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Cachimbo de Água

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Ele, o vento e a chuva

Francisco Luís Fontinha 16 Mar 11

Do chão emerge a poeira depois da discussão que eu tive com o vento. Não podia aceitar de mão beijada as condições que ele me impunha, e a chuva estava do meu lado.

Eu sentado numa pedra ao abandono junto ao rio, ele soprando ferozmente em torno de mim, e a chuva encostada aos meus ombros, cabeça quieta, a choramingar, triste porque tinha acabado de bater com uma mãozinha numa nuvem,

- e eu triste,

Eu triste e ela é que chorava,

- mariquinhas, quem devia chorar era eu… agora só porque bateu com a mão de raspão numa nuvem…

- de raspão dizes tu, doeu como o caraças…

- coitadinha, que pena eu tenho,

O vento enfurecido,

- vocês os dois não se calam? Começo a ficar farto de vos ouvir,

Pronto, digo eu, não está cá quem falou.

E pronto nada. E eu triste.

E começo a sentir os grãos de areia nos dentes, e ao mesmo tempo que mexia a dentadura arrepiava-me como se estivesse dentro de uma tempestade, olhava para o rio e ele a descansar, quieto, e pensava cá para mim,

- então está bem, este em vez de correr para o mar, não, senta-se junto aos canaviais…, começa a ficar tudo louco,

E de tudo louco eu um pouco. E eu triste.

Começa a ficar tudo louco, e eu acabo de ser presenteado com os excrementos de uma garça mesmo no centro da minha cabecinha,

- que raio, ao ponto que eu cheguei…,

A chuva,

- é a tua decadência,

E quando até os pássaros fazem as suas necessidades sobre nós…, estamos prontos, é o fim,

- pois é chuvinha… e daqui a nada levas um pontapé no rabinho que vais parar à outra margem,

E a chuva cabisbaixa,

- e já agora porque discutiste com o vento?

Parvoíces…

O vento queria que eu voasse sem asas…

- só um louco é que diz uma coisa dessas,

Porquê?

- eu sou a chuva e voo sem asas…

 

 

 

(texto de ficção)

Luís Fontinha

16 de Março de 2011

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