Blog de Luís Fontinha. Nasceu em Luanda a 23/01/1966 e reside em Alijó - Portugal desde Setembro de 1971. Desenhador de construção civil, estudou Eng. Mecânica na ESTiG. Escreve, pinta, apaixonado por livros e cachimbos...

16
Jun 17

Uma nuvem sulfúrica poisa no teu silenciado sorriso,

Agacho-me sobre a terra prometida…

Mas não tenho jeito para a aprisionar na minha mão,

Minutos depois, palavras muitas, perco o juízo,

Pego na luz magoada que ficou em ti esquecida,

À porta de entrada do meu coração,

 

As aventuras na eira

Enquanto cai a noite sobre o espigueiro,

Livros perdidos dentro de um mealheiro…

Para serem vendidos na feira,

 

A casa é pobre, pequena… e aconchegante,

O quintal recheado de poemas envenenados pela charrua,

O meu corpo embebido em clorofórmio vomitando sinalização de rua…

Que o luar se torna brilhante,

 

E a lua,

É tua.

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 16 de Junho de 2017

publicado por Francisco Luís Fontinha às 21:26

23
Ago 14

Procurava nas penteadas espigas de milho,

o sabor amargo de amar,

deitava-me sobre o chão frio do granito ensanguentado da eira,

pincelava o luar de madrugada,

e procurava...

adormecia sem o perceber,

porquê?

e se era aquele o momento de o fazer!

o sino ouvia-se ao longe,

o horário deixou de fazer sentido,

tal como o calendário,

procurava... e nunca as encontrava...

 

As chaves do espigueiro telintavam numa algibeira furada,

que servia de esconderijo a um corpo emagrecido,

cansado,

e ferido...

 

Havia lágrimas nos olhos das frestas do espigueiro,

a madeira envelhecida... rangia... parecia um homem desiludido com a vida,

acordavam-me para o jantar,

e fazia de conta que não ouvia...

nem sentia...

o vento soprar,

e eu procurava... e ele em pequenos círculos... me abraçava,

acreditava que das pálpebras dos pinheiros fugiam as estrelas em papel,

acreditava que à resina regressavam as plumas fluorescentes das meninas de cartão...

e nunca vi o mar acorrentado ao granito ensanguentado da eira,

nem os barcos, nem os marinheiros com odor a sexo,

e no entanto... havia uma mulata que dançava na eira só para mim,

 

O zinco da sanzala gritava,

e um menino em calções chorava grãos de pólen,

não havia abelhas para me consolarem...

nem... nem mangueiras sombreadas nas mãos dos mabecos enfurecidos com o meu sorriso,

 

Bufunfa...

o kimbundu poético da paixão dos pássaros,

o voo silencioso dos dentes de marfim sobre a mesa da sala de jantar,

uma ténue luz que iluminava o capim que jazia nas bermas da estrada,

caminhava, caminhava... e não tocava no granito ensanguentado da eira,

brincava com os papagaios de papel inventados nos seios de um coqueiro,

cintilavam em mim as gazelas, os elefantes... e ao meu lados os entristecidos marinheiros...

e procurava...

adormecia sem o perceber,

porquê?

e se era aquele o momento de o fazer!

Levantar-me do chão frio do granito ensanguentado da eira.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha – Alijó

Sábado, 23 de Agosto de 2014

publicado por Francisco Luís Fontinha às 19:33

07
Jul 11

 

 

Alicerça-se a noite nos braços da lua, pela janela entram os sons da saudade do rio sul, de S. Pedro do Sul, das Termas, de Carvalhais, e na eira de Favarrel o avô Domingos sentado numa pedra a brincar com uma espiga de milho…, oiço junto ao canastro o silêncio dos seus pensamentos, os machimbombos que passeava pelas ruas de Luanda, a fotografia pendurada na parede da sala e que ainda hoje me olha, bom dia meu filho diz-me ele pela manhã, os melros suspensos no tecto da eira e que de vez em quando me sorriam, olhava-lhe nos olhos as lágrimas dos tempos difíceis quando carregava como um burro os pesadíssimos rolos de pinheiro na serração, e para quê meu filho?, Lamentava-se ele, dezoito escudos por dia, dezoito escudos por dia e fome, e o meu sogro António esquecido em França na primeira guerra mundial, o avô velhinho?, poisado nas escadas da casa e a contar os bois em direcção ao pasto, a mastigar as palavras e a recordar que já a guerra tinha terminado há mais de um mês e eles perdidos pelos campos acreditando que o inimigo escondido na copa das árvores, a eira de Favarrel alimenta-se da finíssima poeira das manhãs de Carvalhais, da igreja os toques esquisitos do sino que um ateu nunca compreende, porquê avô?, perguntava-lhe eu, porque são mais felizes os pássaros aqui, abraça-me, quando nos fins de tarde o esperava no portão de entrada, a cidade fervilhava no suor pegajoso da chuva miudinha, e tardes inteiras a contar carros em corridas para o quartel do Grafanil, esta terra roeu-me os ossos meu filho, esta terra meu filho, e dezoito escudos por dia a carregar rolos pesadíssimos de pinheiro, galgando a serra para trazer o leite para a tua tia, descalço para poupar o cansaço das botas, os pés inchavam e mergulhavam nos silvados da noite, e na eira de Favarrel o avô Domingos sentado numa pedra a brincar com uma espiga de milho, o vento desce no agreste da serra e enruga o granito da eira, o canastro decrépito emagrece das ripas de madeira no desespero dos dias, e dou-me conta que o avô Domingos não lá, silenciosamente deixou de brincar com as espigas de milho.

publicado por Francisco Luís Fontinha às 13:41

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