Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

20
Dez 15

Neste porto onde me encontro fundeado pareço um pergaminho desgovernado,

As palavras fugindo para o Cais dos Afogados

Como se houvesse um silêncio em cada palavra escrita,

Deixei de pertencer ao meu corpo,

Deixei de ter corpo,

Para alimentar o desassossego da solidão,

Neste porto

Um infeliz marinheiro sem Pátria,

Em busca da sua embarcação…

Fundeada nos meus braços,

Carrego nos ombros a morte,

O infeliz destino de ser menino,

 

Carrego nos ombros a forca

Dos telhados de vidro…

E o triste destino.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

domingo, 20 de Dezembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:27

20
Nov 15

Este triste rio

Que desabraça as suas margens

Que troca o silêncio da noite

Por gaivotas em papel

E barcos de sombra

Agacha-se quando a solidão brinca no vento

Sorri quando a melancolia voa sobre os coqueiros

Este triste rio

Que habita no meu peito

Não dorme

Não come…

Mas ama

E sofre

Como eu

Uma caravela sem destino

No estrelar do desejo.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

sexta-feira, 20 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:43

08
Nov 15

não sei quem és

porque me desejas

o que queres

aspiras

inspiras

deste meu corpo desajeitado

desassossegado

triste

abandonado

não sei quem és meu amor

não sei se és uma árvore

uma flor

não sei quem és

meu amor

quando o dia se alicerça nos teus lábios

os beijos

a boca semeada na seara distante

o infinito

longínquo

distante

de mim

de ti

meu amor

senti

sem ti

o infinito

desgosto

da madrugada ente soníferas equações

e seios desnudos

camuflados na espelunca cânfora manhã indivisa

o sono

a brisa

em ti

e de mim

um abraço…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 8 de Novembro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:37

08
Out 15

Invento as lágrimas da solidão

Sobre o papel amarrotado da paixão,

O significado da morte esvaece-se no corpo de um sonâmbulo,

O mar que desenhei no teu olhar…

Não existe mais,

Nem o mar,

Não existe mais,

Nem o teu olhar,

 

Invento as lágrimas da solidão

Antes do regresso da noite vestida de canção,

Perdeu-se nas palavras adversas, perdeu-se nas planícies submersas…

Dos jardins suspensos da madrugada,

 

Visivelmente cansado…

 

Inventar objectos estranhos como as lágrimas da solidão

Em combustão,

Sobre o papel amarrotado da paixão,

Visivelmente cansado,

Sem destino,

Sem uma mão,

Caneta…

Para escrever no coração da tristeza…

 

Este menino,

Visivelmente cansado,

Sem destino…

Dorme docemente na sombra do abismo.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quinta-feira, 8 de Outubro de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:15

29
Ago 15

desenho_30_08_2015.jpg

(desenho Francisco Luís Fontinha – Agosto/2015)

 

Deixou de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,

Deixaram de escrever as palavras do vento estas mãos esfarrapadas,

Longínquas do olhar da madrugada,

O medo alicerça-se ao peito, as facas do silêncio grunham como as serpentes envenenadas pela noite,

O tédio quando esqueço a solidão e construo círculos de luz nos teus seios…

O teu corpo desabitado, encurralado nas cordas de nylon dos Oceanos mendigados,

E não consigo perceber o amor das flores desenhadas nos teus lábios perfumados,

Como nunca percebi o desejo em mim do estranho luar…

E este mar, meu amor,

Crucificado nas espingardas do coração abandonado,

Semeado nas searas do cansaço…

É triste, meu amor…

Deixar de habitar este corpo a paixão diabólica da alma sem destino,

É triste, meu amor…

Cair sobre mim o tecto do sofrimento junto ao Tejo,

E os Cacilheiros na minha boca… sufocando-me com o relógio enforcado nas pontes do Cacimbo fugindo do pôr-do-sol…

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 29 de Agosto de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:29

31
Mai 15

Este negro espelho

Abraçado à solidão do cansaço

O sonho embainhado nos alicerces da noite

Como se a noite fosse o cobertor

Protector

Da alegria

Não sentida

A vida a escoar-se montanha abaixo

E o rio enforcado no socalco esquecido pelo homem

Dos sonhos

Entre sonhos

A poeira das fotografias,

 

Abandonadas

E perdidas,

 

Este negro espelho

Sem coração

Que o dia entristece

E aquece

Na lareira da dor,

 

E há uma fogueira no meu peito

E há um esconderijo nos meus braços

Prateados

Das doces pálpebras do destino,

 

O menino,

 

Este negro espelho

Espantalho do sofrimento

Que só o sono consegue alimentar

E na lareira da dor

As cinzas parcas dos eléctricos

A cidade ignora-me

Mas não me importo com as cidades

Os rios

O mar

Os barcos

O menino…

Perdido na esperança de acordar.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Domingo, 31 de Maio de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:29

16
Mar 15

A melodia nocturna da aventura

os esteios do silêncio abraçados ao cansaço

desespero

e espero

que acorde o dia

sem amargura

sem... sem cortinados de penumbra

baloiçando no pescoço da saudade

os cigarros entre as estrelas

os dedos mergulhados nos teus seios

acesos

em espuma

palavras

números

portas

e ruas

despidas

nuas

e sinto do outro lado do rio

os guindastes da solidão

voando como gaivotas

livres

como os barcos

sem marinheiros

sem...

acesos

os ossos em papel

das migalhas invisíveis do voo

o infinito

destino

das mãos

quando alguém desiste do luar

e sem... acesos

os ossos

o infinito destino

das mãos no leito do sono...

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 16 de Março de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:22

31
Jan 15

Pintura_55_A1_Nova.jpg

(desenho de Francisco Luís Fontinha)

 

 

Roubaste-me o sorriso nocturno dos beijos em flor

pegaste nas minhas palavras e transformaste-as em solitárias andorinhas

depois

trouxeste a Primavera

e o amor

do poema

de amar o poema

e sentir no peito as equações do destino...

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 31 de Janeiro de 2015

 

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:35

15
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

Onde me levarás quando eu descer os cortinados da dor, comíamos sandes de livros com molho de poesia e tantas migalhas em palavras, que hoje, nos esquecemos dos momentos ínfimos que a noite nos proporcionava, acreditávamos em silêncios e desenhos nas paredes do sono, lápis de cor, caixas de seis, doze ou... vinte e quatro, e sonhávamos com um corredor fino, alto, e escuro, e havia uma porta envidraçada, uma porta de entrada para o nada, e ninguém nos perguntou porque vivíamos obscuros, fingíamos-nos também nós, de pequenos cubos de vidro, fingíamos-nos também nós, de porta com o espaço reservado aos nossos corpos de vidro, livres, não opacos, transparentes e flutuantes como as folhas das árvores do jardim

o destino é fodido, dizias tu...

Do jardim das grandes amoreiras, as tuas sandália jaziam sobre o tapete de ardósia, voando, subindo veredas de carvão, o suor do teu corpo parecia papel de embrulho, ofegante, dilacerante, oitenta e quatro metros por segundo quadrado, tu, descias, descias até mergulhares nas

destino, é, hermeticamente fechado como as caixas de porcelana onde guardavas os guardanapos, alguns anéis e outras bugigangas sem interesse, como tu, para ti, sem interesse, como eu, como são as portas depois de encerradas, pregadas do lado exterior, como são os olhos das fechaduras, quando dilaceram um corpo nu, ou quase nu, suspenso nas mãos de oito estrelas com cinco cordéis de algodão, cinco, quatro, alegrias de viver e uma janela de Inverno com sombras para o mar das sílabas cansadas pela tua doce boca de lentidão, beijos, e víamos a tua face rosada mergulhar no candeeiro sobre a mesa-de-cabeceira,

o

é, dizias-me tu,

E como eu te percebo agora, porque sempre fui um filho bastardo do maldito destino, e sempre gostei de ti, como o sabíamos depois das tristes palavras que deixaste penduradas num pequeno cartaz junto ao frigorífico, irritei-me, peguei nele... e andar abaixo, rés-do-chão esquerdo, a vizinha por milímetros não atropelada por um amontoado de sucata, velharias, como eu, aqui, sentado, a tentar perceber o maldito destino de mim, sabendo eu, que eu, não, nunca, existi

acreditarás no meu pequeno corpo?

E pior do que isso... é que nem sou em ferro, porque os sucateiro davam-me um euro por cada quilo, ora isto perfazia cerca de setenta e nove euros, não era muito, sempre será alguma coisa, por enquanto, espero, porto ancorado às ilhargas elásticas dos azuis camarotes de veludo, havia champanhe, caviar, e o melódico som poético do homem das sete luas gordas, recheadas com pequenos pássaros das árvores do quintal coberto por mangueiras, criança triste fazendo-se passar por estilista, desenhava e costurava vestidos por medida, e nas horas vagas, escrevia poesia nas paredes do quarto, desenhava nas paredes da casa de banho, e irritava-se quando não o levavam a olhar o mar, domingos de manhã, escondia-se entre os barcos atracados no Porto de Luanda, e sonhava

um dia vou ter uma porta com muitos vidros, e debaixo da ombreira, uma linda mulher, com panos brancos, ou quase nua, ou ambas, ou nenhuma delas... um dia, vou ter uma porta, vinte e quatro, vinte e cinco, pequenos vidros, quadradinhos de ternura e açúcar prateado porque os teus lábios são como os pasteis de nata, comem-se, e depois... depois sentimos-nos leves como as gaivotas, passamos debaixo das portas com pequeníssimos vidros, e voamos sobre o Tejo...

Acreditas nos destino, amor meu?

E saboreava-os na boca como se fossem beijos teus...

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:25

02
Fev 13

Parecíamos pássaros vestidos com casacos de aço inoxidável e voávamos e voávamos, e voávamos como se lá fora existisse um fio de silêncio que nos sufocava e víamos às vezes o colar de pérolas da bruxa má, a mulher velha que vivia na cabana de pedra com acesso ao destino, perguntávamos-lhe se um dia alguém nos ia apanhar e cozinhar em chapas de alumínio com molho de rosas em pétalas vermelhas, respondia-nos sempre a resmungar que

Parvalhões de pássaros que nunca aprendem que o destino não existe,

E eu, e eles, elas, acreditávamos que sim, que o destino não existia e era invenção de um velho a que toda a gente chamava de Armindo e diziam as más línguas que era ele o responsável pelo andamento do tempo, pois fazia-se passear durante a noite com uma enorme manivela que servia para dar corda às pesadíssimas roldanas de papel, os segundos transformavam-se em minutos, e os minutos corriam de mão dada com as horas, depois, muito depois as horas vestiam-se de dias, de semanas, meses, e anos, à espera

Parvalhões de pássaros que nunca aprendem que o destino não existe,

Que o amor acordasse numa janela de vidro sem cortinados, apenas a preto e branco a imagem dela, a manhã móvel e soalheira do ainda não acordado Sábado, tínhamos poesia e fatias de pão com manteiga derretida nas palavras de ninguém, que o amor acordasse, se transformasse em homem, se transformasse em mulher, se

À espera que dos parvalhões pássaros nasçam parafusos de areia e beijos de cetim, e beijos de chita, e beijos com beijos em beijos quando desce a noite e entra no púbis das mãos de linho, a minha mãe passava tarde intermináveis a construir colchas de renda, e eu, quando a apanhava distraída, roubava-lhe os novelos de linha para os meus papagaios de papel, e voávamos e voávamos, e voávamos como se lá fora existisse um fio de silêncio, um fio de silêncio com hálito a renda floreada, lindas, belas, elas

As colchas de renda, voavam também elas como se fossem papagaios à procura dos lábios da paixão, vivíamos prisioneiros a uma cratera de tesão que o meteorito tinha deixado nos nossos corpos flácidos, como as toalhas de linho da avó Silvina, e elas

Se

À espera dos parvalhões pássaros,

Pássaros vestidos com casacos de aço inoxidável e voávamos e voávamos, e voávamos como se lá fora existissem madrugadas sem portas, como se lá fora existissem alvoradas sem telhados, como se lá fora existissem dois pequenos corpos nas mãos do velho Armindo, ele hesitava

Ou pego neles ou pego na manivela e dou andamento ao tempo, curiosamente nós também não sabíamos, e ela dizia-me que tudo era culpa de Einstein, e eu

Enquanto fumava cigarros com sabor a chocolate não percebia o que tinha Einstein a ver com o que se tinha passado connosco, mas fingia acreditar, como finjo acreditar em tudo aquilo que me dizem, que me disseste, e dizes

Mentiras de porcelana com dentes de marfim, não importa, um dia voltarás como voltam os pássaros, todos os anos, vestidos com casacos de aço inoxidável, voltarás um dia, a não ser que

O velho Armindo deixe de dar à manivela e o tempo cesse em nós como cessaram todos os desejos de todas as palavras, como cessaram todas as árvores e todos os rios, e lá fora, ao longe, uma fragata de pano voa como voávamos antes de chegarem as amendoeiras em flor, ao longe, muito longe, como cessaram as lâminas de pele húmida com gotinhas de suor, se os

Parvalhões dos pássaros aprendessem que o destino não existe,

Tínhamos os casacos mais pesados da cidade, e ninguém ao regressarmos do dia para vermos, aos poucos, erguer-se a noite entre os mastros de madeira com as velas de pano amarrotado, sujo, levemente cintilante como as lâmpadas das escadas que nos levavam até ao telhado, sentávamos-nos sobre as telhas invisíveis e falávamos com a lua de prata que sombreava as minguas mãos dos vagabundos esquecidos sobre as lareiras de vidro, tínhamos os casacos mais pesados da cidade, e ninguém

“Pesadíssimas roldanas de papel, os segundos transformavam-se em minutos, e os minutos corriam de mão dada com as horas, depois, muito depois as horas vestiam-se de dias, de semanas, meses, e anos, à espera

Parvalhões de pássaros que nunca aprendem que o destino não existe,”

Ninguém queria saber de nós; de mim, de ti, deles, delas, dos pássaros e dos casacos de aço inoxidável.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:21

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