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Cachimbo de Água

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cristais vagabundos

Francisco Luís Fontinha 6 Out 13

foto de: A&M ART and Photos

 

porque te alimentas do néon moribundo das portas em ruína

e percebes que os meus olhos são cristais vagabundos

sem número de policia

apenas uma simples janela de porcelana

quando regressa a noite

disfarça-se de gaivota

deixa ficar os poucos vidros sobre a mesa-de-cabeceira

e voa na cidade do medo

 

leva na algibeira o candeeiro mordomo

que sua senhora adorada lhe ofereceu um dia longínquo

quando ainda existiam lábios de borboleta

nas plantas marginais

do silêncio com algas

e dentro de um velho caderno

o esqueleto de duas ou três integrais

simples duplas triplas... como o teu corpo em despedida

 

partias no primeiro autocarro da carreira sem rumo definido

entre curvas e lagartos

livros e camaradas apaixonados pela vodka da menina Alice

partias

e eu deixava de ver-te logo a seguir à curva junto à ravina

despedia-me de ti dentro do meu quarto escuro

e chorava

chorava medalhas de prata que me ofereceste e nuca fui capaz de as usar...

 

(porque te alimentas do néon moribundo das portas em ruína

e percebes que os meus olhos são cristais vagabundos

sem número de policia

apenas uma simples janela de porcelana)

 

por medo

ou vergonha

nunca encontrei as tuas mãos no meu rosto triangular

e chegava a casa

e a casa parecia-me um cubo em betão armado

com braços em aço

com olhos em cristal

como os meus

 

(cristais vagabundos)

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

(não revisto)

Domingo, 6 de Outubro de 2013

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