Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cachimbo de Água

MENU

Nascer no tempo… no tempo de sofrer

Francisco Luís Fontinha 23 Jun 17

Não vou ter tempo para desenhar o tempo no silêncio da noite teu corpo,

Não vou ter tempo para semear nas tuas cochas o mais belo poema de amor…

Porque não sou poeta,

Porque não sou desenhador,

 

Não vou ter tempo para ver o nosso filho escrever no pavimento térreo do quintal,

Porque nem sequer temos um filho,

Porque nem sequer temos um quintal,

 

Não vou ter tempo para acariciar a chuva miudinha que se entranha no teu cabelo,

Não vou ter tempo para ir à lua e trazer-te um beijo…

Porque sendo astronauta não tenho esse desejo,

 

Não, não vou ter tempo!

 

Não vou ter tempo para te desejar,

Não vou ter tempo para no teu corpo brincar…

E juntos, sem tempo, olharmos o mar,

 

Não vou ter tempo para muito viver,

Já muito vi sem querer…

 

Não, não vou ter tempo!

 

Não vou ter tempo para escrever,

Tempo para amar,

Tempo para ver nascer…

Nascer no tempo… no tempo de sofrer.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 23 de Junho de 2017

Noite de loucura

Francisco Luís Fontinha 22 Set 14

Este pano azul cansado

deitado sobre o teu corpo

acariciando a tua pele de luar

que a madrugada fez esconder

este pano... que o piano amar acorrenta

este sofrer...

a saudade do mar

entranhada nos meus lábios,

 

Este pano azul...

que o silêncio consegue desenhar no teu sorriso

o morrer

sabendo que todas as flores deixaram de brincar

a tua mão vazia

como o rio que desce a montanha

a tua mão entrelaçada nas sombras da paixão

que o pano azul escreveu numa noite de loucura...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Esqueleto de xisto

Francisco Luís Fontinha 20 Set 14

Gostava de caminhar sob os teus desejos

e gritar ao vento laminado

as palavras que não consigo escrever,

desenhar na minha mão os teus beijos

que a madrugada alicerça nos cortinados da insónia...

gostava de caminhar sob os teus desejos

e sentar-me junto ao Tejo

fingindo que sou uma caravela sem marinheiro

fingindo... fingindo que sou um desabrigado esqueleto de xisto.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 20 de Setembro de 2014

Jangadas de incenso

Francisco Luís Fontinha 2 Ago 14

Lembras-me as jangadas de incenso nos braços de uma amada,

há dentro desta casa uma cancela em madeira,

uma cerca de prata,

lembras-me as sílabas com odor a madrugada,

numa cama onde habitam dois corpos embrulhados em azevinho,

há uma arca cerrada com cadeados de luz,

lá dentro, cartas... cartas vestidas de cinza,

migalhas,

seios de verniz suspensos no espelho das tuas pálpebras de alecrim...

lembras-me as jangadas com velhos bancos revestidos a amanhecer,

uma Lisboa apaixonada por transeuntes embriagados, loucos... e marinheiros de palha,

lembras-me uma cidade com vidros de papel,

 

E migalhas...

lembras-me as flores deitadas no teu peito,

um cigarro a arder..., um cigarro sem jeito nos lábios dos marinheiros de palha,

lembras-me os poemas por escrever,

quando havia no teu corpo pedaços de borboletas e canalha a brincar...

lá dentro, cartas... cartas vestidas de cinza,

e... e migalhas,

lembras-me as tardes sentado a desenhar o Tejo na minha mão,

inventava barcos de cartão,

inventava gaivotas com bolas de sabão,

lembras-me...

lembras-me o silêncio das jangadas de incenso!

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 2 de Agosto de 2014

O Cometa Amar

Francisco Luís Fontinha 22 Jul 14

Não te mexas,

deixa poisar o Cometa Amar na Sombra do teu olhar,

não grites,

mantém-te imóvel nos lábios do entardecer,

não fales, não... não grites,

geme no salivar nocturno que acolhe o luar,

não te mexas, por favor!

Silencia-me como se eu fosse apenas e só o teu livrinho de cabeceira,

a tua almofada recheada com seios de verniz...

o espelho do teu quarto, onde dormes, sonhas... e... e brincas...

como uma menina mimada,

escondida na madrugada,

 

Não te mexas,

fala-me, ouves-me?

Não te mexas,

acaricia o cansaço dos meus abraços com o teu cabelo de cetim,

não grites,

por favor... não sejas assim...

 

Assim, como?

Assim... menina mimada,

menina com sabor a Musseque,

menina... menina bronzeada,

 

Não,

não te mexas,

escreve no meu peito de xisto tudo aquilo que te apetece fazer,

sei lá eu...

também não o sei, meu Amor, mas não te esqueças de nada,

escreve tudo, escreve...

mas... mas não te mexas,

escreve em mim, desenha em mim,

o mar,

o pôr-do-sol, ou... ou a saudade,

o poema mais belos da montanha do desejo,

escreve, não te mexas, escreve... escreve beijo,

 

(Assim, como?

Assim... menina mimada,

menina com sabor a Musseque,

menina... menina bronzeada).

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 22 de Julho de 2014

Sobre o autor

foto do autor

Feedback