Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

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Abr 13

foto: A&M ART and Photos

 

Sob o cinzento céu passeavam-se as gaivotas com pequenas pinceladas de neblina que os barcos a vapor semeavam nas ruas da cidade, havia algumas árvores, tristes árvores, havia uma mulher com os braços cruzados que sonhava com o mar e com o vento que transporta as gaivotas, as gaivotas que poisam sobre as árvores prateadas, quando todas as luzes se apagam como quando os espelhos cessam de projectar imagens, lágrimas que caiem da mesa-de-cabeceira e rolam sobre as tábuas indolores do soalho, alguma parte dele, apodrecida, outra, voando como as gaivotas, sob o cinzento céu de Abril, e outra

doente

E da terra inclinada, projectam-se contra o tronco débil das pequenas árvores, rochas e objectos de pequeno porte, os vidros das janelas que ajudam a proteger do silêncio as pequenas árvores, partem-se, estilhaçam-se e derramam-se como líquidos vaidosos sobre a neblina porcelana dos vestidos das bonecas das meninas que brincam debaixo das oliveiras, pequenos torrões de açúcar aguardam pela sinfonia melódica das cantigas endiabradas que aos poucos se vão ouvindo do pátio da escola primária, um rapaz de calções

doente, com pequenas pedras da calçada, parte os vidros da escola, joga ao espeto com um ferro pesado e aguçado, um dia quase que ficou com o pé esquerdo prisioneiro no recreio da escola, furou-lhe a bota e só abrandou quando quase atingiu o centro da terra, aí, percebeu a razão de não caírem as árvores, os edifícios das cidades, que em casos especiais, quase chegam ao céu, e tudo à sua volta

Estranho, os calções baloiçavam entre duas cordas de nylon, um travessão de madeira servia-lhe de assento, e depois de um ponto final, um novo paragrafo e perdoar-lhe

amar-te-ei?

E o cinzento céu a misturar-se com o solitário vapor dos barcos de cartolina, e porque as gaivotas de papel com pequenas pinceladas de neblina não sentem o cheiro da nafta horrenda que se ouvia nos portos de embarque, o miúdo de calções, quase em pequenos vómitos, subiu as escadas do paquete abandonado, enorme, com tantas janelas que quando tentou contá-las, desistiu, porque eram muitas, porque ainda não sabia contar,

porque o cheiro envenenado da nafta parecia madrugadas em bolor no tronco das pequenas árvores da menina com os braços cruzados,

Amar-me-ás?

Porque o cheiro envenenado

Amar-me-ás? Perdoar-lhe como os marinheiros perdoam às marés o sombreado dos cais e dos soníferos para a constipação e dores de cabeça, e a diarreia, e para todas as desilusões do amor depois de adormecer a tempestade, depois de adormeceres, deitares a cabeça sobre uma almofada de xisto, e sonhares que

se amanhã fosse Sábado... pegava no vapor e zarpava... abria a janela, borda fora com o diário de bordo, passava pelas pequenas árvores onde uma mulher com os braços cruzados brinca com as meninas das bonecas vestidas com a porcelana fina, e depois

De chegar à cidade, percorrer todas as ruas como as procissões de aldeia, fazia-me à literatura, imaginava imagens em espelhos de guarda-fato que deixei numa pequena casa em Vila de Migalhas, construía personagens do tamanhos das pequenas árvores, com corações sofridos, com braços cansados, com pernas distantes das temperaturas íngremes que os velhos termómetros de mercúrio desenhavam nas ardósias da contemplação de uma fotografia em plena Primavera,

doente

Amar-me-ás?

amar-te-ei?

E a bailarina, enquanto não descruzar os braços e folhear o livros dos sonhos, não poderá nunca responder

Amar-me-ás?

Não sei, ainda não sei...

e eu

amar-te-ei?

Só depois do cinzento céu se alicerçar nas pequenas árvores, e eu, tu, elas, e elas, deixarem de brincar, despirem a fina porcelana e inventarem novas imagens nas ruas da cidade encharcadas com o velho vapor do barco de cartolina

e eu, um rapaz de calções

doente, com pequenas pedras da calçada, parte os vidros da escola, joga ao espeto com um ferro pesado e aguçado, um dia quase que ficou com o pé esquerdo prisioneiro no recreio da escola, furou-lhe a bota e só abrandou quando quase atingiu o centro da terra, aí, percebeu a razão de não caírem as árvores, os edifícios das cidades, que em casos especiais, quase chegam ao céu, e tudo à sua volta,

Depois de subirem as escadas, tocam suavemente o céu.

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:09

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