Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

19
Mai 15

Os teus braços aqui ao lado,

Parecem serpentes esfomeadas

Esperando as palavras da noite,

Ambos sabemos que as palavras não regressarão nunca,

Como nós,

Impossível regressarmos de onde partimos,

Complicada

Esta vida de marinheiro sem embarcação,

Complicada

Esta vida de transeunte sem cidade,

Ou livro, ou cais…

Para aportarmos,

 

Falta-nos tudo

E tudo temos,

 

As crateras e os peixes,

O silêncio e a madrugada,

Embriagados destinos

Com sabor a nada,

 

E os teus braços

Mesmo aqui ao lado,

Serenos,

Deitados…

Ouvindo os apitos dos comboios encurvados no Douro,

O rio

Sofre,

O rio

Sente

Os teus braços…

Nos meus braços

Afogados.

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Terça-feira, 19 de Maio de 2015

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:20

30
Abr 14

havia em ti pérolas de naftalina

eu pensava que o mar era só meu

e o egoísmo alimentava-me e fazia com que as minhas asas de amanhecer...

ardessem

como o cigarro que fumo e suspenso na janela com vista para os patamares do Douro

o rio entranhava-se em pedacinhos de dor

sofrimento

e algumas lágrimas invisíveis... poucas... voavam como gaivotas sem nome

descubro o amor numa solitária videira

a paixão numa triste pedra em granito... perdida na rua

à espera do silêncio na esquina sem transeuntes

e oiço as palmeiras com sombras de doirado anoitecer.

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:02

23
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

há tanto silêncio nos lábios de um rio

há dor insignificante nos braços de um drogado

há pétalas cansadas nos guindastes dos teus olhos

pérfidas madrugadas

poemas e velhas canções

há janelas de onde nada consegue sobreviver como as ratazanas de esgoto

escadas sem corrimão de acesso ao sótão da insónia

há poetas e aprendizes de poetas

e eu

eu nem uma porta de entrada consigo ser

nem uma simples fechadura consigo abrir

e este coração é louco entre palavras e sensações

 

memórias

histórias

canções perdidas nos teus seios de capim...

há tanto silêncio nos lábios de um rio

que sinto medo de morrer

partir

morrer e não saber como são os socalcos depois de a chuva cair

partir

sem o saber

livremente voando sobre ti em desenhos quadrados de um colorido beijo

há tanto silêncio

sobre o caixão invisível que embrulha a minha paixão de esferovite...

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:20

18
Set 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Poderia perceber a tua ausência, e mesmo assim, acredito nas planícies do teu olhar mergulhado em espuma e corações amarrotados, que vivem, que fingem viver dentro de algibeiras com janelas de porcelana, opacas, tristes muralhas para que me seja proibido

Olhares-me,

Habito num castelo sem escadas, muros, flechas com ponta de aço, e nem gaivotas me visitam, amo e sei que sou amada, choro e percebo que sou chorada, desejo e sei que sou desejada, e das tristes muralhas para que me seja proibido sonhar, oiço as tuas palavras contra os cortinados de vento, rodopiando em redor do meu corpo, suspenso, levitando como uma espada de aço no peito de um soldado,

Olhar-te e perceber que já não és tu, olhar-te e perceber que deixaste de pertencer aos uivos gritos das sandália plastificadas, sonolentas, olhar-te e perceber que eu não sou eu

Deixas-te de existir, vives não sabendo viver, comes, bebes, e esperas o regresso do mar que nunca ninguém nos garantiu que existia, que ninguém dos nossos presente garante ter visto, e no entanto, esperamos, temos esperança que desçam das sílabas mórbidas das flores comestíveis...

Olhares-me

Apareçam os tão desejados muros com alicerces de prata, o xisto revestido e desenhado como se de um vestido se tratasse, e os pássaros, esses imbecis... comem às mãos das costureiras que travestem agulhas e dedais antes de cair a noite

Sobre mim?

Olhar-te... cansa-me!

Beijares-me?

“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto

De mim?

Não, não... chegava-me apenas a tua sombras disforme, envenenada pelos espelhos das montanhas adormecidas, na tela misturam-se cores abstractas, imagens fotográficas voam sobre um velho rio com cabelo branco, um planeta poderia chamar-se de “Uva Moscatel” e o meu próximo negócio vai ser precisamente vender lotes de terreno na Lua, assim

De mim?

Ou então

Melhor ainda,

Melhor de que lotes de terreno na Lua? Não, Não consigo deslumbrar...

Podias vender garrafas com o ar de Trás-os-montes,

Melhor ainda,

Podias vender garrafas com o ar do Douro Vinhateiro,

“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto

De mim?

De ti e das tintas acrílicas para preencher as imagens a preto-e-branco das fotografias que suicidam árvores antes de cair a noite e de se evaporar a tarde, na Feira da Ladra?

Saem três garrafas de ar de “Trás-os-Montes”,

Com certeza, minha adorada senhora, é para já... deseja factura?

Não?

Olhar-te e perceber que já não és tu, olhar-te e perceber que deixaste de pertencer aos uivos gritos das sandália plastificadas, sonolentas, olhar-te e perceber que eu não sou eu, olhares-me e entenderes que sou, fui, e serei

Esquelético?

Não, não minha querida,

Às vezes sinto-me uma mesa de uma sala de jantar, à minha volta, imensos parvalhões sentados em cadeiras forradas a pele de crocodilo, apetecia-me prender-lhes as pernas com uma corda e atirá-los pela janela, ouvia-os caírem sobre os rochedos da madrugada, partia-se uma das garrafas com ar do “Douro Vinhateiro” e

Quanto custa?

São vinte e cinco euros, vinte e cinco deslumbrantes euros, e se o desejarem

Autografadas?

Claro, não problema...

“Estou triste, meu amor, dizem que não vou ganhar a bicicleta...!”, e precisava tanto dela, e precisava tanto

De mim?

De ti?

Claro, não problema...

 

 

(Ficção – Não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

Quarta-feira, 18 de Setembro de 2013

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:03

28
Jul 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Esquilos, nozes em vozes, mamilos denegridos, absortos, lábios lânguidos, corpos absolutamente sós, como eles, e como nós, os vizinhos quando lhe batiam à porta em maciça madeira, ele, ainda embriagado pela poesia não escrita, escondia-se, fazia-se... morria, não percebendo depois, que tudo era a fingir, acordava, voltava a dormir, deixou de sorrir, deixou de viver, não queria passear-se pelas cansadas margens de um doente rio, vivia-se, e ia-se vivendo, não sabendo, nunca, o horário penumbro das amendoeiras em flor,

Descia-se,

Subia-se,

E chorava-se,

Esquilos vaidosos roendo nozes de brincar, fantasia, histórias ao almoçar, sobre uma pequena mesa, de pedra, no quintal, uma árvore e um pássaro, preto, bico amarelo,

Melro?

Melro, talvez, porque não?

Inchados, os pilares de areia que seguram as amarras das tristes varandas com murchas flores, ao longe, a praia, o silêncio, o corredio de machimbombos vomitando sonhos adormecidos entre o Baleizão e o Mussulo, batiam-me à maciça madeira porta, eu, eu escondia-me, ou simplesmente berrava

Não estou em casa, hoje,

E eles, elas, acreditavam..., tão parvos, e continuava fingindo dormir, quando na verdade, eu, eu estava morto, desde criança, morri, recordo-me vagamente, tinha alguns poucos, não muitos, seis anos de vida, lembro-me como se fosse hoje, era Setembro, brevemente começavam as vindimas

O que são vindimas, pai?

É o apanhar das uvas...

Uvas, o que vão uvas, pai?

Não percebia que as videiras

Pai, sim filho, o que são videiras?

Não percebia que as videiras davam uvas, que existiam cachos, e lembro-me como se fosse hoje, era Setembro, quase, quase começavam as vindimas, e lembro-me, morri, depois, embrulharam-me num lençol de água salgada, permaneci assim cerca de vinte e oito dias, era Outubro, caiam as folhas das árvores, e eu, eu perguntava-me porque caiam as folhas das árvores,

O que são vindimas, pai?

É o apanhar das uvas...

Uvas, o que vão uvas, pai?

Não percebia que as videiras

Pai, sim filho, o que são videiras?

E pela primeira e última vez, eu, eu tive vergonha de perguntar ao meu pai

Pai, porque caem as folhas das árvores?

Eu tive vergonha de perguntar ao meu pai se esta terra era para sempre ou apenas para eu brincar, e começaram as chuvas, e o frio, a geada e a neve, e eu, eu morto, fui ficando, fui ficando... embrulhado num lençol de água salgada.

 

(não revisto)

@Francisco Luís Fontinha – Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 22:58

14
Jul 13

foto de: A&M ART and Photos

 

Um pouco de silêncio não faz mal a ninguém, segredavas-me quando nos sentávamos sobre a pedra de xisto junto ao rio, e ficávamos, apenas sós, e olhávamos um para o outro, inventávamos desenhos, porque são mais belos que as palavras, e assim, apenas nós, permanecíamos um em frente ao outro, de olhos verdes para olhos castanhos, sem palavras, sem cortinados de fumo, sem geometria descritiva, que às vezes, poucas, utilizávamos para transformarmos a solidão em pedacinhos de insónia, e lá vinha o eterno abraço... caía a noite sobre o teu doirado corpo, percebia-se pelos teus seios os socalcos íngremes descendo a montanha... até que os carris em aço entranhavam-se-te nas mãos tristes, tuas, ao longe, ouvíamos um sonolento comboio com rota para o Porto..., e adormecíamos como duas crianças no colo da inocência, não percebi que chorasses, e sabia que a tua tristeza era real, estava viva dentro de ti, eras como uma seara de trigo suspensa no vento vindo do mar, um pouco de silêncio, não, a ninguém como éramos espelhos côncavos dos jardins de Belém, ouvíamos o assobio do rio em todos os finais de tarde, hoje, o mesmo silêncio, o mesmo decalque do último final de tarde, o cheiro do teu corpo que sobejou e permanece intacto nos arbustos perto do rio, e recordamos os sítios com sabor a ardósia da tarde, a nossa tarde

Choviam-nos sílabas recheadas com marinheiros embriagados, dizias que amavas todos os peixes, percebi por não ser eu um peixe... que não me amavas,

Tu és diferente,

Porquê, perguntava-te,

Respondias-me que adormecíamos como duas crianças no colo da inocência, não percebi que chorasses, e sabia que a tua tristeza era real, estava viva dentro de ti, eras como uma seara de trigo suspensa no vento vindo do mar, um pouco de silêncio, não, e corações enublados avançavam pelas trincheiras do desejo, gemias quando lias os poemas de AL Berto, como se estivesses a ser penetrada por um vulcão de pétalas pintadas de encarnado,

Eu que era diferente,

Porquê?

AL Berto, sorria-nos enquanto inventávamos posições sobre o colchão manchado de tinta permanente de uma velha caneta de sexo,

Havia em nós,

O quê?

Havia em nós sítios de areias brancas, palmeiras, ao longe, machimbombos rosnavam quando o avô Domingos com um cordel os puxava pelas ruas, depois chegava a casa, cansado, abraçava-me e tombava sobre a cama, como um sonâmbulo depois de passear-se pelos rochosos sexos de sal que era cuspido pelo mar do Mussulo até que uma criança, ele, em pequenas rotações, cambaleava e experimentava o estado de embriaguez de algumas plantas, flores, pedras...

Que às vezes, poucas, utilizávamos para transformarmos a solidão em pedacinhos de insónia, e lá vinha o eterno abraço... caía a noite sobre o teu doirado corpo, percebia-se pelos teus seios os socalcos íngremes descendo a montanha... até que os carris em aço entranhavam-se-te nas mãos tristes, tuas, ao longe, ouvíamos um sonolento comboio com rota para o Porto..., e adormecíamos nos braços da tarde, éramos loucos, diziam-nos..., loucos porque amávamos os corpos nus que dormiam dentro dce nós,

Porquê?

O quê? Gemias quando lias os poemas de AL Berto, como se estivesses a ser penetrada por um vulcão de pétalas pintadas de encarnado,

Eu que era diferente,

Porquê?

 

(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:25

28
Jun 13

foto: A&M ART and Photos

 

Nada me apetece, nada me interessa, o sono chora dentro de mim como um rio encostado aos seios desnudos da montanha com corpo de socalco, uns míseros carris de aço contornam a barriga de pele lisa e perfumada, as videiras conversam com as mãos de xisto de homens e mulheres, alguns, filhos da montanha, herdaram-na dos avós, passaram a pertencer aos pais e dos filhos pertencerão, um dia, e se esse dia chegar, um comboio desgovernado roçará o sexo na água morna e serena do Douro antes do pôr-do-sol,

Nada me interessa, dizes tu, desiludido com as nuvens inventadas pelos olhos da Andreia, sorris como sorriram as cavernas dos dentes de marfim, um crocodilo em pau preto suspendes-se sobre a mesa da sala de visitas, está triste, está cansado de viver sempre sobre a mesma mesa, sempre a ouvir as mesmas palavras, e sempre

O calendário

E sempre a olhar os dias preenchidos com pequenas cruzes, depois de terminarem, novas cruzes, novos círculos, até que a noite seja noite, até que o dia morra dentro da garganta do mar,

O calendário submete-se aos critérios do crocodilo com dentes de marfim, tão velho, tão velho que se perdeu na idade, tão velho que nem o próprio luar se recorda do seu nascimento, e sempre, sempre pronto a resmungar com as letras de caligrafia antiga que vivem nas fotografias do álbum que trouxemos de Angola, e tão velho, tão velho como as lágrimas do amor...

Nada me apetece, oiço o grito desesperado do finalmente só, oiço a alegria das tardes antes de terminarem, mesmo antes da menina Andreia acender todas as luzes do silêncio, a musicalidade, a poesia, o reviver de sonhos esquecidos num fita de dezasseis milímetros, imagens, vultos passeando-se junto a umas pedras de nome

Albertina, Joana e Joaquina,

Três lindas flores, três belas montanhas, encalhadas entre um rio louco e um par de carris envelhecidos, encurvados, às vezes chorando porque as dores são intensas, as dores do cansaço, as dores da desilusão, as dores da vida quando deixou de existir vida nesta terra, as dores da solidão, quando entre multidões

Estamos sós, diz-me ela antes de baixar o estore e desligar o interruptor dos queixumes, das dores quando as dores não são físicas, quando as dores são dores, inventadas pelas noites intermináveis, pelas noites doentes com dores não dores

Albertina, Joana e Joaquina,

Três meninas, três sonhos, três jardins com três lagos, e onde brincam... três patos,

Quando entre multidões os esqueletos vadios confundem-se com as dores de não dores, quando entre multidões os dentes de marfim dele, deixam de lhe pertencer, quando os pássaros que voam dentro da cidade, cai a noite e todos eles, sem excepção, entram casa adentro, poisam sobre os arbustos que vivem na sala de jantar, um dia, tão velho, que me esqueci dele no velho calendário, um dia pareceu-me ouvir-lhe algumas palavras, poucas, escrevia-as tal como as ouvi, e ainda hoje, depois de muitos anos, tão velho, coitado, pergunto-me

Porquê?

Albertina, Joana e Joaquina,

Três patos, três pontes, e três barcos, tão... tão velhos como o teu corpo de seda

Pergunto-me,

Tão velhos como o teu corpo de seda, tão velhos como nós, e se te perguntar – Quem somos nós? - percebes que não somos ninguém, percebes que não somos papel, percebes que não somos palavras, percebes que não somos dias, noites, desilusões ou sonhos, percebes...

Que não somos nada,

Pergunto-te

Porquê?

E

Albertina, Joana e Joaquina, tão velhas, também elas, tal como nós... não o sabem, ou não querem falar,

Porque ainda existem palmeiras no largo em paralelos graníticos do tempo em que sabíamos quem éramos, sonhos, percebes?

E

Albertina cerrou os olhos como o fizeram todas as pálpebras da cidade esquecida no centro da montanha,

“nada me interessa, dizes tu, desiludido com as nuvens inventadas pelos olhos da Andreia, sorris como sorriram as cavernas dos dentes de marfim, um crocodilo em pau preto suspendes-se sobre a mesa da sala de visitas, está triste, está cansado de viver sempre sobre a mesma mesa, sempre a ouvir as mesmas palavras, e sempre

O calendário”,

No centro da montanha em púbis de cereja.

(e o calendário arde encostado à parede das tuas coxas de areia)



(ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

publicado por Francisco Luís Fontinha às 23:09

16
Jan 13

Inventava-te histórias enquanto dormias dentro de uma agenda recheada de espaços vazios, passavam os dias, alimentavam-se as semanas das semanas hipoteticamente, também elas, vazias, sôfregas flores à espera da doce Primavera, doce

As horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua

Doce tua,

Inventava-te histórias

Não verdadeiras,

Histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente amadas pelas mãos dos homens que corriam a trás de ti, e tu, sabia-lo, tinhas consciência das cartas escritas sobre os velhos joelhos de rocha, que todas as noite, o mar embalava e atirava para as garras da saudade,

Não verdadeiras as histórias que me inventavas, todas as mentiras quando regressavas a casa, desculpas, reuniões, jantares com clientes, e de súbito abria-te a agenda, e percebia que

Vazia, histórias enquanto dormias,

Não verdadeiras doce tua,

E percebia que inventar-te também dava trabalho, muito, cansava-me com as sombras do teu corpo projectadas nas árvores pobres da cidade, o sono tombava-as e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, inventava-te histórias de açúcar, e um fio límpido de chuva descia pelo teu rosto, contornava o teu pescoço esguio e preguiçoso, e poisava-se nos teus ombros, descansava um pouco, continuava em andamento e em aspirais de pêssego rodopiava em círculos à volta dos teus seios que a areia do Mussulo esculpira na melancolia das tarde de Sábado, quando eu percebia que

Vazia, histórias enquanto dormias,

Não verdadeiras doce tua,

E percebia que inventar-te também dava trabalho, e que o fio límpido de chuva ia descendo teu corpo abaixo até esconder-se no púbis húmido das palmeiras que a Baía guardava como se fossem o maior tesouro de Luanda, e sentava-se

Sentava-me numa simples cadeira de pedra a olhar o mar nas suas histórias de amor que o açúcar desenhava nos corpos cobertos de espuma, havia pássaros com flores de papel no bico, havia parafusos de aço nas ligações do arco-íris e que faziam com que as cores andassem sempre de mão dada, havia

Não verdadeiras doce tua,

Havia barcos de esferovite com velhos motores de carrinhos a pilhas, havia alegria, vida, havia silêncios sem sabor a solidão, histórias de açúcar que tu lias com a ajuda dos teus lábios de nuvem encharcada de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas

Havia a lua,

Nuas não verdadeiras doce tua vida de cidade sem rio, não verdadeiras, todas as falsas janelas com vidros de linho, falsas portas em falsa madeira das árvores que tombaram com o sono e o vento deixava-as como serpentinas de aço enroladas em arbustos com vista para o rio, havia lua, encharcadas de melodias e palavras poeticamente afáveis, belas, nuas

Nas horas de sentido único de uma rua sem saída, ao fundo, um edifício de chocolate com braços de prata, e nos olhos, pequenas pérolas em drageias para combater a insónia, tua

Doce tua,

Inventava-te histórias

Não verdadeiras,

Histórias de crianças que nasceram em Luanda, histórias de crianças que brincavam em Luanda com papagaios de papel e nas sombras ínfimas das mangueiras escondia a solidão do silêncio, inventava-te histórias, inventava-te laranjas com sumo de tomate, inventava-te o amor, e todas as palavras escritas nos muros da paixão

(e confesso que detesto conversar e inventar histórias sobre crianças que nasceram em Luanda, recordo-me das ruas, do mar, dos machimbombos, recordo-me do todos os cheiros, e das cores que a terra húmida construía nos corpos de veludo, e confesso, que detesto)

Os muros da paixão, as mãos dos muros da paixão

(e confesso)

Que detesto os lábios, a boca, os olhos

(e confesso)

Que todas as histórias que te inventei não verdadeiras, falsas, que detesto

(e confesso)

Que a primeira vez que vi socalcos, chorei, como choravam as meninas das minhas histórias de açúcar quando um fino tímido fio de chuva descia e descia, descia os socalcos e entranhava-se no Douro, e chorei

(e confesso)

A primeira vez que vi socalcos.

 

(texto de ficção não revisto)

@Francisco Luís Fontinha

Alijó

publicado por Francisco Luís Fontinha às 20:23

05
Abr 12

Desejo-me de barco em barco

De rocha em rocha

Desejo-me sobre a copa de uma árvore

Onde me prende uma mesa de madeira

Sobre a mesa de madeira caldo de cebola

E trigo de Favaios

Desejo-me dentro do Porto

Vinho que dá vida

Que do porto nada tem

E no douro cresce nas mãos calejadas de homens e mulheres

De rocha em rocha

De barco em barco

Desejo-me quando me aprisiona o espelho da vida

E dispo-me sobre a mesa de um bar

(já o fiz

E voltarei a fazê-lo)

Alguns de vós dizem

Coitadinho do louco

Que fumou de tudo um pouco

Coitadinho

Desempregado

Desamado

Desgraçadinho

Desejo-me sobre a copa de uma árvore

De rocha em rocha

De calhau em calhau

Desço até ao pavimento as calças esmiuçadas

Que dançam sobre a mesa de um bar

Sem lareira sem literatura

Apenas um bar com muitas gajas

E um copo de silêncio sobre o balcão

Coitadinho

Do menino

Sem tino.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 00:56

12
Set 11

O Douro em socalcos

Quando acorda a manhã,

 

Descem as nuvens e poisam nas videiras,

E as vindimadeiras

Apressadas,

E as vindimadeiras

Cansadas,

 

O Douro em socalcos

Quando acorda a manhã,

 

Pássaros a voar

E as vindimadeiras a cantar

Cantigas de antigamente,

O rio em curvas direito ao mar,

E a vindimadeira do Douro contente,

 

Às vezes chega a casa e leva pancada,

O marido ausente

Com bebedeira e cabeça trastornada…

E a vindimadeira do Douro sente

 

Que não é amada

Nem acariciada,

O rio corre sem parar

E nos socalcos anda gente,

Gente que precisa de trabalhar.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:55

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