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Cachimbo de Água

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E será que me ouves?

Francisco Luís Fontinha 6 Nov 12

Trazes de ti as chaves complexas da paixão

o vidro da madrugada nas árvores ou o amor

que submerso nas coxas do rio

o púbis equilátero do silêncio

na mão do espinho

à boca confusa da maçã

quando se desembaraça da gravidade

grave gravíssimo o planalto dos sonhos

 

e trazes de ti as chaves

da paixão e descem as gotinhas de desejo

na pele adensada de moluscos e fios de luz

quando da cidade choram as pontes

e todo o aço saudável

derrete na mão de deus

e dizes de ti em ti

os cansaços fictícios que os teus lábios desenham no leito dos amantes indefinidos

 

os ausentes

os oprimidos

os desgostosos dias de cimento

entre ventos e velas de mármore

em lápides

sem alimento

trazes de ti as chaves complexas da paixão

o vidro da madrugada nas árvores ou o amor

 

vem vêm vem ao destino marcado no xisto

vêm as águas preguiçosas do Outono

vêem-se águias e gaivotas e barcos

nas abelhas enferrujadas

vem vêm vem ao meu encontro

a tua língua sílaba doirada

em sol e da lua

à Primavera desejada...

 

E será que me ouves?

 

Francisco Luís Fontinha / 06-11-2012

 

(poema não revisto)

O encontro

Francisco Luís Fontinha 27 Out 11

João espera e desespera a chegada de Sofia, a cama encostada ao fogão na cozinha, os pássaros, os pássaros sob o céu cinzento da quinta, a casa despede-se da manhã,

- “ faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão”,

E Sofia não vem, nunca ao meu lado, desço à garagem e olho o barco que estou a construir e logo que pronto e logo que chegue a Sofia zarpamos pelos terrenos de Palmela em direção à noite,

Ela nunca ao meu lado,

- conto os pássaros da quinta, e hoje não quinta e hoje não pássaros,

E hoje,

Hoje não Sofia,

João espera e desespera,

O pai do João estacionado na clinica,

- “ faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão”,

E percebo que nunca existiu nenhuma Sofia, e percebo que nunca existiram pássaros na quinta de Palmela, e percebo,

- “ faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão”,

Eu sei pai, eu sei,

João espera e desespera a chegada de Sofia, a cama encostada ao fogão na cozinha, os pássaros, os pássaros sob o céu cinzento da quinta, e um livro a que A. Lobo Antunes chamou O Manuel dos Inquisidores…espera e desespera pela chegada de uma Sofia, espera e desespera pela chegada de um João…

Ao cair da noite.

 

(Inspirado e baseado no livro de A. Lobo Antunes “O Manual dos Inquisidores”)

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