quando hoje estava a ouvir a Antena 3 e repentinamente, entra-me no ouvido a Radio Regional de Resende, confesso, por ignorância, desconhecia a sua existência, É para dedicar? Sim, para o primo Francisco, Para o Pai Francisco, e Para o avô Francisco, E o tema... “O Malhão do Beijo – Zé Amaro”, e eu

(sabia lá quem era o Zé Amaro...)

E ainda agora desconheço a quem pertencem os pássaros que não cessam de refilar, refilam, refilam, e eu

(penso)

Será uma reunião sindical? Será uma manifestação? Não percebo, não entendo porque berram estes malditos pássaros que vivem nas árvores do jardim emprestado onde habito... sem bancos de madeira...

(dedico a todos)

A prisão do nobre silêncio às algemas dos fios de cobre que o sucateiro da esquina derreteu depois do dependurado João & João ter fanado do monte dos arbustos bravos, o telefone silenciou-se, e todos os sorrisos das câmara de vídeo perderam-se nas conferências de parvos a venderem pipocas na praça, melhor dizendo, junto aos Paços do Concelho, de meia-calça, sapato alto, e brincos de prata nas orelhas furadas como o crivo do passe-vite herdado da avó Silvina, e confesso-lhe querida senhora, ver não vi, mas pareceu-me que do outro lado da rua um senhor fugiu com um dos candeeiros de jardim estacionado junto ao largo onde passeiam elas, e mão dada, como andorinhas de Primavera,

(dedico ao meu pai, dedico à minha tia, e a todos os Membros do Governo, e já agora, para todos os desempregados...)

É tudo? Falta a frase... Pois carago... a frase... “Passos, Passos, é no sucateiro dos abraços” desde 1756, E a música? “O Malhão do Beijo – Zé Amaro”,

Muito obrigado e uma excelente tarde,

(excelente tarde, só se for para ti)

A prisão, os fios de cobre a saltarem de mão em mão, e uma Polícia Política de espada na mão à procura de palavras e canções, de textos e gravatas, palavras, paralelepípedos recheados com os olhares da calçada do João & João, rapazola sabichão, salteador de amêndoas depois de levantar voo a Páscoa

(Aleluia, Aleluia, Aleluia)

Invoquem o artigo 21 da constituição, façam-no, não tenham medo, pior do que isso é a fome e a miséria,

E agora, depois de se erguer e dirigir-se para outras paragens, resta-nos os buracos das estradas mal alcatroadas, que brevemente vão ser devidamente tapados, pois este é ano de eleições Autárquicas, e eu, pergunto-vos, Porquê?

Se eu estava descansadinho a ouvir a Antena 3, tinha não mão o livro de poemas de AL Berto “Vigílias” e entra-me casa adentro o “Malhão do Beijo – Zé Amaro”, sem que alguém tenha mexido no radio, sem que uma única alma, que eu saiba, estivesse ao meu lado, e o estupor do radio vai até Resende, veja vossemecê, Resende, ao menos ficava-se por Carrazeda de Ansiães, ou por Vila Real, ou... pelos Paços do Concelho, mas não, quis o destino que hoje eu, sem perceber porquê, conhecesse a Radio Regional de Resende, por acaso, e imagino se o AL Berto fosse vivo

E dizia-lhes

(“Cesariny e o retrato rotativo de Genet em Lisboa

ao lusco-fusco mário
quando a branca égua flutua ali ao príncipe real
as bichas visitam-nos com as suas cabeças ocas
em forma de pêndulo abrem as bocas para mostrar
restos de esperma viperino debaixo das línguas e
com o dedo esticado acusam-nos de traição

sabemos que estamos vivos ou condenados a este corpo
cela provisória do riso onde leonores e chulos
trocam cíclicos olhares de tesão e
ficamos assim parados
sem tempo
o desejo diluindo-se no escuro à espera
que um qualquer varredor da alba anuncie
o funcionamento da forca para a última erecção

lá fora mário
longe da memória lisboa ressona esquecendo
quem perdeu o barco das duas ou se aquele que caminha
será atropelado ao amanhecer ou se o soldado
que falhou o degrau do eléctrico para a ajuda fode
ou ajuda ou não ajuda e se lisboa num vão de escadas
é isto
tão triste mário sobre o tejo um apito”

AL Berto)

E dizia-lhes o quanto é difícil viver desordenadamente sem a ajuda de ninguém, como os fantasmas-sombra que habitavam a casa de Carvalhais e morreram quando ela morreu, e ruíram quando ela ruiu, e solidariamente se suicidaram, quando ela se suicidou, e no entanto, hoje vivo feliz por saber que deixei de existir, tenho um nome, apenas, e um número de contribuinte, um número que não serve para nada, que de nada me serve, apenas um número, e números tive muitos, apaixonei-me por muitos, e hoje, vivo completamente na solidão dos números, e apenas posso ter esperança no

(viva, viva o artigo 21 da Constituição)

Dia de amanhã, a mesma esperança que tinha no dia de hoje, e pergunto-me

(não devia ser inconstitucional existirem reformas abaixo de trezentos euros e abaixo de duzentos e setenta e um euros?)

Dizem-me para não repetir o que disse...

Porque isso não se diz, porque inconstitucional é a Taxa de Solidariedade, isso sim, porque não usufruir qualquer rendimento ainda não é nem será inconstitucional...

É tudo? Falta a frase... Pois carago... a frase... “Passos, Passos, é no sucateiro dos abraços” desde 1756, E a música? “O Malhão do Beijo – Zé Amaro”,

Muito obrigado e uma excelente tarde,

(excelente tarde, só se for para ti)

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

A cidade dos cães de xisto

Francisco Luís Fontinha 1 Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

No quarto escuro, embriagados os relógios de pulso, encosto-me à parede circular, da velha penumbra fechadura que o empregado da ourivesaria deixou por esquecimento sobre o mármore do lava-loiças que vive na cozinha, desgraçado dele, finge-se de morto como as luzes da tristeza se fingem de árvores acesas nos jardins juntos aos Oceanos marinheiros de areia, e, e olho-me nos gonzos descomunais que os vidros de estanho provocam na face ocultas dos meninos traquinas, e olho-me, penteio-me, infeliz como os rebuçados de açúcar, nas geias íngremes até chegarmos à ribeira, olhava para cima do teu ombro escuro, e via as estrelas dançando nos lábios da tenda de circo que esta semana atracou amarras aqui na aldeia dos sonhos, as crianças ainda acreditam em palhaços e malabaristas, eu, acredito também, nas esquinas das paredes, que fazem do quarto escuro o sítio mais seguro da casa assombrada, asas, barcos, petroleiros e cacilheiros, mulheres, e crianças, meninas e meninos,

Os palhaços!

Tantos, tantas, como múmias desgovernadas das mãos enlouquecidas dos ovos de chocolate, eles e elas, deitados, deitadas, as moscas e os filhos das moscas, e claro, as sempre afamadas formigas trapezistas, a recibo verde, em cada rua destruída pelos ventos de nortada, havia destroços de ossos nas traseiras dos prédios sem moradores, e havia moradores destruídos nas traseiras dos bancos de jardim, e havia jardins destruídos, sem bancos e sem plátanos, sem flores e sem corações de manteiga,

Os trapezistas voadores em arames de xisto,

(e será que elas voam?)

Adorava que sim, que se erguessem, e desaparecessem entre a copa doiradas das árvores de papel celofane, E os palhaços? Como os trapezistas...! De roulote em roulote, palmilhando trilhos e veredas, e asas de cetim, E para quê?

Os trapezistas voadores em arames de xisto,

(e será que elas voam?)

Dizem que sim... que voam, que têm asas, corações de vidro e lábios de porcelana, e elas, as gaivotas do desejo, claro que voam, como pedaços de papel, como pedras descendo aceleradamente a encosta montanha abaixo, e abaixo tudo,

Abaixo estes palhaços de barros,

Abaixo,

Abaixo estes trapezistas de madeira,

Abaixo,

Abaixo quem ergueu as palavras que servem para escrever poemas, que falam de amor, que falam de paixões, que falam de circos, ambulantes, como a liberdade dos homens..., abaixo todas as cordas de nylon que aprisionam os barcos aos cais moribundos, latifundiários, cais ordinários com palavras de “NÃO VAMOS REGRESSAR NUNCA”, abaixo quem semeou os campos de trigos do pavimento térreo do meu quarto, escuro, sem janelas, sem portas, apenas com um tecto de vidro, abaixo os cinzeiros de vidro, os cigarros que se prostituem, de boca em boca, de mão em mão, abaixo todos os isqueiros de plástico, com cores berrantes, com desenhos estranhos, e tão deselegantes, tão magros, tão...delinquentes

(e será que elas voam?)

E que acreditam nas algas com braços de prata, e claro que sim, elas, abaixo os candeeiros que rompem a noite e destroem as madrugadas de suor, as peles escuras com sinais sonoros, abaixo os plátanos sem pássaros, e que destroem as mãos amarrotadas dos livros sem titulo, sem história, sem... e é nessas alturas que entra em nós o silêncio, amarfanha-se junto às coxas dos distantes beijos que dos lábios de areia mergulham nas alicerçadas marés de pedra, há virgens com flúor, e tristes mesas de café sentadas nas cadeiras plastificadas dos livros escolares que a mochila da infância carregava, como pedras, pesadíssimas as sombras do teu olhar,

(não sei se amo, se desejo, não se me sinta vivo, ou apenas como um esqueleto de arame vagueando pelas ruas desenhadas por um miúdo acabado de regressar de África, não sei, o que deva fazer, se correr ou esconder-me, abraçado a ti... no quarto escuro...)

Idiota!

Covarde...



Diziam-me que as tristes viagens

eram desencontros que as palavras construíam nas linhas curvas do papel

hoje não o dizem

ou o escrevem como se eu deixasse de existir

procuro-te e dizem-me que morreste ou deixaste de habitar a cidade dos peixes,

 

Não há cortinados com o teu nome

e todas as radiografias de ti foram queimadas como ossos vadios

recheados com o reumático

não há janelas como os teu lábios

quando a tua boca se transformava em areia de Primavera,

 

E dos teus seios havia barcos em fila para atracarem no porto das alegrias

havia luzes coloridas

e flores com palavras escritas em cada pétala perfumada

e tu parecias um peixe com olhos castanhos à espera de semearem a noite

nos lençóis de linho da cama do desejo,

 

Tinhas medo dos meus abraços?

Porque em casa âncora de luz um sorriso adormecia nas estrelas de ontem

e diziam-me que as viagens

eram tristes

e que não sabiam mergulhar nas miseras palmeiras do largo abandonado...

 

 

Covarde, eu?

(não sei se amo, se desejo, não se me sinta vivo, ou apenas como um esqueleto de arame vagueando pelas ruas desenhadas por um miúdo acabado de regressar de África, não sei, o que deva fazer, se correr ou esconder-me, abraçado a ti... no quarto escuro..., sem janela, nós inventamos uma com vista para o mar das traseiras, esperamos que nos desenhem uma porta numa das quatro paredes de gesso, provavelmente não será difícil, difícil mesmo talvez seja desenhá-la, perfeita, em esquadria, e com as medidas standard, oitenta centímetros de largura por duzentos e dez centímetros de altura, e depois, de mão dada, podemos fugir juntos para o infinito, onde dizem os matemáticos, se encontram as rectas paralelas),

Gostavas de me dar a mão e abraçares-te a duas rectas paralelas? Mesmo que sejam duas rectas pobres, traçadas a fiz, ou a carvão, nada de sofisticado, nada de carris em aço, nada, apenas riscos e beijos, apenas imagens dos cortinados de ontem,

Covarde, eu?

Idiota!

Covarde...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Claro que não percebes que há olhares invisíveis

Francisco Luís Fontinha 18 Mar 13

É impossível viver-se assim, não concordas comigo?

(meia dúzia de gargantas contra as lajes do vento, três ou quatro mãos arremessando pedras da calçada na direcção da casa amarela da rua escura que tem uma árvore caquética, com dois ou três bancos de jardim, envelhecidos como o povo, como os barcos, como os pássaros que assistem pacientemente à ditadura do dinheiro, morre-se, matam-se, suicidam-se nuvens não percebendo que o futuro é uma sepultura com pedra mármore em cima, cansamos-nos de ouvir tantos e tantos comentadores, que tudo comentam, que nada percebem daquilo que comentam, hoje a receita é uma, amanhã já é outra, e talvez, depois de amanhã, não sei, apreça um que diga que a solução é o peru recheado com batatinhas doiradas, caseiras, o peru, caseirinho, as delícias da avó Silvina, e hoje),

Percebes o que eu quero dizer-te?

(hoje ofereceram-me catorze ovos, caseiros, e sou levado a concluir que o dia não está a ser assim tão horrível, como eu pensava, ao acordar, depois recebo a notícia que vai ser editado pela Fundação José Saramago um novo livro “A estátua e a pedra” de José Saramago, e confesso, neste momento da minha vida, digo-o e repito-o

estou a cagar-me se a barraca vai ou não vai abaixo, que estou a cagar-me se a tenda frágil deste circo vai ou não vai ruir, porque

hoje deram-me catorze ovos, se comer um por cada jantar, tenho catorze jantares garantidos, mais uma laranjas que a velhinha me ofereceu, poderei dizer que

hoje até que nem foi um dia assim tão horrível, chato, não, não,

é impossível viver-se assim, não concordas comigo?)

Nós aguentamos, nós somos como os plátanos, na minha terra adoptiva existe um plátano com cerca de cento e cinquenta e sete anos

E ele

Aguenta, e ele, e ele tem aguentado tudo, tormentas, tempestades, velórios irrisórios, vestimentas de areia, ditaduras, e omissões marítimas, e ele

Aguenta, sempre, hirto, um pouco obeso, é normal para a idade, mas tirando isso

Aguenta, tudo,

(meia dúzia de gargantas contra as lajes do vento, três ou quatro mãos arremessando pedras da calçada na direcção da casa amarela da rua escura que tem uma árvore caquética, com dois ou três bancos de jardim, envelhecidos como o povo, como os barcos, como os pássaros que assistem pacientemente à ditadura do dinheiro, morre-se, matam-se, suicidam-se nuvens não percebendo que o futuro é uma sepultura com pedra mármore em cima, e dizem que o futuro somos nós

nós, quem?

os esqueletos recheados de fome?

ou

os vampiros da morte, os pedintes novos caminheiros caminhando sobre as rodas circulares das ameixas em flor, hoje foram catorze ovos, e amanhã? E se amanhã não existir amanhã? Porque o peru deixou de ser caseiro, ou

Porque as batatinhas deixaram de ser caseirinhas, e das nuvens, nem água, nem incenso, nem

não

nem as planícies dos triângulos azuis que voam sobre as tardes de neblina, tenho vergonha mãe, dizias-me tu quando calçavas as botas com os dentes de fora, de beiços aguçados, ou

tenho vergonha mãe

quando as calças tinha as joelheiras rotas, e tínhamos o couro que servia como remendo e como adereço,

e),

Não sei, diziam-me que aqui havia uma ilha com rochas que falavam, juro, percorri todas as montanhas e rochas nenhumas, quanto mais falarem, e como precisávamos de conversar, olharmos-nos, os meus olhos nos teus olhos, que confesso e não me leves a mal, nunca soube de que cor são, digo-o, para mim passam a ser encarnados com bolinhas brancas, e hoje

Catorze ovos, caseiros, catorze jantares assegurados, laranjas para sobremesa, música, e que nunca nos faltem as pilhas para o rádio, nunca

Porque sem música

Morríamos, deixávamos de dançar sobre as cristalinas ondas de sono, e tu vinhas a perceber que a noite é uma mentira com cortinados de luar,

(não sei o que faça, não sei se amanhã terei força para me erguer, reerguer, gritar, chorar, e acredita, estou calmo, não estou nervoso e não sinto a falta dos cigarros, mas

hoje

e amanhã?

e

depois de amanhã?

Não sei

talvez cresçam e floresçam as inventadas flores que colocamos sobre a pedra mármore das velhas e novas sepulturas, com janelas, com clarabóias, e enxadas de vidro nas mãos calejadas dos homens vestidos de árvores, com três ou quatro pássaros poisados na cabeça, esse homem, esse desgraçado homem,

é ele

sou eu)

Adormeci um dia sem perceber que as manhãs são mesas de madeira com toalhas de plástico; como está tudo isto?

Uma merda, uma grande merda.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Os horrores da dona Vírgula

Francisco Luís Fontinha 12 Mar 13

Galgavas os travessões inclinados do texto, mudavas de linha, colocavas uma vírgula aqui, outra ali, e mais outra acolá, e ainda outra

Para aquela senhora de encarnado,

Três por um, tudo a cinco euros ouvíamos do megafone da cigana com seios de prata transparentes quando quase no final do texto aparece um ponto de interrogação, o autor, atormentado e sem saber onde o colocar

Grita,

E a cigana, por apenas dez euros, juro pelos meus dois olhinhos que a terra há-de comer que as peúgas são de pura lã virgem, calçam-se a primeira vez, depois decrescem até chegarem a zero, isto quando o limite do seno de X sobre X é um quando o X tende para zero, a cigana embaraçada, não deseja saber, ela recusa-se a perceber os limites dos terrenos baldios, onde cabras soltas caminham sobre os pontos de exclamação que o parvalhão do autor deste texto coloca,

Grita!

E as cabras saltitam, saltitam como cordéis de Inverno no pescoço da querida Maria Torrão de Azeméis, mulher de peito longo, cabelos à tangente de três quartos de pi radianos, e ao pescoço, sem qualquer pontuação, uma frase invertida, sem nexo, suspensa numa árvore, haviam três agulhas e um dedal, haviam nuvens esféricas que assustavam a pobrezinha da cigana às voltas com a trigonometria, e haviam

Cabras? Não, ovelhas com pintinhas amarelas, vespas com asas de milho e

Ponto de interrogação? Não,

Final, ponto, intermitente como as luzes dos barcos de papel que ela deixou nas almofadas dos sofás de granito, encardidos com a tempestade de areia, depois do solstício de Inverno se suicidar contra uma locomotiva desgovernada em passos apressados entre dois carris paralelo à espera do infinito para se encontrarem,

A cigana, coitadinha, pobrezinha

Ai minhas caabrinhaaas,

E a saudosa dona Maria Torrão de Azeméis gritava

Quero lá saber das ovelhas,

Precisa-se de uma palavra começada por T e terminada em I, a cigana desconfiava do vigarista Miguel Hoje Sem Casa, apenas sabia contar até cinco e que às vezes a vida dele parecia um hipercubo, como a minha, respondia-lhe eu,

(Trabalhadori)

O cabrão acertou, cabrão dum raio, pelintra, como eu, entalado nos carris, de um lado a puta das cabras, e do outros, os cabrões das ovelhas, não,

De um lado os cabrões das cabras e do outro a puta das ovelhas, também não,

E se o limite quando o X tende para mais infinito de seno de X sobre X? Coitada da cigana, e coitado de mim, miserável de profissão, analfabeto complexo, iletrado, e ainda por cima

Mordomo da senhora dona Maria Torrão de Azeméis, senhora distintíssima com porcelanas nas orelhas e proprietária do Grandioso Cabaré da Escova de Dentes, onde artistas conceituadas e conceituados voam entre pilares de sémen e papagaios de papel..., nunca tive medo de tropeçar nos parêntesis rectos, curvos, e linearmente gosto dos hipercubos, porque são complexos, porque me recordam madrugadas sem dormir a imaginar como construí-lo sem recorrer a sofisticados sistemas computacionais, e via-o, e sentia-o, dentro da minha empobrecida cabeça com migalhas de pão de milho que a tia Clementina fazia nas férias em Carvalhais, uma delícia perdida, como tantas outras, como algumas palavras que ficaram na latrina do quinteiro, ao longe um rato com tracção às quatro patas subia regaladamente a montanha do sono, e quando chegava à esplanada das nuvens curvilíneas,

Sentava-se,

Ouviam-se-lhe

O quê?

As faces do hipercubo agachadas no milho húmido das manhãs despidas de pontuação, de palavras, de literatura e poesia, e depois de todos morrerem,

O quê?

Ela ainda teve coragem de pegar no megafone e sibilar

Cabrões que me roubaram os sonhos,

E juro, juro

Vi-os, vi-os nas castanhas bancas de madeira.

(FICÇÃO NÃO REVISTO)

P.S.

Se há quem não gosta do que escrevo, paciência. Se há quem se incomoda com algumas fotografias que eu publico no meu mural (que confesso, não é com a intenção de ofender ninguém e considero-as arte, paciência. E já agora, não obrigo, nunca obriguei, seja quem for, a ser meu amigo; no Facebook ou na vida real. E como diz o nosso querido povo... Quem não está bem que se mude. A porta de entrada é a serventia da casa. (UMA COISA POSSO GARANTIR; OS DESTAQUES DO MEU BLOGUE CACHIMBO DE ÁGUA, QUASE DIARIAMENTE NO SAPO ANGOLA, NÃO SÃO, E NUNCA FORAM, POR CUNHA OU POR PEDIDOS, MAS SIM, E SEMPRE, POR MÉRITO PRÓPRIO). Os amigos que restarem são certamente os verdadeiros.

(NÃO FICÇÃO)

Galgavas os travessões inclinados do texto, mudavas de linha, colocavas uma vírgula aqui, outra ali, e mais outra acolá, e ainda outra

Para aquela senhora de encarnado, com sandálias às bolinhas e meias de chocolate, e mais um para o senhor do cachimbo com saudades a cigarros, outra

Tudo, perdi a cabeça, grita a cigana, tudo a um euro,

Uma para nós, gritam as cabrinhas amestradas...

E nós e nós e nós

Também o desejam, as ovelhas loucas com cristais de azoto na ponta da língua,

E mesmo assim, ainda sobraram algumas letras, alguns pontos, e umas tantas vírgulas, porra...

A vida está mesmo difícil; muito difícil.

 

(FICÇÃO NÃO REVISTO)

Francisco Luís Fontinha

As plantas carnívoras da menina Margarida

Francisco Luís Fontinha 25 Jan 13

O tecto da igreja desabou, o sacerdote de batina suspensa nos ombros saiu em demandada como se Sábado deixasse de ser Sábado, como se hoje houvessem plantas ornamentais nas esplanadas complexas das varandas em solidão, uma velhinha chorava quando no rádio da vizinha a canção maldita começava a rosnar, e enfurecida, ela

Plantas carnívoras, senhor prior? Sim menina Margarida, a nossa querida igreja foi invadida por carnívoras plantas, sabe-se lá de onde vieram, talvez tentações do ensanguentado e tentador Diabo,

Diabo senhor prior?

Não sei, não sei menina Margarida, mas confesso-lhe que começo a ficar com medo, que já não durmo como dormia, que vejo sombras nas paredes do meu quarto acanhadíssimo, porque nunca há dinheiro para as obras, e os fiéis

Defuntos e não defuntos,

Tesos como os barrotes do senhor Manuel, que ele utiliza como escoras do alpendre semeado sobre o primeiro piso térreo da mansão, quatro paredes com buraquinhos por onde se avista, ao longe, o mar desenhado num lençol que a tia Margarida deixou estendido na varanda, e durante a noite,

Porque,

As faíscas desagradáveis dos silêncios embaciados que o fumo do cigarro do senhor prior deixou ficar sobre as flores embalsamadas, as plantas carnívoras multiplicam-se como de impostos se tratassem, e a velhinha Margarida reclama

A minha reforma já nem me chega para comprar água,

Porquê?

Porque o tecto da igreja desabou, o sacerdote de batina suspensa nos ombros saiu em demandada como se Sábado deixasse de ser Sábado, como se hoje houvessem plantas ornamentais nas esplanadas complexas das varandas em solidão, uma velhinha chorava quando no rádio da vizinha a canção maldita começava a rosnar, e enfurecida, ela contava religiosamente os cêntimos que nunca sobejavam,

E ao longe o senhor prior

Não me fale em cêntimos, menina Margarida, não me fale em cêntimos,

Vou falar-lhe em quê senhor prior? Vou falar-lhe em quê…

Olhe

Porque,

Fale-me em plantas carnívoras, fale-me no Diabo, fale-me

Diga, diga senhor prior,

Fale-me na cidade de Luanda que festeja hoje o seu 437º ano de existência, mas por favor, por favor menina Margarida

Não me fale em cêntimos que me recordam um canino que tive na infância, e que Deus o tem, em qualquer sítio, julgo eu, como

Olhe

Porque,

Como as faíscas desagradáveis dos silêncios embaciados que o fumo do cigarro do senhor prior deixou ficar sobre as flores embalsamadas, as plantas carnívoras multiplicam-se como de impostos se tratassem…

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

Invenções do corpo sonolento

Francisco Luís Fontinha 12 Jan 13

As tuas mãos percorriam milimetricamente os espelhos de invenções do corpo sonolento que alguém tinha deixado sobre a cama com os lençóis de espuma que o mar vomita quando bate nos rochedos da saudade, inventavas o amor desértico onde brincavam os dromedários objectos voadores sobre as planícies das tuas coxas ensanguentadas devido ao excesso de palavras, de vogais, de sílabas, e as frases escorriam pelo canto da boca, um líquido esbranquiçado derretia-se na penumbra nuvem de açúcar, roçavas-te nos poste de chocolate com pontinhos de néon, e começam as construções dos corações de neve, tínhamos

Música encaixotada nos papelões cinzentos distraiam as ovelhas e as cabras que solitariamente arrebanhavam a erva das calçadas de vidro, janelas se abriam, janelas se fechavam, e janelas partiam em direcção aos loucos pasteis de nata que a cidade desenha em cada pastelaria visitada, um palerma, lá fora, enquanto chove docemente, apita, aos berros, um automóvel esfomeado, velho, cansado, talvez sem seguro ou inspecção médica, e os corações de neve

Incham, quando batem à porta e do outro lado aparece o cobrador de fraque, muito bem vestido, muito bem alimentado, palhaço, que o circo da aldeia estacionou na paragem do autocarro da carreira, sentia-se agoniado, sentia-se

Farto, dos vidros falsificados, farto dos pasteis de anta invisíveis e que apenas serviam para enganar o desgraçado estômago de xisto, e as pessoas

Suicidavam-se estupidamente contra os eléctricos,

Havia gajas com saia de chita e luvas de cetim, havia marinheiros poisados em cada patamar da escada de acesso ao navio dos corações de neve, havia gajas, havia gajas suspensas no tecto do circo da aldeia, o mesmo que tinha abandonado o cobrador de fraque, idiota com brilhantina no cabelo de piaçaba,

Havia gajas inconstitucionais, com reformas de duzentos e setenta e quatro euros, havia gajas inconstitucionais com reformas de trezentos e setenta e nove euros, havia gajas

De fraque, e brilhantina no cabelo de piaçaba, que os urinóis das despensas dos prédios clandestinos jorravam contra as faces cruzadas de um cubo de cerâmica dentada, as maçãs, e os pêssegos, e as laranjas, todas, todos

Havia gajas desesperadas, com o passe caducado, nas paragens dos eléctricos, e o vento nocturno quase sempre trazia um colar de pérolas, e a saia e o lenço, e as mãos

As tuas mãos percorriam milimetricamente os espelhos de invenções do corpo sonolento que alguém tinha deixado sobre a cama com os lençóis de espuma que o mar vomita quando bate nos rochedos da saudade, inventavas o amor desértico onde brincavam os dromedários objectos voadores sobre as planícies das tuas coxas ensanguentadas devido ao excesso de palavras,

Da morte

As vogais, de sílabas, e as frases escorriam pelo canto da boca, um líquido esbranquiçado derretia-se na penumbra nuvem de açúcar, roçavas-te nos poste de chocolate com pontinhos de néon, e começam as construções dos corações de neve.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

Acorrentado à saudade

Francisco Luís Fontinha 11 Jan 13

Entravas em casa acorrentado à saudade, perguntava-te o que tens, respondias-me

Nada, tenho o mesmo que tinha ontem,

Entravas em casa acorrentado à saudade, tinhas sobre os ombros ossudos o peso melancólico das palavras tristes que viviam nas tuas mãos, carregavas na mochila pedaços de silêncio e pedras invisíveis para posteriormente utilizares nas tuas subidas mágicas à montanha dos generais envenenados pela raiva do destino, cruzavas-te com os lobos e pedias que fizessem de ti um pássaro tão grande como a chuva, e tão veloz como os barcos de papel que navegavam na banheira do segundo esquerdo, e janelas para o rio das grandes grades de ferro, as prisões incompletas de homens com o desejo de escreverem nos lábios do sol, algumas pombas desciam na alvorada e mergulhavam dentro dos restos de pão ensanguentado pelos vadios cães amorfos que deambulavam pela ilha,

Nada, tenho o mesmo que tinha ontem, Qual o meu desejo para 2013? Difícil... deixa cá ver, sei lá, talvez uma..., caramba pá só me fazes perguntas difíceis, talvez... Já sei, Já sei, Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

E quase nunca ouvias as locomotivas da fome poisarem em Campanhã, e quase

Nada, não quero nada, o mesmo que ontem, talvez, talvez

E quase chegavas com a mão ao tecto do incenso desejo, e quase, talvez, ontem, e quase que adormecias com o desembrulhar dos livros que trazíamos da livraria em fim de estação, saldos, e mais saldos, e quando chegavas a casa

Estamos falidos, não se vende anda, assim..., assim só nos resta queimar o resto dos livros, em frente à porta de entrada, e

E ir-mos para a Coreia do Norte, Gostava tanto amor, tanto, tanto,

Não sei, não...

E quase nunca ouvias as locomotivas da fome poisarem em Campanhã, e quase nunca utilizavas as pedras húmidas que transportavas na mochila, pedia-te urgentemente e respondias-me

Não, hoje não posso, talvez amanhã, não sei, sei, que a vaidade destrói os humanos, porque as árvores não são vaidosas? Não o sei, sinceramente, não o sei, talvez regressem as locomotivas a Campanhã e os socalcos ao meu imaginário, as bifanas da tia Alice, a cerveja meia choca, como ela, coitada, com idade para estar à lareira, e no entanto

Qual o meu desejo para 2013? Difícil... deixa cá ver, sei lá, talvez uma..., caramba pá só me fazes perguntas difíceis, talvez... Já sei, Já sei, Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

Entravas em casa, não falavas, nem olhavas para as flores que tínhamos em cima da mesa da cozinha, sentavas-te no sofá, e nem livros querias ler, odiavas a televisão, ligavas o rádio e sintonizavas a Antena 3, quase sempre A Prova Oral, quase sempre

Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

Quase sempre ficavas imóvel, envidraçado como os moveis da sala de jantar que herdamos da tua mãe, e coitada da Tia Alice às voltas com as bifanas, coitada da Tia Alice às voltas com o reumático, às voltas com as varizes e a cerveja choca, cansada, velha

E as locomotivas esperavam pelo regresso das bifanas, e coitada da Tia Alice

Qual o meu desejo para 2013? Difícil... deixa cá ver, sei lá, talvez uma..., caramba pá só me fazes perguntas difíceis, talvez... Já sei, Já sei, Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

Engraçado queimar-mo,

Ouvir a prova oral ainda é o que nos mantém vivos cá em casa, em falta de sopa ouvimos o Alvim e a Xana, em falta de sopa ouvimos os poemas de AL Berto na Casa Fernando Pessoa, ou

Engraçado queimar-mo,

Em falta de sopa ouvimos o projecto Wordsong (AL Berto), e

Reformar-me aos quarenta e sete anos, faço-os dia vinte e três de Janeiro,

E sentimos-nos perfeitamente bem, e de boa saúde, até que vêm as locomotivas de Campanhã e trazem com elas os socalcos do Douro, trazem o rio, trazem as enxadas com sombras de reumático e fome concentrada em pequenas latas de duzentos gramas de neblina Conceição, Tia Alice, tia Alice

Que só queria reforma-se aos quarenta e sete anos, fá-los dia vinte e três de Janeiro, mas as bifanas e a cerveja choca, e a chuva do tamanho de uma flor, e às vezes fugiam sem pagar,

Entravas em casa, não falavas, nem olhavas para as flores que tínhamos em cima da mesa da cozinha, sentavas-te no sofá, e nem livros querias ler, odiavas a televisão, ligavas o rádio e sintonizavas a Antena 3, quase sempre A Prova Oral, quase sempre

Dizias-me que para 2013 desejavas reformares-te aos quarenta e sete anos que fazias a vinte e três de Janeiro, e ficavas imóvel, envidraçado como os moveis da sala de jantar que herdamos da tua mãe, e coitada da Tia Alice às voltas com as bifanas, coitada da Tia Alice às voltas com o reumático, às voltas com as varizes e a cerveja choca, cansada, velha

Torturada pela escravidão da puta da vida.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

A vida não é um livro

Francisco Luís Fontinha 9 Jan 13

Era um tumultuoso vulcão com restos de cigarro no canto da boca, sabíamos que para lá do risco amarelo, nada, não existiam mais crateras onde podíamos pegar no ínfimo magma e transformá-lo em palavras, depois de solidificado

E às vezes, com o vento, o risco sofria pequenas oscilações, milímetros que podiam ser fatais para um texto de ficção, não escrito, preguiçoso, mentiam-nos quando nos diziam que não haviam mais

Depois de solidifico,

Palavras para escrever

E nós sabíamos que existiam milhares de buracos recheados de letras, algumas azuis, outras verdes, ortografia tricolor, e pontuações monstruosas, ensanguentadas, quando ouvíamos o choro incessante dos meninos encurralados junto às árvores de chocolate, pensávamos que

A vida é um conto de fadas, um poema, um lindo texto de amor,

Não, não é, e nunca o será

Um livro,

Um pequenino livro, lágrimas de prata, húmidas as mãos do poeta quando acaricia o corpo da amada secreta, impossível, imaginária, o mar entra nos corpos em combustão, e eles

Nós sabíamos que os cabelos eram falsificados, mercadoria isenta de IVA, cultura, o desejo taxado à taxa mínima, deserta, cambaleando os chinelos do velho Fernando pelo corredor da morte, inventavam-se lilases olhos com vermelhos perfumes de rosas de papel, taxada maximamente a velha sopa de feijão que sobejou da semana estragada, peço desculpa e emendo, da semana passada, felizes aqueles como nós, os cabelos falsificados de aço, quando saboreiam os pedacinhos de drageia que o doutor receitou apara tomarmos ao deitar

Um livro

Antes de adormecer,

E nós éramos felizes

É ou não é verdade?

Um livro, substituído por uma drageia, dispenso a sopa e fico com as coxas da Amélia, e em termos de IVA fico a ganhar, porque em tempos de crise é preciso poupar, e entre uma sopa taxada a vinte e três por cento e saborear as coxas da Amélia, taxadas a seis por cento...

Preferimos as coxas

Antes de adormecer,

Um livro, um pequeno livro disfarçado de cianeto,

Azul, os joelhos da amada invisível, nua, isenta de IVA, só minha, como os papeis de andorinha que voavam dias e dias no quintal de Luanda, e hoje, hoje

Preferimos as coxas

Antes de adormecer,

E nós sabíamos que os corpos mergulhados em mãos envoltas em poesia são como as ondas do mar, flutuam, e em ziguezague-zanga lá íamos a caminho de Viseu, parávamos em Castro Daire, um desvio em Carvalhais, S. do do Sul, para visitarmos o velhinho avô que ainda carregava às costas a mochila da primeira grande guerra, e conservava na algibeira do colete as mortalhas e a onça, depois, regressávamos à velhinha estrada até

Preferimos as coxas

Antes de adormecer,

Até que uns vultos nos visitavam, não sabíamos que Eram os tumultuosos vulcões com restos de cigarro no canto da boca, sabíamos que para lá do risco amarelo, nada, não existiam mais crateras onde podíamos pegar no ínfimo magma e transformá-lo em palavras, depois de solidificado

As gajas nuas com sabor a literatura,

Nós não sabíamos, minto, sabíamos que as laranjas são doces quando das mãos de uma deusa inspiração, nua, nossa, isenta de IVA, inventa palavras tricolores que dormem silenciosamente nas crateras dos vulcões apaixonados, o avô velhinho

Um livro

Antes de adormecer,

E nós éramos felizes

É ou não é verdade? Milhares de buracos recheados de letras, algumas azuis, outras verdes, ortografia tricolor, e pontuações monstruosas, ensanguentadas, quando ouvíamos o choro incessante dos meninos encurralados junto às árvores de chocolate, pensávamos que

A vida não é um livro.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

Ou o pai retratava o filho

Francisco Luís Fontinha 7 Jan 13

Deixara de chover, a máquina de lavar roupa pifou uma vez mais, constipação, ou

Fígado,

Ou

Talvez não,

Não temos tempo para despedidas, Pedro, O senhor Alberto para o filho que parecia uma abelha em círculos de luz às voltas do avô João, o carro pronto a avançar estrada fora, recheado de pequenas miudezas, batatas e couves, chouriços e presunto, pão de milho, e o Opel Kadett de 1964 aos soluços como os bebés depois de nascerem enquanto aguardam a chegada do babado pai e a enfermeira

É um menino,

Fígado,

Ou

Talvez não,

O pai retratava o filho com imagens a preto e branco, no tornozelo uma fitinha azul com o nome e o dos progenitores, e se fosse hoje, e se fosse hoje juro

Pifou

E deixara de chover,

E se fosse hoje juro que não queria progenitores, inventava-me, fazia-me das larvas azedas que de árvore em árvore, que de nuvem em nuvem, juro, juro que me tinha inventado como inventei tantas outras coisas,

Adeus avô, com choraminguices o Pedro ao despedir-se, e ouviam-se os lamentos do senhor Alberto, que começava a ver cair a noite e pelas suas débeis contas só de viagem deveriam ser aproximadamente quatro horas, isto é, sem efectuar quaisquer paragem, para um café, ou

Pai, preciso de fazer xixi,

É um menino,

Fígado,

Ou

Talvez não,

E deixara de chover, a máquina de lavar roupa pifou uma vez mais, constipação, ou

(pausa para ir à casa de banho)

Ou simplesmente entrou em greve sem pré-aviso, e cá em casa parece que estão todos loucos, queixava-se o pobre do senhor Alberto, viúvo, um filho, desempregado, E pergunto eu, que vou dando vida a este texto

Que mais poderá acontecer a este desgraçado?

Mulheres há muitas, sou palerma!,

O pai retratava o filho com imagens a preto e branco, no tornozelo uma fitinha azul com o nome e o dos progenitores, e se fosse hoje, e se fosse hoje juro

Digam-me, que mais este desgraçado poderá esperar da vida?

Juro, se fosse hoje, se fosse hoje inventava-me, colocava umas luzinhas na cabeça, pedia ao senhor Arsénio que me desenhasse umas asas e mandava-as construir ao tio Serafim, quando regressasse a casa com a estrelada, coitada, manca

Estrelada!

E amanhã não me fodes mais porque vais ficar na loja porque com a pedrada que te dei, e enquanto isso, o Serafim a jogar ao pino com os colegas da escola, e tenho quase a certeza que ele me constrói umas asas com vista para o Tejo, pensava o menino Pedro antes de adormecer e enquanto a família, pai, mãe e avós, todos, numa irritação

É a tua cara Alberto,

Não é não, respondia a avó Madalena, e acrescentava

É tal e qual o meu João, isso não tenho duvidas

E eu, e eu tenho a certeza que tenho algumas parecenças com um embondeiro, com um mabeco, ou na pior das hipóteses

Com um Anjo,

(mais uma breve pausa para ir à casa de banho regressamos o mais breve possível)

Sim, com um Anjo, Porque não? Deve estar louco menino Pedro, queixava-se o porteiro embriagado quando madrugada dentro ele

Eu, tu, regressávamos das longínquas sentinelas de estanho, deixávamos as mesas de granito junto aos jardins caquécticos da casa de S. Pedro do Sul

Constipação

Ou

Fígado,

Constrói-me umas asas, tio Serafim

E a coitada da estrelada só em três patas, sofreu tanto, tanto sofrimento teve esta ovelha, e o menino Pedro e a menina Margarida

Eu, tu, regressávamos das longínquas sentinelas de estanho, deixávamos as mesas de granito junto aos jardins caquécticos da casa de S. Pedro do Sul, deixara de chover, o fígado pifou uma vez mais, constipação

Ou

O pai retratava o filho com imagens a preto e branco, no tornozelo uma fitinha azul com o nome e o dos progenitores, e se fosse hoje, e se fosse hoje juro

Tinha-me inventado.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

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