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Cachimbo de Água

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Dia de um libertino

Francisco Luís Fontinha 23 Mar 11

Os gajos dizem que não preciso de dinheiro para viver; e não preciso.

Levanto-me às oito horas da manhã e fumo três cigarros enquanto liberto a porcaria pelo rabo que me ficou esquecida da noite anterior, não tenho dinheiro para comer, alimento-me de livros, baixo a cabeça e no fundo da sanita vejo um poema de Al Berto a boiar, não cheira mal, e mais ao lado vejo frases do livro de A. Lobo Antunes “que fazei quando tudo arde?”, e fico-me na pergunta,

- quando tudo arde findam-se-me os cigarros,

E muitos perguntarão como tenho cigarros se não tenho dinheiro, e eu sinceramente respondo,

- não tenho dinheiro e dão-me cigarros, e às vezes, cinco euros que não servem de nada, mas sempre me sinto mais feliz com cinco euritos no bolso,

Tomo banho, pequeno-almoço um poema de Mário cesariny e começo a escrever porcarias sem nexo, mais um cigarro, mais uma ida à casa de banho, e café só às vezes quando o meu amigo Delfim (Magalhães) me paga um ou dois,

- ah… e às vezes compra-me um macito de cigarros,

O almoço hoje não, doíam-me os olhos, não li, não me alimentei de palavras,

- e as palavras à minha espera em cima da mesa,

E eu direitinho para a cama fazer uma sestazinha, descansar o estômago das palavras encalhadas na minha cabeça e enquanto passo pelas brasas, não fumo, não gasto cigarros que me fazem falta para a noite,

E hoje tenho da lanchar, e hoje vou ter de comer uma sandes porque isto de comer apenas palavras também não será muito saudável,

. digo eu,

Os gajos dizem que não preciso de dinheiro para viver; e não preciso.

E os gajos preocupados com o pote,

- e o pote, pá?

E eu passo o jantar em branco. Vou directamente para a cama e antes de dormir vou comer mais umas folhinhas de um livro qualquer,

- e os gajos preocupados com o pote; agora sou eu a comer porque tu já comeste…

E eu, pá?

E eu não preciso de comer?

Levanto-me às oito horas da manhã e fumo três cigarros enquanto liberto a porcaria pelo rabo que me ficou esquecida da noite anterior, olho-me ao espelho e,

- como eu sou tão feliz!

E os gajos preocupados com o pote,

- e o pote, pá?

 

 

 

Luís Fontinha

23 de Março de 2011

Alijó

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