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Cachimbo de Água

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O visitante desamado

Francisco Luís Fontinha 21 Mar 19

Não tenho tempo para amar.

Amar o não amado, quando o desamado, triste, parte junto com a morte,

Pertinho do mar,

Uma flor em transe, vai habitar o meu jardim,

Coitado do poeta, desamado, sem sorte…

Ouvindo os berros do clarim.

 

E das palavras, construo farrapos,

Farrapos que que agasalham,

Gritam,

Morte ao amor.

 

Ponto.

 

Travessão.

 

O visitante da minha sepultura, de vela no coração, e flores no sorriso,

Escrevo um conto,

Estendo a mão…

E aparece nos meus lábios o juízo.

 

Porque me bates à porta?

 

A casa vazia, sem janelas para a ribeira,

O silêncio pendular da paixão,

Descendo,

Subindo,

Malditas escadas sem corrimão,

Sem beira nem eira,

O desamado, mentindo,

Que ama a flor, aos poucos tombando.

 

No chão argamassado.

 

Amar?

Não. Obrigado.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 21 de Março de 2019

Noite na alvorada de ninguém

Francisco Luís Fontinha 19 Nov 17

A noite começa a perder-se nas tuas mãos, entre montanhas sinto os teus lábios emagrecidos pela solidão, adormecidos, tristes… perdidos, abençoadas estrelas que me iluminam sem qualquer tipo de perdão, uma carta não escrita, algumas palavras semeadas no teu olhar, quando lá longe, oiço o assassino do mar, mãos ensanguentadas, lágrimas disparadas pela espingarda do sono,

Um canhão evapora-se debaixo do luar, escrevo-te para me sentir feliz, invento-te para me sentir livre, rebelde e desemparado nas ruelas nocturnas do cansaço, oiço-os

Vomitam insónias, dormem no desassossego dos pássaros envenenados pelos teus lábios, os livros sofrem, os livros morrem ao nascer do Sol, e tenho no corpo um solstício amedrontado, oiço-os

Marcham Calçada abaixo, rumam aos bares não iluminados, estátuas de sombra sentadas numa esplanada, debaixo, em cima, e, no entanto, sou um soldado desgraçado, moribundo, procurando barcos nas tuas pálpebras…

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Novembro de 2017

O apeadeiro da solidão

Francisco Luís Fontinha 19 Jul 17

Tão longe entre montanhas e socalcos,

Cravado na terra cremada da saudade,

O comboio se perde nas curvas do amanhecer,

O apeadeiro da solidão agachado junto ao rio…

Sem conseguir adormecer,

Uma voz se perde na caminhada como se fosse apenas uma gaivota amedrontada…

Tão longe entre montanhas e socalcos,

Finge acordado,

Esperando os apitos aflitos do maquinista…

Até que o pôr-do-sol regressa,

E amanhã novo dia, nova noite, e a tarde sempre igual…

Nem vivalma para entreter o estômago do desassossego.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 19 de Julho de 2017

Os dias falhados

Francisco Luís Fontinha 24 Mai 17

Os dias passados

Esqueleticamente abraçados aos dias sofridos

Quando bem lá no alto das montanhas cansadas

Os dias argamassados aos dias coloridos…

 

Safados.

 

Os dias perdidos na esplanada do adeus

Quando sobre uma pobre mesa de sombra, um livro, voa nos dias premeditados

Por uma lâmina finíssima de luz…

Os dias entre dias,

Os dias encalhados nos petroleiros da fortuna…

Os dias revoltados

Com a forma circunflexa do sangue perfumado,

O dia apaixonado,

Ou coisa nenhuma…

Os dias as mãos e as mãos dos dias,

A forca dos dias desesperados

Numa árvore dispersa na alvorada,

Há dias assim,

Como hoje,

Dias de alecrim,

Dias de clarinete…

E assim,

Os dias dos relógios moribundos,

Meu Deus! Meu Deus, tantos mundos…

Com dias,

Sem dias,

Cem dias dispersados pelas tristes avenidas dos dias desalmados,

E eu, minha querida, por aqui… brincando com os teus dias…

Os dias sem melodia.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 24 de Maio de 2017

Sítios comuns

Francisco Luís Fontinha 17 Mar 15

Os sítios comuns

sempre a mesma rua

o mesmo cigarro

o senhor da esquina

jornais

sapatos

trapos

livros

velhos

o mesmo fumo

todos os dias

o horário nocturno,

 

as filas invisíveis para ancorar o sono

a cama

o sofá

velhos

iguais

feios

imundos como os meus poemas

os sítios comuns

em círculos de espuma

uma janela doente

o reumático

nunca se abre,

 

os ossos em papel

ardem

desassossegadas palavras

na algibeira do senhor da esquina

o corpo que se vende

e as estátuas que se compram

ninharias

coisas pequenas

pedras

barcos

cidades a apodrecer

sexos complexos nas montras do abismo,

 

acreditar

e desacreditar

nos livros

dos livros

e das jangadas de silêncio...

a mão poisa no ombro da manhã

afaga-lhe a cabeça

desenha-lhe no olhar a solidão dos panfletos adormecidos

publicidade

vende-se apartamento junto ao mar...

e sempre a mesma rua

sempre o mesmo cigarro.

 

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 17 de Março de 2015

O mar em desassossego

Francisco Luís Fontinha 18 Jun 11

E nas árvores os meus braços suspensos

Da manhã cansaços da manhã em desalentos

O meu corpo evapora-se nas nuvens em silêncios

E do meu peito em cinza acorda a dor

 

A vontade de morrer

Diminuir tenuemente nas sombras da cidade

Que este corpo não sente este corpo diluído na saudade

E mergulhar no oceano imaginário dos meus olhos

 

Pegar nas palavras e projecta-las na parede da solidão

Abraçar-me aos ponteiros de um envelhecido relógio

Gritar no escuro engasgado nos embondeiros

E junto ao mar em desassossego…

 

O mar engole-me dissolvendo os meus ossos em pó

Dentro de mim só sílabas empoleiradas no sorriso das gaivotas

E nas árvores os meus braços suspensos

O meu corpo que finge estar vivo.

 

 

Luís Fontinha

18 de Junho de 2011

Alijó

Dormir e alimentar-me de nada

Francisco Luís Fontinha 13 Mai 11

Quero dormir eternamente

Mas nas paredes do meu corpo em desassossego

Uma luz emerge debaixo dos lençóis

As minhas mãos agarram-se às frestas do silêncio

 

E o meu corpo começa a levitar na manhã.

Pergunto-me porque não adormeço eternamente

E a resposta é impressa nos meus olhos…

Quando os meus olhos cegos pela noite

 

Descansam sobre a mesa-de-cabeceira

E com as minhas mãos procuro-os

E não olhos

E não vida

 

Que merda de vida;

Dormir

Alimentar-me de nada…

E ao fim do dia procurar os meus olhos

 

Que descansam sobre a mesa-de-cabeceira.

 

 

Luís Fontinha

13 de Maio de 2011

Alijó

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