Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

26
Nov 17

Nas palavras, o silêncio.

Da noite camuflada pelos Oceanos perdidos, os pindéricos sorrisos da alma,

Os esqueletos de luz que vagueiam na triste Avenida, sem palavras, a distância dos osos na escuridão do mar,

Recordo o teu olhar de pálpebras silenciadas pelo vento. Os rochedos onde me deito.

A madrugada. Acordar em ti os sonhos de ontem, a difícil caminhada em direcção ao mar, dois corpos saturados da neblina, dois corpos misturados nas ínfimas luzes da cidade. Não durmo. Finjo brincar numa praia em papel, desenhada por uma criança, triste, como as estátuas de sal,

Os meus dedos na tua boca, quando libertas os livros aprisionados pelo tempo, liberta-te também de mim; desacorrenta-te, e desiste de lutar.

Amanhã lá estarei, desintegrado nas salas exíguas dos mortos jardins, pequenas árvores, pequenos arbustos no teu peito, esperando o veneno, escondo-me.

Nas palavras, o silêncio.

A solidão da manhã quando trazes nas mãos a chuva miudinha, pesadíssima, e, travestida de soldado, brinco em ti, comigo sentado numa pedra adormecida, à deriva na rua deserta da tua sombra…

Palavras, nas palavras, o silêncio, o prateado desassossego que a vida constrói no amanhecer, como os poemas, entre morto e mortos; o fim.

Ai que a vida parece um círculo, cada vez mais longínquo da cidade,

Como todos os sons da tarde, ao cair a noite,

Os sonhos, vagueiam no teu solstício medo de me deixar junto ao rio,

Felizes, aqueles que acreditam em Deus…

Porque os que não acreditam, morrem, e nunca compreenderão o silêncio.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 26 de Novembro de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:47

15
Jan 14

foto de: A&M ART and Photos

 

Perceber o fogo do corpo em suspenso

aquele que arde entre a morte e as palavras enraivecidas

escrever no corpo que arde em suspenso quando os lábios do fogo

não morrem... e permanecem inconstantes como um círculo descendo a calçada da Ajuda

perceber que o homem arde

fervilha

e dorme no colo de outro homem...

ergue-se o cansaço argiloso das andorinhas de papel

vem a nós os desejos preguiçosos das saudades de ontem

e fervilhas

como um pedaço de madeira nas mãos de Deus...

porque o rio se despediu de ti e tu permanecerás dentro da lareira da paixão.

 

 

 

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 15 de Janeiro de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:44

01
Mai 13

foto: A&M ART and Photos

 

As cerejas de Deus que nos teus lábios comem as minhas palavras

que das tuas mãos Deus colocou sobre o meu rosto de pergaminho

as sílabas transparentes dos degraus impossíveis de transpor

pelos teus sonhos em silêncios azuis

como as pétalas da rosa esquecida no muro em frente à tua alegre casa,

 

Tínhamos um telhado

onde nos escondíamos nas tardes de solidão

e depois de alicerçares nos teus braços os cadernos de nós

ficávamos assim livres a olhar as nuvens

e a inventar histórias que um jornal de província nos comprava,

 

Tínhamos dinheiro para o pão

e para comprarmos novos cadernos

tinta

e às vezes

sobrava-nos algumas moedas para fingirmos que fumávamos flores enroladas em marés de Inverno,

 

Víamos os barcos a morrer como gente desesperada

cansada de trabalhar

cansada... de viver

as cerejas de Deus... comem as minhas palavras

e deixam os caroços sobre a terra semeada,

 

Víamos os barcos em círculo na janela da solidão

barcos que escreviam histórias

nos corpos amarrotados como o papel higiénico da pastelaria

entre migalhas de torradas e o cheiro a chá de hortelã...

vivíamos felizes sem percebermos que éramos miseráveis.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 14:34

06
Mar 13

Pedi a todos os sons que se calassem e, cessou-se-lhe a respiração, vi, como se fossem uma nuvem de fogo, dois olhos a separarem-se de uma cabeça com caracóis loiros, dos lábios, um fino aroma a morango sobressaía e emergia do pequeno cadáver que Deus (como é costume dizer-se) tinha chamado até si,

Perguntava-me

Porquê ela?

Responderam-me que era a vontade de Deus, e eu, eu que nunca contrariei a vontade dele, mesmo discordando das suas leis, às vezes, egoístas, aceitei

E

Porquê ela?

Perguntava-me,

E porque não eu? Sim, podíamos trocar de posição, e em vez de ela adormecer eternamente no leito de lençóis bordados com flores e corações, poderia muito bem ser eu, eu no lugar dela, eu enroscado nos pedaços de cartão que arrebanhei do caixote do lixo, que todas as noites dorme na esquina da rua,

Porque eu, dizia ele, não faço falta,

E eu, não concordo, porque todos fazemos falta, mesmo os cadáveres indefesos, sem família, sem nada, mesmo esses, alguém sentirá a sua falta, e por isso proponho

A Associação dos Cadáveres Abandonados, com sede numa rua perdida dentro da cidade também ela perdida, uma cidade completa, com árvores e pássaros e barcos, e homens e mulheres

Que dormem embrulhados em pedaços de cartão,

(Pedi a todos os sons que se calassem e, cessou-se-lhe a respiração, vi, como se fossem uma nuvem de fogo, dois olhos a separarem-se de uma cabeça com caracóis loiros, dos lábios, um fino aroma a morango sobressaía e emergia do pequeno cadáver que Deus (como é costume dizer-se) tinha chamado até si),

E homens e mulheres, tristes e sós, vivos e obrigados a transportar um esqueleto desclassificado e não catalogado, alguns até, já perderam metade dos ossos, outros, outros tiverem e sentiram a necessidade de os venderem, e há sempre um oportunista à procura de pechinchas

Porque eu, dizia ele, não faço falta,

E eu, não concordo, porque todos fazemos falta, mesmo os cadáveres indefesos, sem família, sem nada, mesmo esses, alguém sentirá a sua falta, e por isso proponho, proponho-me a vestir-me de estátua e ficar eternamente num dos jardins a fotografar à distância o rio, também ele, um cadáver, triste como eu, alegre como ela,

A Associação dos Cadáveres Abandonados associa-se às pechinchas & pechinchas do senhor Manel Zé, cigano respeitado e honesto, criador de cavalos e comerciante na área dos fios de cobre, e quando tem algum tempo, dedica-se a fabricar ouros em casa, e diz que são como os originais, mas depois de os acariciarmos, notam-se-lhes os ossos, um esqueleto esquelético como os suspiros de amor que a mulher dele, a dona Maria dos Anéis transporta nas axilas, e lá fora chora-se a partida da querida Margarida com os seus loiros caracóis e que por dificuldades da própria vida decidiu ir para longe, muito longe, até que ninguém se lembre dela,

E homens e mulheres, tristes e sós, vivos e obrigados a transportar um esqueleto desclassificado e não catalogado..., como os cortinado pesadíssimos, negros, que encerram as janelas da paixão, escondem as flores verdadeiras, enquanto as outras, de papel, fingem orgasmos nas asas das abelhas entre margens de um rio doente, pestilento, ofegante, ouviam-se-lhes as garras a atingirem as mandíbulas dos triciclos de aço, mabecos em fúria num País desorganizado e amedrontado, e diziam-me que no capim viviam sonhos

Rebolava-me sobre ele, escavava cavernas e inventava guerras com soldados de borracha, e juro

Nunca vi e senti, um sonho, portanto

Mentiram-me,

Mentiram-me como me mentiram quando me disseram que foi Deus que a escolheu, quando hoje sei, tenho a certeza, que ele, ele não tem paciências nem forças nem vontade

De se meter nessas coisas,

Mesquinhices de mulheres do soalheiro, escadas sem patamar semeadas por velhas, que esperam, esperam pela chegada do campanário, da chama iluminada de palavras, e depois de um crucifixo enferrujado atravessar durante a noite o rio dos Desgostos, elas, coitadas, ainda acreditam no poder

Do sabão em barra de antigamente,

E claro que ele não se mete nessas coisas, ele não é de mexericos, do disse que não disse, e certamente terá muito mais em que pensar, olha por exemplo

Como irá ele resolver o problema das infiltrações que estão a afectar severamente o sótão, e alguns dos livros já se encontram misturados numa penumbra húmida com listras verdes e amarelas e negras, outros deles, intactos, e até parece que nada lhe acontece, saúde de ferro como o bisavô António, sentado na eira a enrolar cigarros só com uma mão e a contar-me histórias da Primeira guerra Mundial, coitado, coitados deles, dos vivos, dos mortos e dos que cá chegaram transportando um esquelético esqueleto onde já se notava a falta de alguns ossos, talvez os tenham trocado por comida, ou

Perdidos pelos campos imensos e desconhecidos,

Eles regressaram, ele regressou,

E encontrou uma junta de bois mais esquelética do que ele e do que alguns dos seus camaradas, como é cruel a vida, e os chamamentos com as inexplicáveis cartas de chamada, hoje

Senhor Francisco?

Sim, sou eu,

Acaba de ser contemplado com uma viagem para o Além...

E Pergunto-me

Porquê, Porquê eu?

 

(ficção não revisto)

Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:27

17
Jan 13

Entranhavas-te em mim como se fosses um seixo de aço com faces gretadas, dormias nos meus abraços enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, havia lagartas nas tuas mãos, havia pétalas de ciúme que desciam da boca da lua, havia um circo pobre onde estava sentada uma menina sem cabeça, havia, uma boneca no chão ao lado da menina sem cabeça, e a boneca falava, e a boneca sorria, e a boneca

Aos tropeções nas cordas que amarravam o tecto do circo ao cais de embarque, havia cadeiras de espuma com cinzeiros de prata para os fumadores, havia cadeiras de espuma com clarabóias de vidro para os poetas e para os amantes dos poetas, aos tropeções, havia palavras no centro do palco de mão dada com os tigres e com os leões, imaginava-me na selva Africana, e ao longe sentia os gemidos dos mabecos quando a noite se despedia das sanzalas e entrava pelo corredor do prédio da rua das Naus, sexto andar, sem elevador, ofegante tu, quando me abraçavas e eu dormia nos teus abraços,

Entranhavas-te em mim como se fosses um seixo de aço com faces gretadas, dormias nos meus abraços enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, achava-te magro ao ponto de me perguntar até quando

E respondias-me que enquanto deus quiser,

E se deus não quiser, e se deus definitivamente desistir dos telegramas que te mantêm em pé como os cristais da mesa da sala antes de os levarem para a derradeira penhora, se eu pudesse, se eu pudesse penhorava-te, porque és apenas meia dúzia de ossos sem cabeça, e eu via a cidade engordar com os sobejos de luz que os dias deixavam esvoaçar das asas de papel das gaivotas embriagadas, se eu pudesse penhorava-te, porque és apenas uma mão recheada de pedras que um miúdo aproveita para partir os vidros da velha escola com olhar para os plátanos de algodão, e respondias-me que

Aos tropeções nas cordas que amarravam o tecto do circo ao cais de embarque, havia cadeiras de espuma com cinzeiros de prata,

Os abraços onde eu dormia não sentindo os sons tropeços dos rolamentos constipados pelas correntes de ar que atravessavam a montanha e escondiam-se nas traseiras da avenida vinte e cinco de Abril, todas as cidades, aldeias, todas as vilas

Um avenida vinte e cinco de Abril,

A ponte em círculos ao lado da menina sem cabeça onde dormia uma boneca com mãos de vidro e lábios de estrelas e flores imaginadas por um poeta enquanto olha o espelho da morte, e do outro lado, do outro lado estão as lágrimas da saudade, em Abril, de Janeiro até hoje, amanhã levantará amarras o pequeno circo pobre, levará a menina e a boneca, e a ponte

À espera do paquete verde com ramos de palmeira, regressas novamente aos meus abraços, o poeta despe a amante do vizinho poeta, e quando a amante do poeta, vizinho do poeta poeta, um corpo de mulher transforma-se em migalhas de perfume com sabor a maré e pôr-do-sol, é quinta-feira e dou-me conta que não tenho tempo para encerrar as janelas e as portas da cidade dos anjos, o poeta furioso

Bate-me,

Furioso ele acreditava que os seixos de aço com faces gretadas, dormiam nos abraços vizinhos, enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, havia lagartas nas mãos da amante do poeta vizinho, havia pétalas de ciúme que desciam da boca da lua, havia um circo pobre onde estava sentada uma menina sem cabeça, havia, uma boneca no chão ao lado da menina sem cabeça, e a boneca falava, e a boneca sorria, e a boneca sentia as minhas mãos enquanto a despia, enquanto a metamorfose do corpo se misturava com as marés e os longínquos sonhos sobre a cama debaixo da tenda do circo, havia poetas de pano que escreviam às mesas de cimento enrolados a três cadeiras de mármore, havia amantes de poetas, pobres, ricas, lindas, perfumadas pelas inocências nocturnas das aranhas que viviam nas caves dos cabarés que de cidade em cidade, uma avenida

Vinte e cinco de Abril,

Toda ela morta, toda ela derretida como lágrimas de aço no corredor da inocência, e chove, e deixaram de brincar os marinheiros nos teus abraços, vestes-te de silêncio

Vinte e cinco,

E eu não sabia o que era o amor e o pólen que os poetas e as amantes dos poetas e as bonecas, e o circo pobre,

Comem como se o teu corpo fosse um seixo de aço com faces gretadas, dormias nos meus abraços enquanto lá fora brincavam as amoreiras de luz com as sombras amarguradas dos pinheiros doentes, havia lagartas nas tuas mãos, havia pétalas de ciúme que desciam da boca da lua

E lá fora chovia,

Em toda a cidade dos anjos.



(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:38

27
Dez 12

O cabelo minguava a cada fotografia a preto e branco no espelho do guarda-fato, os tios uns forretas de doutoramento abstracto e risíveis amargas glândulas das palavras ensonadas pela espuma do mar e de punhos cerrados, e as tias, beatas convictas nas calçadas embriagadas dos milagres impossíveis da ilha dos desejos, pensa

 

E não me adiantava pensar, porque com eles não ia longe e com elas, coitado de mim, queixa-se ele quando nos contava as anedóticas peripécias de uma infância desenhada a esquadro e régua, e às vezes, e às vezes,

 

Pensa, pensa nas coisas boas que a pobreza proporciona aos homens e às mulheres, e às crianças, e a deus, porque digamos que

 

Deus também será pobre?

 

Não sei, não sei, e às vezes

 

E eu pensava, nas clarabóias da crosta em bosta que os animais derramavam no alpendre com ventilação mecânica, iluminação natural, em néon com chapinhas de zinco suspensas nos cromados que diariamente a Marília acariciava, e nova vida, e uma placa de madeira prensada à porta de entrada

 

Vendem-se cromados acabadinhos de fritar, doida, ela subia à copa das árvores, e sem perceber que a gravidade, às vezes muito grave, gravíssimo

 

E no entanto fazia-o por prazer, não por loucura, segredava-me ela Eu não estou louca! Claro que não Marília, Claro que não, loucos

 

Deus também será pobre?

 

Não sei, não sei, e às vezes

 

Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim

 

Loucos e Loucas,

 

E eu?

 

Claro que não, Claro que não,

 

Piratas, tentáculos que desciam do alpendre, a fome vestida de tarde de verão, deitava-me junto à seara de trigo, pegava numa palhinha e metia-a na boca, imitava cigarros, e sonhava com aviões com olhos azuis, e sonhava com aviões com cabelos de alecrim, jasmim, cravos de sofrer que as rodas dentadas atropelavam pelos corredores da enfermaria

 

Não estou louca

 

Claro que não, Claro que não

 

Marília abre a mão está na hora das drageias, não sei, não sei, e às vezes

 

Não resistia ao chamamento dos pássaros quando poisados no peitoril guerreavam entre eles por minha causa, e percebia, e eu sabia que cada um deles

 

Eu

 

Eu levo-a a passear,

 

Os pássaros, as gaivotas, o mar e os barcos de papel, a melancolia e a tristeza absoluta, os orgasmos e todos os púbis fingidos de amnésia e licor de medronho, esses Marília, esses sim

 

Loucos e Loucas,

 

E eu?

 

Claro que não, Claro que não,

 

E eles,

 

Loucos e Loucas,

 

Pegavam em mim, aos poucos começavam em batimentos fictícios de asas, e eu sentia

 

Sim diz, O que sentias Marília?

 

Sentia-me levitar, devagarinho, de milímetro em milímetro, e quando acordava estava sentada no telhado, cruzava as pernas e esperava

 

Sim diz, O que esperavas Marília?

 

Que alguém me resgatasse das garras loucas dos pássaros do jardim, e perguntava-me

 

Deus também será pobre?

 

Claro que não, Claro que não.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:45

20
Ago 12

Sou um desgraçado

desengraçado

uma árvore apoteótica

que alça a pata para mijar contra a parede dos sonhos

 

não vou falar do amor

e odeio a poesia

nem tão pouco irei escrever à mulher do rés-do-chão esquerdo

que finge enviar telegramas a Deus

quando este dorme profundamente nos alicerces da morte

 

a parvoíce dos pássaros com bilhete para a viagem até ao infinito

check-in sobre a copa das árvores

que de longe observam a loucura dos barcos

e dos cristais de iodo

 

lábios de sede perdidos nas páginas de um jornal

que embrulham as pernas do vagabundo

(Sou um desgraçado

desengraçado

uma árvore apoteótica

que alça a pata para mijar contra a parede dos sonhos)

com a dentadura de marfim

e os olhos de vidro

made ln-China

das noites os sargaços adormecidos

 

odeio as borboletas e as abelhas que enviam telegramas para Deus

e odeio a poesia

fingida de amor

nas janelas da noite

 

(odeio o rés-do-chão esquerdo).

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:24

01
Ago 12

É perfeita

a neblina pintada de orvalho

nas clarabóias da floresta abandonada

seria deus perfeito

se não existissem estrelas no céu

e a noite não fosse construída de silêncios invisíveis

e cansados

e não amados

e abandonados

dos berros intestinais

à janela

sem passaporte para o abismo

 

é perfeita

a neblina invisível

que amarra os corações apaixonados

das serpentes que vivem dentro do cubo de vidro

 

e conseguirá a perfeição

apaixonar-se por uma árvore

caquética

e aposentada?

 

é perfeita a minha vida

(perfeitamente parva)

 

é perfeita

a neblina pintada de orvalho

nas clarabóias da floresta...

publicado por Francisco Luís Fontinha às 12:01

05
Jul 12

Podia ser feliz

ou um barco

sem vela

podia ter sido uma rua da cidade de Luanda

entupida no lixo deambulante sobre a noite

podia ter sido o mar

o amor

o eterno veneno

a dor

podia

podia ter sido uma abelha misturada com a chuva

ou a paixão do silêncio

 

ai se eu fosse as amêndoas da tarde

em forma de poema

sobre a morte acidental

 

podia ser feliz

ou um livro de poesia

adormecido na prateleira da insónia

(podia ter emprego e dinheiro e assim já me conheciam

e assim

e assim já me cumprimentavam...)

podia ter sido o capim

e as mangueiras

e os triciclos de madeira

 

mas quis deus

que eu fosse um caixote

com paredes de vidro made in China

com coração de árvore

quis ele

quis deus

 

(podia ter emprego e dinheiro e assim já me conheciam

e assim

e assim já me cumprimentavam...)

 

que eu falasse como os pássaros

e gritasse como as nuvens

e desenhasse nas paredes da infância

a morte simplesmente bela

toda nua

à janela

quis ele

quis ele que eu fosse um poema sem palavras.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:37

21
Mai 12

Há sempre alguém à nossa espera, o sol, a chuva, o vento, o mar, os lençóis de um divã, ou um petroleiro engasgado no sofrimento do rio, há sempre um cubo prisioneiro numa janela de primavera sem telhado, há sempre uma mulher suspensa no arame de luz que atravessa a rua, há sempre um automóvel pronto a caminhar sobre o meu corpo, há sempre um pano negro que ofusca o meu olhar, uma nuvem cinzenta que dissipa os meus sonhos, há sempre

 

- o dia disfarçado de noite, a luz disfarçada de chuva, o amor vestido de gangster e de metralhadora ao ombro, o homem de túnica encarnada a dançar sobre as pedras da calçada, o girassol murcho nas mãos de uma criança, o rio sem nome em direcção ao mar,

 

Há sempre, uma cidade que deixou de existir, uma escola que cresceu e hoje é o cemitério onde são enterrados todos os livros de poesia, há sempre, a rua da saudade paralela à rua do desejo e atravessa a rua da solidão, há sempre, a vida pintada de muitas cores numa tela de vidro, a boca louca em busca do beijo, a flor cansada que procura a carícia do jardineiro, sempre

 

- há bolachas sem cigarros, orquídeas em papel nas paredes do meu quarto, a clarabóia acaba de morrer e leva-a a noite para longe,

 

Portanto..., diria que há sempre um dia, uma noite, uma manhã sem sentido, o pequeno-almoço, jantar, lanche e almoço, a Eucaristia, há sempre

 

- deus a castigar-me, há sempre alguém à nossa espera, a chuva, o vento, as nuvens, um petroleiro louco nos carris do destino, deus cansado de me ouvir, deus à procura dos lençóis de nylon gamados na feira da ladra, o relógio, há sempre um relógio a controlar-me, sempre a odiar-me, sempre pertinho de mim,

 

Há sempre uma mão que cerras olhos quando eu atravesso a rua,

 

- sempre, pertinho de mim.

 

Uma mão imaginária de óculos escuros.

 

 

(texto de ficção não revisto)

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:43

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